Renato Kramer

'O único parceiro que não sofreu comigo foi Chico Buarque', declara Edu Lobo

"Como é que nasce uma melodia?", foi como o apresentador iniciou a entrevista com o compositor Edu Lobo para o seu programa "Roberto D'Ávila" (Globonews) de 02/08/2014, reapresentado na última quarta-feira (27).

"Eu adoraria saber", respondeu o compositor serenamente. D'Ávila ressalta que Edu Lobo é um dos maiores nomes da música brasileira de todos os tempos.

Edu conta que chegou a estudar Direito contra a vontade. O objetivo seria chegar ao Itamaraty. "Que eu, pessoalmente, tenho quase certeza de que também não daria certo por questões de temperamento. Eu não gosto de coisa formal, não gosto de discurso. nem de ouvir, nem de fazer. Eu gosto de música. Eu sempre gostei de música, mas eu não sabia que a música ia ser a minha vida", declara Edu Lobo.

Aos 19 anos, Edu conheceu o poeta Vinicius de Moraes e tornaram-se parceiros. Compuseram juntos 25 canções. "Aquilo foi muito melhor do que um elogio ou um telefonema para um executivo de gravadora", afirma o compositor.

"A vida é feita do acaso, não é Edu?", comenta D'Ávila. "Eu acho", responde Lobo, "mas eu acho também que você tem que estar preparado pro acaso. Se você não estiver com alguma coisa ali preparada para a sorte acontecer, ela vai embora", diz Edu.

A música surgiu na vida do compositor muito cedo. Estudou acordeão dos 8 aos 16 anos de idade. "Eu adoro instrumentos, mas não gostava de estudar acordeão", confessa Lobo. "Por várias razões: instrumento pesado, não gostava da mão esquerda... E detestava estudar música, gostava de tirar de ouvido", confidencia.

Quanto à questão de "talento natural", o compositor se posiciona: "Tem gente que acha que se a pessoa tem talento natural, não se deve mexer, nem estudar, para não perder. Eu acho que não. Esse talento vai ser aprimorado". Edu passou dois anos estudando música em Los Angeles (USA).

Inevitável vir à tona os inesquecíveis festivais de Música Popular Brasileira da Record, dos quais Edu venceu dois: em 1965 com "Arrastão", em parceria com Vinicius de Moraes —defendida por Elis Regina, e em 1967 com "Ponteio", em parceria com Capinam – defendida por Marília Medalha.

Mas o compositor não era muito a favor da competição: "Se você pensar bem, é impossível você comparar músicas que são aprovadas ou reprovadas pelo público imediatamente", argumenta Lobo. Sobre suas diversas parcerias, só elogios: "Tive inúmeros parceiros (Torquato Neto, Chico Buarque, Capinam, Guarnieri, Vianninha, etc) e cada um teve uma importância enorme pra mim. Foram parceiros ótimos. Eu adoro fazer canções, apesar de adorar também fazer coisas instrumentais", declara.

Edu Lobo confessa: "Eu sou extremamente exigente. Sou metido a letrista, só que não sou, e normalmente dou opiniões: palavras que eu peço pra trocar. O único parceiro que não sofreu comigo —e não foi por nenhuma razão de cerimônia, foi o Chico. Eu nuca tive um momento em que eu quisesse trocar alguma coisa nas letras do Chico Buarque. Isso é verdade absoluta", declara Edu Lobo que, em parceria com Chico, venceu o Grammy Latino 2002 de Melhor Álbum de MPB ("Cambaio").

Renato Kramer

Natural de Porto Alegre, Renato Kramer formou-se em Estudos Sociais pela PUC/RS. Começou a fazer teatro ainda no sul. Em São Paulo, formou-se como ator na Escola de Arte Dramática (USP). Escreveu, dirigiu e atuou em diversos espetáculos teatrais. Já assinou a coluna "Antena", na "Contigo!", e fez críticas teatrais para o "Jornal da Tarde" e para a rádio Eldorado AM. Na Folha, colaborou com a "Ilustrada" antes de se tornar colunista do site "F5"

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