Renato Kramer

Laura Cardoso fala sobre morte e rejeita ser chamada de 'velhinha'

"Idosa, veterana, velha, madura, na terceira idade ou na melhor idade?", já iniciou provocando o apresentador Antônio Abujamra (1932-2015) no episódio do seu programa "Provocações" (Cultura) em que entrevistou a atriz Laura Cardoso, reapresentado na última terça-feira (29).

"A minha vida inteira sempre foi o melhor pedaço: a infância, a adolescência, a maturidade, a velhice —tudo é 'o melhor momento'", responde Laura. "Agora a 'velhinha', não! A vivida!", exige a atriz.

"Os jovens de hoje ainda sabem quem é você?", cutuca Abujamra. Laura ri. "Alguns, alguns sabem... alguns", responde a atriz com tranquilidade.

A atriz Laura Cardoso
A atriz Laura Cardoso - Crédito: Bruno Poletti/Folhapress

O apresentador pergunta como está o teatro nos dias de hoje. "O teatro está como ele sempre foi. Com coisas boas, com coisas menos boas, com coisas ruins. Gente que pensa que o teatro é uma banquinha de vender salsicha, e não é. Teatro é um poço de cultura, aonde você diz o que pode dizer, o que não pode dizer —o teatro é sagrado, é o lugar sagrado onde os deuses do teatro te olham e dizem: vai, fala! Faz!", declara Laura Cardoso.

"Você não acha que a juventude está confundindo 'stand up comedy' com teatro?", pergunta Abu. "É, é!", diz Laura rindo discretamente.

"Laura Cardoso estreou na Rádio Cosmos, aos 16 anos, como Laurinda de Jesus Cardoso. Por que você mudou de nome?", quis saber o apresentador. "Mudei porque um colega me disse que Laurinda não era muito sonoro, fácil. Você não quer chamar Ana? Eu disse não. E Laura? É esse!". E ficou, Laura Cardoso.

Sobre a sua transição do rádio para a televisão, Laura considera que foi tudo muito natural. "Eu sempre gostei muito de representar, de me mostrar, que os outros me vissem falando, gesticulando. A transição do rádio pra televisão pra mim foi normal: eu representava em frente a um microfone e de repente era para uma câmera. Foi fácil, não foi difícil", assegura Cardoso.

"Você já fez mais de 50 telenovelas. Qual foi a pior de todas?", quis saber Abujamra. Laura cai na gargalhada, mas se nega a responder. Nem sobre qual teria sido a melhor. "Acho que tudo o que eu fiz eu achei bom", justifica.

Abujamra perguntou à Laura como está a sua cidade: São Paulo. "São Paulo é maravilhoso. São Paulo é o carro-chefe, é onde há trabalho, onde há dinheiro,

onde há muita coisa errada também. Eu amo a minha cidade, e defendo quando posso", afirma Laura. "O que você fazia aos 20 anos que não tem mais coragem de fazer hoje em São Paulo?", cutuca Abu. "Andar pela noite".

A atriz afirma amar todos os seus personagens, mas conseguiu a duras penas destacar a Isaura de "Mulheres de Areia" (1993) e a Sinhana de "Irmãos Coragem" (1995). Quanto a sua maior transgressão nesses seus 86 anos de vida, Laura preferiu não comentar.

Quanto aos jovens atores não terem 'arcabouço cultural', palavras da colega Beatriz Segall, Laura concorda e atribui a essa pressa de querer ser ator, de aparecer no vídeo, de ter um carro, de ter o sofá branco. "O ator esquece que ele tem a obrigação de ser culto. O ator tem que acompanhar o seu tempo em todos os sentidos".

"Laura, como você gostaria de morrer?". "Dormindo. É santo, né? De Deus!". "E se ao morrer você descobrir que há um imenso e silencioso nada?". Provoca Abujamra. "Eu até acredito que não haja nada mesmo", confidencia a grande atriz que afirma: "Eu não vou sair de cena. Enquanto depender de mim, não!".

Renato Kramer

Natural de Porto Alegre, Renato Kramer formou-se em Estudos Sociais pela PUC/RS. Começou a fazer teatro ainda no sul. Em São Paulo, formou-se como ator na Escola de Arte Dramática (USP). Escreveu, dirigiu e atuou em diversos espetáculos teatrais. Já assinou a coluna "Antena", na "Contigo!", e fez críticas teatrais para o "Jornal da Tarde" e para a rádio Eldorado AM. Na Folha, colaborou com a "Ilustrada" antes de se tornar colunista do site "F5"

Final do conteúdo

Comentários

Ver todos os comentários Comentar esta reportagem

Últimas Notícias