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Depoimento: Porque eu decidi congelar os meus óvulos

Mulheres aderem ao congelamento de óvulos para adiar maternidade

Processo de vitrificação (congelamento) de óvulos
Processo de vitrificação (congelamento) de óvulos - Divulgação/Huntington Medicina Reprodutiva
Karina Matias
São Paulo

"O nosso ovário não acompanhou a nossa revolução social." A frase da médica Melissa Cavagnoli, especialista em reprodução assistida da Huntington Medicina Reprodutiva, ilustra bem o sentimento de milhares de mulheres, inclusive o meu: por que precisamos ter um prazo para ser mãe?

A medicina evoluiu, a fertilização in vitro está aí para nos ajudar, mas há um aspecto que não mudou: vamos entrar na menopausa e parar de fabricar óvulos. Bem antes disso, a partir dos 35 anos, a qualidade e a quantidade dos nossos óvulos vai começar a cair drasticamente. Por outro lado, os homens não param de produzir espermatozoides. 

Sim, eu sei que a vida é injusta. O problema é que, em muitos momentos, ela parece ser ainda mais injusta com as mulheres. Afinal, ter 35 anos hoje é, para muitas, estar ainda em busca de melhores oportunidades profissionais, lutando pelo seu lugar ao sol. Sem falar do outro lado: o afetivo. E quem, como eu, ainda não encontrou um homem com quem queira ter filhos, formar uma família? Faz o quê? 

 

É como disse a médica Andrea de Carvalho Knabe, 36, ao me contar sobre o porquê decidiu congelar os seus óvulos: "Sabe quando você vai achando que o tempo está acabando e você precisa tomar uma decisão sobre o que fazer?" É exatamente assim que eu me sinto. Como se estivesse com um revólver apontando na minha cabeça me lembrando o tempo todo: o seu tempo está acabando, tic-tac, o seu tempo está acabando, tic-tac.  

No meu caso, esse tipo de pressão interna [e de toda a sociedade] evoluiu para algo físico. Um mês antes de completar 35 anos, no dia 21 de agosto de 2017, eu acordei de madrugada com calores. Tinha feito meses antes uma reportagem sobre menopausa precoce e, naquela madrugada com a péssima colaboração do Google, fiz o meu próprio diagnóstico: entrei na menopausa, o meu mundo acabou. 

Até o exame ficar pronto, foram duas semanas de estresse, tristeza e nervosismo. O meu diagnóstico não se confirmou, e os calores que, segundo os médicos são emocionais, só aumentaram ainda mais o meu drama: "Quero ser mãe? Congelo os meus óvulos? O que eu faço?"

Fui procurar um médico especialista e aí veio mais um choque: o congelamento tem um custo alto, em torno de R$ 18 mil. Há mais um detalhe: ele não é garantia de que vai dar certo no futuro. Eu pensava que bastava um óvulo e pronto. Nada disso. O recomendado é congelar de 15 a 20 óvulos.

Depois de muita economia e de muita análise, um ano depois, em dezembro de 2018, resolvi fazer o congelamento. O processo em si não é difícil, mas demanda tempo, já que, durante dez dias, o médico vai acompanhando pelo ultrassom o crescimento dos folículos. Com exceção da minha mãe, escondi o tratamento da maioria das pessoas, mesmo das mais próximas.

Consegui apenas quatro óvulos, o que é considerado pouco. Mais do que o congelamento, no entanto, acho que o que tem me ajudado, além da terapia, é saber que não estou sozinha. Que, de certa forma, vivo o drama das mulheres do meu tempo. E, por isso, temos que nos ajudar. Esse é o motivo de revelar a minha experiência aqui. Talvez, possa auxiliar alguém. 

Na apuração para fazer a reportagem sobre o congelamento, descobri várias atrizes e mulheres "comuns" que passaram ou estão passando por situação semelhante. Ver como muitas delas conseguem encarar tudo isso de forma mais leve é um alento. Quando eu penso sobre o assunto ainda dói. Mas deixar a culpa de lado e entender que existem muitas formas de ser mãe tem me ajudando a sair dessa armadilha da natureza.

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