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'Maravilhosas', as mulheres que assumem seus corpos e se empoderam dançando

'Nosso corpo conta nossa história', diz Grazi Meyer, dona do estúdio de dança

O coletivo feminista Maravilhosas Corpo de Baile, que tem estúdio de pole dance em São Paulo
O coletivo feminista Maravilhosas Corpo de Baile, que tem estúdio de pole dance em São Paulo - Júlia Zaremba-22.fev.2020/Folhapress
Paula Ramón
São Paulo

Brancas, negras, de cabelos lisos ou crespos, magras ou gordas: em uma aula normal das "Maravilhosas" não há padrão. Todas as alunas ouvem a mesma mensagem na aula inaugural desta academia de dança de São Paulo: "Aqui ninguém critica ninguém".

Atriz formada no teatro, Grazi Meyer abriu o estúdio em 2016 com a premissa de atrair diversidade de silhuetas e histórias e com o objetivo de empoderar as mulheres através da expressão cultural. A academia oferece aulas de pole dance e uma diversidade de coreografias e ritmos que permitem uma variedade inusitada de modalidades, muitas destinadas a públicos específicos como a "Maraviblack", que é "pensada por e para o corpo negro" ou a "Maraviplus Dançantchy", que é "pensada por e para o corpo gordo".

Mas nas no coletivo feminista Maravilhosas Corpo de Baile, a aula que deu origem ao empreendimento, foco é "experimentar o corpo e usar a dança e o encontro como ferramentas de libertação dos padrões estéticos e de comportamento". "Nosso corpo conta nossa história", diz Meyer, 41, às suas alunas. "Quando começamos a entender o nosso corpo, de onde vem e o que representa, começamos a vê-lo de outra forma", prossegue.

CONTRA O ASSÉDIO

O empoderamento nestas aulas semanais passa por entender o próprio corpo e ser feliz com ele, mas também ganhar confiança para se vestir ou se arrumar, respondendo a critérios individuais. "Sou sujeito, não objeto", diz Meyer, que afirma que "o machismo é problema de homem" e que "quem tem que lidar com isso e questionar as masculinidades são os homens".

O Brasil sofre com o flagelo do feminicídio –um a cada sete horas, segundo uma contagem do portal de notícias G1. E traz histórias como a da adolescente que em janeiro filmou o assédio sofrido por um motorista de aplicativo durante uma corrida. Denunciado, o homem justificou o assédio gravado pela adolescente dizendo que ela vestia roupas curtas.

"Se alguém te assediar, te objetificar, te olhar de uma maneira desconfortável, você não está errada, você tem o direito de se comportar, se vestir, se movimentar, ir aonde quiser", diz Meyer.

SEM MEDIDAS

Descalças e com roupas curtas, as Maravilhosas ensaiam coreografias cheias de sensualidade sem se preocupar com celulite, estrias, medidas ou estereótipos de beleza. Fernanda Ferrão, 30, é uma das primeiras alunas do estúdio. Para ela, as aulas marcaram um antes e um depois.

"Mudou a forma como me enxergo no espelho, a forma física e como pago as contas", diz esta jornalista de formação, que adentrou no mundo da modelagem e agora é o rosto da mais recente campanha publicitária de uma famosa rede de academias.

"Tenho um trabalho que explora o que eu não gostava em mim, que era minha imagem", diz ela, que conta como a convivência nas aulas lhe injetou autoestima e confiança. "Sou gorda, peso cem quilos e aprendi que não precisava esperar ser magra para viver a minha vida", diz, enquanto aumenta o volume de seus cabelos crespos, outra mudança de sua experiência na academia.

"Sou negra, mas quando cheguei aqui, usava cabelo liso, aqui decidi fazer a transição capilar", explica.Sua amiga, Cintia Ramos, de 30 anos, deu o mesmo passo e agora vê crescer seus cabelos crespos. "Quando cheguei aqui não gostava de tudo o que retratava essa origem negra que carrego", comenta.

"Aqui construímos algo mais, construímos um sentimento", diz junto a Fernanda Ferrão, que completa: "Não é ir de uma ditadura a outra, é dizer que você pode ser o que quiser."

AFP
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