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Após a maternidade, mulheres deixam as suas profissões para ajudarem outras mães no parto

Doulas ganham mais espaço antes, durante e depois do nascimento

Doula Mariana Noronha com Dulce Meira Lemos de Oliveira, mãe de Gregorio, de 4 dias
Doula Mariana Noronha com Dulce Meira Lemos de Oliveira, mãe de Gregorio, de 4 dias - Rubens Cavallari/Folhapress
Fernanda Pereira Neves
São Paulo

​Que a maternidade muda a vida de uma mulher todos já sabem. Será amor incondicional, responsabilidade sem fim, cobrança constante, aperto nas finanças. Mas algumas mães acabam indo além. Seja para dividir suas experiências incríveis ou para evitar que outras passem por traumas iguais aos delas, mulheres optam por ajudar novas mães. 

Foi assim com Mariana Noronha, 38, que deixou a carreira de assistente executiva de uma rede de supermercados para ajudar outras mulheres a serem mães. Primeiro de forma voluntária, ao dar conselhos e apoiando na hora do parto, mas depois já como doula. Hoje, ela afirma de forma categórica: "não voltaria ao trabalho anterior". 

"Depois que eu pari, pensei ‘ferrou’. Eu tinha que ajudar outras mulheres, não poderia ganhar na loteria e não dividir o prêmio", brinca ela se referindo a sua segunda gestação. Um parto natural, como ela sempre havia sonhado, e apenas um ano depois de passar por uma cesária, o que, segundo ela, é um grande tabu. 

A doulagem é uma prática ainda em crescimento e não envolve nenhum procedimento médico. Consiste em apoio físico e emocional para antes, durante e depois do parto. A ajuda pode vir por meio de palavras de encorajamento, abraços, massagens, um olhar ou uma dica para relaxar por meio da respiração, por exemplo. 

Janie Paula resolveu se tornar doula após nascimento da segunda filha - Ronny Santos/Folhapress

Cada doula trabalha de um jeito diferente. O serviço pode ser feito de forma voluntária ou com pagamentos, que ficam em torno de R$ 2.000 e R$ 3.000, segundo doulas ouvidas pela reportagem. Já o acompanhamento acontece desde início da gestação ou apenas perto do parto, embora haja casos em que inclui ajuda depois do nascimento. 

Para assumir a doulagem como profissão, Noronha fez o curso de doula, que ela mesma classifica como básico, raso, mas fundamental para acompanhar partos em hospitais. As unidades que permitem esse tipo de serviço costumam fazer um cadastramento apenas com doulas que fizeram o curso –para parto domiciliar não é necessário. 

Mas não foi apenas a necessidade de compartilhar as alegrias que levaram Noronha à doulagem, mas também as dificuldades no nascimento do seu primeiro filho, há cerca de sete anos. Ainda sem conhecer o trabalho das doulas, ela fez planos para um parto normal, mas não conseguiu, sendo levada a uma cesária desnecessária. 

“Ainda na maternidade começou a cair a ficha de que aquilo estava esquisito e eu comecei a pesquisar para entender. Foi assim que descobri que a cesária era desnecessária no meu caso e que existia todo um universo por trás daquilo. Descobri a humanização do parto. Engravidei logo depois e aí falei ‘é minha vez, vou mergulhar de cabeça’." 

O processo foi semelhante com Janie Paula, 35, que conheceu o serviço de doulagem após sofrer violência obstétrica em seu primeiro parto, novamente uma cesária desnecessária. "Eu tinha 16 anos, e o médico falou que o bebê não ia passar e me levou para uma cesária, ninguém entrou comigo, os médicos fizeram piada na hora da cirurgia." 

"Tive depressão pós-parto, crise de labirintite e hoje entendo que foi uma não digestão de um evento traumático”, conta ela, que só entendeu o que tinha ocorrido quando começou a pesquisar mais para seu segundo parto, 12 anos depois. Dessa vez, um nascimento domiciliar, com uma doula e uma parteira. 

Foi o encantamento com a segunda maternidade que fez Janie procurar, primeiro, o curso de doula de pós-parto, depois o de doula de parto. Renunciou à carreira em cinema e publicidade, que exigia 12 horas diárias de dedicação, e às viagens, já que precisa ficar à disposição para os nascimentos, mas em cinco anos já contabiliza 400 partos. 

Um desses partos foi o da publicitária Tatiana Tsukamoto, 35, que teve seu primeiro filho há sete meses, com a ajuda de Janie. "A doula não tem olhar médico, técnico, mas tem um papel muito importante que é do apoio emocional. Desde a 25ª semana a gente se encontrava e ela explicava como seria, a gente falava das expectativas." 

Mariana Saba Utimati, 36, também optou por uma doula em seu parto, ocorrido há oito meses, repetindo na capital paulista a experiência que já tinha tido na primeira gestação, em Singapura. "Ele nasceu de quase 41 semanas, eu estava desesperada, mas as conversas e exercícios foram fundamentais para dar motivação e confiança", afirma. 

"É um grande diferencial você ter suas vontades respeitadas no pior momento de dor da sua vida. Uma doula e um obstetra pró-parto humanizado é a receita para um parto feliz”, brinca Utimati, que dessa vez escolheu a doula já perto do parto, pois achava inicialmente que já sabia como funcionaria, após a primeira experiência. 

A escolha veio após indicação de seu médico, também focado em partos humanizados. Segundo doulas ouvidas pela reportagem, geralmente, a indicação é o caminho usado pelas gestantes que optam por uma doula, seja de amigas, parentes ou médicos. Mas também por buscas em internet.  

Laysa Duch, 38, que acompanhou o parto de Utimati, também se tornou doula após um nascimento complicado em sua primeira gestação, ainda na adolescência, e decidiu, não trocar de profissão, mas unir os dois interesses. Fisioterapeuta e acupunturista, ela adaptou esses serviços na doulagem e trabalha hoje com gestantes e puérperas.

"Imagine você procurar uma coisa a vida inteira, quando achei foi muito intenso. Eu fazia o que gostava, mas não era o que me preenchia. Eu tratei todo meu parto, todas as amarguras que guardei por 21 anos no curso [de doula]. Falei para mim mesma: ‘é isso que eu quero, é isso que eu procurei a vida inteira’”, conta Duch. 

APRENDENDO A RESPIRAR

“Não achei que era tão importante pagar alguém para me ensinar a respirar”. A frase se refere ao serviço da doula Laysa Duch durante um trabalho de parto. Mas não foi dita pela mãe, que dava à luz, mas ao pai, que acompanhava o nascimento de seu segundo filho. “Eu achei que ia morrer”, chegou a dizer ele à ajudante do casal. 

Para Duch, a frase foi dita no último parto que ela realizou, após horas em que o pai acompanhou o trabalho de parto, repetindo as recomendações que ela dava à gestante. “Era ele que queria uma doula”, chegou a relatar a mulher dele durante o processo de nascimento do filho. Ela dizia lembrar de tudo vivido com o primeiro filho. 

Doulas ouvidas pela reportagem afirmam que os homens também estão mais abertos ao trabalho delas durante o parto, seja por uma vontade própria ou como uma forma de respeitar o desejo da mãe. "A doula não tira o lugar do marido, ela apenas amplia o olhar do médico para um olhar mais sensível", afirma a doula Janie Paula. 

Mariana Saba Utimati , 36, conta que a presença da doula foi importante para seu marido, no nascimento do segundo filho do casal, há cerca de sete meses. “É muita carga emocional para ele também. A gente já tinha tido uma doula no parto do nosso primeiro filho, então ele queria nesse, ele sabia o valor dela no processo." 

​As mães que buscam uma doula são em sua maioria mulheres que já tiveram alguma experiência negativa ou têm uma irmã ou amiga próxima que já teve esse tipo de ajuda no trabalho de parto e viu como é fundamental. Já do lado delas, estão os companheiros em 99% dos casos, apontam doulas ouvidas pela reportagem. 

VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA 

O Ministério da Saúde emitiu um despacho, na última terça-feira (7), em que defende abolir de políticas públicas e normas o uso do termo “violência obstétrica”, citado frequentemente para definir casos de violência física ou psicológica praticados contra gestantes na hora do parto.

Texto publicado pelo Ministério da Saúde em 2017 definia esse tipo de violência como aquela que ocorre na gestação ou parto, podendo ser “física, psicológica, verbal, simbólica e/ou sexual, além de negligência, discriminação e/ou condutas excessivas ou desnecessárias ou desaconselhadas, muitas vezes prejudiciais e sem embasamento”.

Agora, no entanto, a pasta afirma que o termo tem conotação inadequada para esse tipo de caso. A justificativa é que, na definição de violência pela Organização Mundial de Saúde, estaria associada “claramente a intencionalidade com a realização do ato, independentemente do resultado produzido.”

Especialistas contestam a nova decisão do ministério. Para a médica Sônia Lansky , que foi uma das coordenadoras regionais da pesquisa Nascer no Brasil, da Fiocruz, que entrevistou mais de 23 mil mulheres sobre a assistência ao parto no Brasil, excluir o uso do termo pode soar como uma forma de censura institucional.

“Não há como cercear a liberdade de informação e como as mulheres identificam esse tipo de violência. É um problema de grande relevância em saúde pública. O ideal seria discutir porque esse incômodo tão grande e esclarecer que não é dirigido a ninguém em específico mas à situação da violência obstétrica. É uma violência estrutural”, diz.

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