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Famosas e anônimas aderem ao congelamento de óvulos para adiar cada vez mais a maternidade

Médicos alertam que procedimento não garante uma gravidez futura

Com o sonho de ser mãe, Camila Rodrigues decidiu congelar os óvulos aos 34 anos
Com o sonho de ser mãe, Camila Rodrigues decidiu congelar os óvulos aos 34 anos - Instagram/girellijoias
São Paulo

Foi em uma conversa com uma amiga, que a atriz Camila Rodrigues, 35, que interpreta a protagonista Sophia de "Topíssima" (Record), escutou pela primeira vez sobre a possibilidade de congelar os seus óvulos. "Ela falou: 'Cami, a gente está em uma idade em que ou se tem filho agora, ou se congela os óvulos. Eu falei: 'Imagina, amiga, nós somos muito jovens'."

Rodrigues não sabia, mas, segundo os médicos, a qualidade e a quantidade dos óvulos produzidos pela mulher começam a cair a partir dos 35 anos, o que pode gerar dificuldades para uma eventual gravidez. O problema é que, assim como a atriz, muitas mulheres têm adiado a maternidade, seja para se dedicarem à carreira e aos estudos, seja porque não encontraram o parceiro ideal. 

Levantamento do DeltaFolha, núcleo de jornalismo de dados da Folha, a partir dos dados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos do Ministério da Saúde, o número de mulheres que deram à luz entre os 35 e os 39 anos aumentou 71% nos últimos 20 anos no Brasil. Já os nascimentos de bebês de mães de 20 a 29 anos caíram 15%. 

"Nosso ovário não acompanhou a nossa revolução social", afirma Melissa Cavagnoli, médica especialista em reprodução assistida da Huntington Medicina Reprodutiva. É nesta lógica, que o congelamento é visto como uma saída para quem deseja prolongar o sonho de ser mãe. Entre as famosas que integram o time estão ainda Monique Alfradique, Mariana Weickert, Ellen Roche, Renata Dominguez, Sabrina Parlatore e Claudia Raia.

"A procura [por essa opção] cresceu muito nos últimos anos. Hoje, do total de ciclos realizados no Brasil para fertilização in vitro, uma média de 12% são para congelamento", afirma Nilka Donadio, presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH).

Não há dados oficiais, mas as próprias clínicas especializadas em fertilização apontam aumento na procura por esse tipo de tratamento. Na Huntington Medicina Reprodutiva, por exemplo, de 2012 a 2018 houve crescimento de 192,6% nos casos de preservação de óvulos.

Há dois pontos, porém, que devem ser levados em consideração. Um deles é o alto custo do procedimento, em torno de R$ 15 mil a R$ 18 mil, e que não é disponibilizado pelo SUS (Sistema Único de Saúde) –há unidades, porém, que oferecem o procedimento para mulheres em tratamento contra o câncer, como o Hospital Estadual Pérola Byington, em São Paulo.

O segundo é que o congelamento não garante a gravidez. As médicas explicam que para ter alto índice de engravidar futuramente, é preciso congelar uma grande quantidade de óvulos, estimada entre 15 e 20. E quanto mais velha a mulher for, maior será a quantidade de óvulos necessária. Contudo, a mulher de mais idade tende a produzir menos óvulos –é comum para essa faixa de mulheres fazer mais de uma vez o procedimento, o que gera desgaste emocional e encarece o tratamento.

"As pessoas têm uma ideia de que se tem oito óvulos, vai ter oito embriões. Não é bem assim. Mais ou menos a cada sete, oito óvulos maduros, quando a gente fertiliza, e leva esses embriões até o último estágio de desenvolvimento, ela vai ter em média, um a dois embriões [que representam duas tentativas de gestação]", explica Cavagnoli. "A mulher tem que ser muito bem orientada nesse sentido", acrescenta Donadio.

Há, ainda, as variáveis de cada organismo. Depois de ser alertada pela amiga, a atriz Camila Rodrigues foi atrás do tratamento. Ela estava com 34 anos e descobriu que a sua quantidade de óvulos (chamada reserva ovariana) era baixa para a sua idade. Em uma primeira tentativa de congelamento, o tratamento não deu certo.

"Fiquei muito triste, é um valor alto, vem a cobrança de gastar toda essa grana. Coloquei na minha cabeça: vai ser só mais uma vez. Fiz a segunda vez e congelei cinco, que não é um número elevado, mas fiquei super feliz e agradeci demais", relata. "Eu sempre quis ser mãe, independentemente da forma, pela inseminação, adotando uma criança ou pelo método natural. Esse é o sonho da mulher, ela tem que ir atrás", conclui.  

POR QUE 35?

No Brasil, a idade média que as mulheres entram na menopausa é de 50 anos. Mas o envelhecimento dos óvulos começa bem mais cedo, em geral, a partir dos 35 anos. A médica Melissa Cavagnoli explica que a chance de gravidez na fertilização está muito ligada a idade do óvulo. "Os melhores resultados são com óvulos de até 35 anos. Depois disso, os resultados vão diminuindo gradativamente", afirma.

Por isso, o ideal é que o congelamento seja feito antes dessa idade. "Até os 37 anos, a gente ainda tem bons resultados com o congelamento de óvulos. Depois disso, a paciente pode congelar, mas os resultados se tornam menos favoráveis", explica.

Uma vez congelados, não há data-limite para que o óvulo seja usado. Mesmo mulheres na menopausa podem engravidar normalmente. Nesses casos, o útero é estimulado com hormônios. 

Mãe de dois filhos, Enzo, 22, e Sophia, 16, a atriz Claudia Raia, 52, revela que congelou seus óvulos, porque pensa na possibilidade de ter um terceiro filho biológico. "Ainda não tenho uma data, um prazo. A mulher de 50 anos de hoje não é aquela mulher de 50 de 30 anos atrás. Estamos no nosso melhor momento, no auge."

A atriz lembra que a sua mãe, Odette (que morreu neste ano), a teve aos 44 anos. "E isso foi há 52 anos. Tudo é possível. Sou muito realizada com Enzo e Sophia, mas  encararia de coração aberto ser mãe de novo".

COMO É O PROCESSO DE CONGELAMENTO

Todos os meses, o ovário da mulher disponibiliza uma certa quantidade de óvulos da sua reserva (que já nasce com ela) para gastar. Segundo a médica Cavagnoli, uma mulher de 34 anos, por exemplo, tem em torno de 15 óvulos. Em um ciclo natural, o corpo só consegue amadurecer um único óvulo.

Para o processo de congelamento, os médicos estimulam o ovário a amadurecer os 15 óvulos. Isso é feito por meio de injeções de hormônios, aplicadas pela própria paciente, normalmente, na "gordurinha" da barriga, por um período de dez dias. "Nesse período, a paciente deve ir umas quatro vezes à clínica para monitorar o crescimento desses folículos​. Lá pelo décimo dia, quando vemos que esses folículos estão prontos, marcamos a coleta dos óvulos, geralmente, para dois dias depois", explica Cavagnoli.

Para a coleta, é realizado um procedimento cirúrgico considerado de baixo risco e que demora de 15 a 20 minutos. Não há necessidade de internação, mas para não sentir dor, a mulher é sedada. A paciente fica no local por cerca de três horas. É recomendado que ela fique de repouso no dia e não dirija. 

"É o mesmo processo da fertilização. Só que no congelamento, os óvulos são entregues para o laboratório, que vai fazer a avaliação de quantos óvulos são maduros e podem ser congelados. Se for para a fertilização, a gente fertiliza naquele dia", informa a médica. Para manter os óvulos congelados, o custo varia de R$ 600 a R$ 1.000 por ano. 

Durante o tratamento, a mulher pode sentir algum tipo de desconforto, como inchaço na barriga, dor de cabeça e irritabilidade. Andrea de Carvalho Knabe, 36, médica anestesista, diz que fez o congelamento aos 32 anos, e que o processo é "chatinho", porque demanda tempo e organização. "Mas é um investimento que você faz na sua qualidade de vida. Nem vejo como um gasto." 

Quando decidiu preservar seus óvulos, Knabe estava casada havia três anos e sentia uma pressão das outras pessoas para ter filhos. A maior cobrança, no entanto, era interna. "Minha vida profissional era muito ativa, cheguei até a pensar que não fosse mais ter filhos e comecei a ficar em dúvida sobre o que fazer. Parecia que o tempo estava acabando e tinha que tomar uma decisão sobre o que fazer: 'Congelei por causa disso'", relata.

O fato de ter trabalhado como anestesista no procedimento para coleta de óvulos em outras mulheres a ajudou a tomar a decisão. "Eu via essas mulheres com 38, 39 anos que achavam que não queriam ter filhos, mas daí decidem ter e já não estão mais em uma 'idade ideal'. O contato e a experiência com essas outras mulheres me enriqueceu." Hoje, separada do então marido, Knabe acredita que congelar foi a melhor "decisão que ela teve". "É uma tranquilidade psicológica", diz.

É desta forma também que a atriz Renata Dominguez, 39, enxerga o congelamento, procedimento que ela fez no ano passado. Ela conta que começou a pensar nessa possibilidade aos 35 anos, depois que o seu casamento com o diretor Edson Spinello chegou ao fim. "Recorri à medicina pra me liberar da pressão psicológica do relógio biológico, para eu ter a liberdade de viver sem pressa."

Renata Dominguez afirma que é importante não atropelar as etapas de um relacionamento afetivo. "Não dá para conhecer alguém e falar de filho. Agora posso viver cada momento sem pressa", relata. Para ela todo o processo de congelamento foi bem angustiante. Fisicamente, ela se sentiu inchada e seu rosto ficou coberto de espinhas. “Eu fiquei um tempo isolada”.

A atriz também conta que o processo gerou um desgaste emocional “muito grande”. Com a reserva de óvulos baixa para a sua idade, ela teve de refazer o procedimento mais de uma vez. “É impressionante que filho se torna uma prioridade até mesmo antes de ele existir. Mexe com o nosso instinto maternal e com a nossa fé. Por mais que a gente faça absolutamente tudo que está ao nosso alcance, a decisão final é de Deus. Existe uma série de variáveis que a medicina não controla. Está nas mãos dele. Mas a sensação de ter feito a minha parte, é confortante”, diz Dominguez.

PRESERVAÇÃO DE FERTILIDADE

O congelamento de óvulos também tem sido indicado para preservar a fertilidade de pacientes que farão tratamento contra o câncer, já que a radioterapia e, principalmente, a quimioterapia podem prejudicar os óvulos. "A quimio mata células primordiais. Como o óvulo também é uma célula primordial, muitas dessas pacientes tem falência ovariana precoce, a menopausa precoce", diz a médica Melissa Cavagnoli. 

O congelamento é feito antes do início do tratamento e, segundo a médica Nilka Donadio, não atrasa nem atrapalha o tratamento contra o câncer. "Há, normalmente, um período de espera pós cirurgia e antes de começar a quimioterapia, e nós fazemos o procedimento nesse intervalo."

Ela também diz que, mesmo os cânceres que estão relacionados a hormônios, como o de mama, por exemplo, não são prejudicados pelo processo de congelamento. "Nós temos hoje medicação para contrabalancear isso [a utilização dos hormônios] para que a mulher possa fazer a preservação da sua fertilidade."

Foi o que fez a empresária Luciana Lira de Araújo, 37, que teve câncer de mama. Ela recorda que a mastologista perguntou se ela tinha filhos ou se gostaria de ter. "Respondi que era recém-casada e que era um sonho nosso. Ela me orientou a procurar o congelamento, porque o tratamento contra o câncer é agressivo. [O congelamento] nem passava pela minha cabeça, porque quando você recebe a notícia câncer, você trava nessa palavra e não consegue ouvir mais nada." 

Araújo fez dois ciclos e conseguiu congelar 17 óvulos. No seu caso, o tratamento contra o câncer não prejudicou a sua fertilidade, mas para ela foi muito positivo ter essa tranquilidade antes de todo o processo. "Meu sonho de ser mãe está mais vivo do que nunca", diz a empresária, que está curada do câncer. 

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