Renato Kramer

'Sou metade realidade, metade fantasia', declara Walter Mercado

"A qualquer hora, de qualquer lugar do Brasil, ligue djá", era o final das chamadas do célebre astrólogo porto-riquenho Walter Mercado, resgatado para uma entrevista exclusiva para o programa "Gugu" da última quarta-feira (24).

Com sua vasta cabeleira loura muito armada, que muitos achavam que era uma peruca, e abusando das cores e do brilho em seus figurinos, o consultor esotérico das celebridades foi motivo de admiração para muitos, de imitação para humoristas e de chacota para outros tantos que, em qualquer rodinha de bate-papo, repetiam o bordão clássico de Mercado: "Ligue djá".

O astrólogo conta para Gugu Liberato que nasceu dentro de um barco chegando a Porto Rico. Em que ano? Ele desconversa. Segundo informações não documentadas, Walter estaria às vésperas de completar 84 anos de idade.

Com sua cabeleira já não tão vasta, mas sempre muito armada, e um traje vermelho cravejado de bordados e brilhos, Mercado faz um resumo de sua trajetória. Quando criança, confessa que era muito tímido e inseguro, em compensação brilhante nos estudos. "Era triste, sozinho, calado e lia muito. Eu nunca brincava. Fui um menino muito introvertido.”

Iniciou sua carreira artística como bailarino. Fez balé e flamenco. "Tive muita fama como bailarino", afirma o vidente. Na sequência tornou-se ator, fez grandes peças de teatro: "Fui um grande galã na época, fiquei conhecido, beijei muitas atrizes. Era muito forte, muito sexy. Fui muito bem-sucedido como ator", relembra.

Chegou a gravar dois discos que venderam mais do que a famosa cantora cubana Célia Cruz (1925-2003), considerada a "rainha da salsa". "O público que vinha me consultar comprava cinco, dez discos", explica Walter, que admirava muito a cantora brasileira Maysa (1936-1977).

Para chegar à televisão foi um pulo. "Fiz muitas novelas, o público me adorava", conta Mercado que, ao divulgar um trabalho na emissora Telemundo (USA), em 1969, foi automaticamente contratado para fazer as suas previsões. Em menos de um ano já tinha o seu próprio programa.

"Chegou um momento em que era tanto trabalho", comenta o astrólogo. “Chamavam da Alemanha, Espanha, Inglaterra. Especialmente nos meses de novembro e dezembro. Foi então que eu tive um pequeno infarto", conta Mercado. "Apesar de que eu acredito na eternidade, foi um susto", confessa.

Foi devido ao seu grande sucesso na televisão que Walter passou a atender pelo telefone, na famosa linha 0900, e o Brasil estava incluído no pacote do "Ligue djá". Ele chegava a receber mais de 2.000 ligações por dia, e a cobrança era feita na conta telefônica.

Gugu quis saber se o vidente das estrelas ficou rico. "No dinheiro eu nunca toquei", argumenta Walter. "Minha família administra o dinheiro. Se me perguntar agora, eu tenho 20 dólares comigo, é o máximo que eu tenho. Não me queixo, não me falta dinheiro. Mas eu sou um milionário de amor, de carinho, de fé", desconversa ainda uma vez.

Sobre a sua vaidade, Walter argumenta que o seu público quer vê-lo sempre bem arrumado e ele oferece isso a ele. "Meu público não quer me ver pela manhã, acordando, desarrumado. Quer me ver sempre radiante. Então me arrumo e faço muitas selfies", declara o astrólogo que virou moda no Brasil há 20 anos.

Depois de mostrar a sua casa decorada com extravagância, a sua coleção de 5.000 perfumes e de 1.500 capas brilhantes, o consultor esotérico declara que tem um voto de silêncio em relação aos seus consulentes.

Mas responde quando Gugu lhe pergunta sobre os famosos que já o consultaram: Robert De Niro, Glenn Close, Meryl Streep, Dustin Hoffman e Al Pacino. "São os que mais tive contato". A cantora Madonna e o ex-presidente americano Bill Clinton também estão incluídos na lista das celebridades que o astrólogo atendeu.

O fato de Walter Mercado não aparecer mais na televisão brasileira se deve a uma briga com um produtor seu, na qual chegou a perder o direito de usar o próprio nome artístico e também os seus contratos com as emissoras de televisão. 

Em uma viagem à Índia, em 2002, o astrólogo assumiu então o nome Shanti Ananda, sob orientação de seu mestre: Shanti quer dizer a paz e o amor personificados. Mais tarde, Mercado conseguiu reaver na Justiça o nome com o qual ficou conhecido internacionalmente.

Se ele voltará ao Brasil? "Sim, no Brasil se recarrega as energias. Se você não se sentir bem em lugar nenhum, visite o Brasil", elogia o vidente que responde também sobre a sexo. "O sexo é muito importante, mas sexo sem amor me parece uma coisa primitiva e animal —me desculpe quem faz. Quando se tem amor e outras coisas, surge uma compatibilidade sexual que resulta em nirvana, o êxtase maravilhoso", declara.

Mas ressalta: "Eu não posso falar da minha vida sexual. Nunca deixei que nada entrasse na minha intimidade. Se tive alguma relação, a pessoa já está morta", diz com humor. "Não tive aventuras sexuais. Não creio nesse sexo de cama. Acredito no sexo através de uma compatibilidade mental, emocional e física", argumenta.

"Sempre me perguntam se sou isso ou aquilo, se sou andrógino. Eu tenho uma composição masculina, mas me cuido muito para que tenha uma certa harmonia na figura de Walter Mercado", afirma. "Sou metade realidade e metade fantasia. Acho muito complicado quem procura a alma gêmea, uma espécie de clone não há".

Gugu volta a cutucar Mercado, questionando-o mais uma vez sobre a sua idade. "Quantos anos tenho? Entre 40 e a morte. Eu nunca digo a idade, porque os amigos me dão 50 e os inimigos 100, então para quê me preocupar?", responde categoricamente o homem que tornou internacional o convite "Ligue djá."

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Renato Kramer

Natural de Porto Alegre, Renato Kramer formou-se em Estudos Sociais pela PUC/RS. Começou a fazer teatro ainda no sul. Em São Paulo, formou-se como ator na Escola de Arte Dramática (USP). Escreveu, dirigiu e atuou em diversos espetáculos teatrais. Já assinou a coluna "Antena", na "Contigo!", e fez críticas teatrais para o "Jornal da Tarde" e para a rádio Eldorado AM. Na Folha, colaborou com a "Ilustrada" antes de se tornar colunista do site "F5"

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