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Dança na terceira idade faz bem à saúde, evita a solidão e isolamento; confira roteiro de bailes

Personagens contam suas histórias e os benefícios até para a memória

Norival Eli, 65, e Celina Caldas, 55, fazem amizade em baile da zona oeste de São Paulo
Norival Eli, 65, e Celina Caldas, 55, fazem amizade em baile da zona oeste de São Paulo - Rubens Cavallari/Folhapress
Descrição de chapéu Agora
Lara Pires Leandro Vieira
São Paulo

​Com belos trajes e aparência capri­chada, homens e mulheres acima dos 50 anos frequentam espaços culturais e clubes da cidade com um objetivo em comum: usufruir dos prazeres da dan­ça. A trilha, normalmente, reúne relei­turas mais cadenciadas de sucessos atuais e um verdadeiro flashback, com hits das décadas de 1950, 1960 e 1970.

A dança é uma atividade que faz bem à saúde física e emocional em qualquer idade. Mas, quando se trata da terceira idade, o benefício é ainda maior: a práti­ca evita a solidão e o isolamento. Os aposentados Helena Avelino Fer­reira, 73, e Abilio Borges dos San­tos, 73, são casados há 11 anos e frequentam o tradicional Clube Pirati­ninga todos os domingos, há cinco anos, onde dançam juntos.

“Há 20 anos me di­vorciei e comecei a vir aos bailes com uma amiga, para me distrair”, lembra Helena. “Adoro dançar. Me relaxa, e eu fico muito feliz ao ouvir as músicas do meu tempo”, completa.

Helena teve câncer de mama em 2006 e, novamente, em 2016. Passou por duas cirurgias para a retirada dos nódulos. Ela atribui à dança o fato de não ter se entregado à depressão. “Eu saía para dançar e não ficava em casa pensando em doença nem em tristeza.”

O marido dela também encontrou na dança sua recuperação. Há 15 anos, so­freu um AVC (acidente vascular cere­bral) e ficou um tempo paralisado, com dificuldade para mexer as pernas.

“Foi a dança que me ajudou a recuperar os movimentos. Fui me soltando e hoje es­tou ótimo”, explica Santos. “A música me uniu à Helena. Eu a levei para fazer aula de canto em um coral, e ela me levou para a aula de dança. Somos muito felizes juntos”, conta.

A atividade conquista até quem já é acostumado ao mundo das artes. O ator Stepan Nercessian, 64, é um exemplo. Em 2006, ele foi vice-cam­peão do Dança dos Famosos, quadro do programa Domingão do Faustão (Globo) em que celebridades compe­tem em diferentes ritmos. "Foi ótimo ter feito parte do quadro. Achei que tinha sido chamado só pa­ra ser o participante fora de forma. Fuime envolvendo e me apaixonando por aquilo, até que cheguei à final." 

Nercessian lamenta não ter conse­guido manter o hábito após o programa e diz que, hoje, só dança de vez em quan­do. “É uma forma lúdica de se exercitar. Além de divertir, evita as chatices que são encontradas nas academias. É uma atividade que movimen­ta o corpo e faz bem para a alma.”

Um artista que concorda com essa máxima é o cantor Sidney Magal, 68. Em 2016, ele fez parte do elenco do Dança dos Famosos, sendo elimi­nado na segunda semana. Mas essa manifestação artística nem de longe deixa de fazer parte de sua vida. "Danço desde antes da minha carreira de cantor. É uma maravilha, porque une a expressão do corpo com a música, a ar­te mais linda que há”, declara-se.

Magal ressalta o bem que a modali­dade pode fazer à mente. “Quem assiste a um número de dança não tem ideia do trabalho que é aprender uma coreo­grafia. Essa disciplina que a dança ensi­na a gente leva para a vida toda.”

CUIDADOS BÁSICOS

Antes de começar a rodopiar pelo sa­lão, no entanto, vale fazer um checkup da saúde, a fim de evitar lesões ou ou­tros problemas. É o que indica Anna Ca­rolina Peres, geriatra da AME Idoso La­pa e da Clínica Vita.

“Será preciso ava­liar a pressão arterial, o ritmo cardíaco e a estrutura articular do corpo. O estilo
da dança deve ser compatível com o es­tado de saúde. Pessoas com insuficiên­cia cardíaca devem praticar ritmos mais calmos ou dança sênior”, diz.

Depois dessa avaliação médica, o ido­so deverá levar um atestado de saúde ao professor de dança, para que ele possa orientá-lo em suas atividades. “Existe uma modalidade chamada dança sênior, que é feita sentado ou em pé, e bem mais lenta. Foi pensada justa­mente para a terceira idade. Ela é muito indicada”, diz Anna.

Ritmos que exigem muito movimento de cabeça, como o zouk, podem provo­car desequilíbrios e não são recomen­dados. Os professores indicam estilos que não exijam força nem provoquem muito impacto no corpo.

Caso o aluno esteja em boa condição de saúde, mas apresente dores depois de começar as aulas, vale fazer uma nova avaliação. “Quando a pessoa pas­sa muito tempo sem praticar atividade física, é comum e natural que sinta do­res musculares. Mas elas devem ir di­minuindo com a frequência do exercí­cio”, afirma Anna Carolina.

“Ainda as­sim, caso sinta algum incômodo, o idoso deve informar o professor, para evitar lesões articulares e musculares. Desta forma, o profissional poderá adaptar os movimentos conforme as limitações do aluno”, explica Anna. “Na dúvida, e no caso de a dor permanecer forte, procure ajuda médica e explique os movimentos feitos em aula.”

O professor de dança Caio César Amorim lembra que as pessoas têm preparo físico e limitações diferentes e afirma que, por isso, não é possível se­parar os idosos apenas em um grupo. Cada aluno terá as próprias dificulda­des ou facilidades para aprender a dan­çar. “Existem muitos idosos com limita­ções físicas e dores crônicas, mas isso não os impede de dançar”, afirma.

Segundo ele, é comum que muitos se sintam incapazes ou achem que não conseguirão aprender os movimentos por causa da idade avançada. “Mas sempre digo aos meus alunos que o importante é estarmos juntos, e cada um seguir no seu ritmo. O fundamental é trabalhar a própria mente, pensar posi­tivo e tentar dançar do jeito que conse­guir, sempre com um sorriso no rosto. A dança muda a vida do idoso e lhe dá es­perança e alegria”, explica Amorim.

Exemplo disso é a recepcionista Celi­na Caldas, 55. Ela começou a fre­quentar os bailes da terceira idade a convite de uma amiga e, agora, compa­rece neles em todos os finais de sema­na. “Acho que, em outra vida, fui dança­rina. Tenho paixão por dançar e fiz até uma tatuagem sobre a dança, há oito anos”, diz.

“Conheci muitos amigos nestes anos de baile e sempre combino de encontrá-los.” Celina está solteira e afirma que não vai aos bailes com o ob­jetivo de encontrar um namorado. “Até hoje não apareceu ninguém que me in­teressasse, mas, quem sabe?”

O aposentado Norival Eli, 65, frequenta os bailes há mais de 20 anos. “Operei do coração há 12 anos, e o médi­co me pediu para fazer caminhadas to­dos os dias, por quatro horas. Perguntei se eu poderia dançar, em vez de andar, e ele concordou. Então, eu vou a bailes todos os dias da semana. Dançar para
mim é necessário”, decreta ele.

Segundo o professor de dança Valter Machado, os ritmos favoritos da tercei­ra idade são bolero e forró. “É um prazer dar aula aos idosos, já que eles não têm pressa em aprender, divertem-se com mais facilidade do que os mais jovens e têm muito respeito com professores.”

Os benefícios e ganhos da dança para os idosos são muitos, tanto físicos quanto emocionais. “Eles percebem melhora respiratória, cardíaca e mus­cular”, diz o professor Caio César Amo­rim. Ele faz, ainda, um lembrete: “Quem é muito sedentário ao longo da vida tende a travar mais cedo e a ter mais di­ficuldade de locomoção”.

O aposentado Antônio Ademar San­tos, 68, conta que ficou viúvo há dez anos e que a dança o ajudou a ven­cer a melancolia provocada pelo luto. “Fiquei muito triste. Cuidei da minha mulher até o fim e, depois que ela mor­reu, me senti muito solitário”, conta.

“Até que voltei para a dança, coisa que já gostava de fazer quando era moço, e ela me salvou. Hoje, tenho amigos, pa­quero e conheço muita gente bacana. Os bailes unem tudo o que a gente pre­cisa: alegria, companhia e música.”


VEJA ONDE APRENDER A DANÇAR

Ame Idoso Sudeste Dança sênior
Às terças, a partir das 12h30 | Inscrições feitas no local | Grátis | R. Domingos de Morais, 1947, Vila Mariana, tel. (11) 4280-1945 ramal 8016 

Casa de Cultura Chico Science Evento exclusivo para pessoas acima de 60 anos | Todas as sextas até 7/12 | Das 12h às 15h | Grátis | Não é necessário inscrever-se, basta chegar | Av. Pres. Tancredo Neves, 1265, Vila Moinho Velho, tel. (11) 2969-7066

Centro Cultural da Penha Aulas de samba-rock para todas as idades | Às quintas, às 16h, e aos domingos, às 18h30 | Grátis | Inscrições feitas no local | Largo do Rosário, 20, Penha, tel. (11) 2295-0401

Centro de Referência do Idoso da Zona Norte
Dança sênior - às segundas, às 8h às 9h; terças às 14h | Dança rítmitca e circular - às quartas, às 9h e 9h30 | Coreografia - às quartas, 10h30 | Dança de salão - às quintas, 10h | Grátis | Para realizar a inscrição é necessário apresentar atestado médico (das especialidades: cardiologia, geriatria e clínica geral), além de RG, CPF e comprovante de endereço, vindo pessoalmente ao local para realizar o cadastro e checar as vagas disponíveis | R. Voluntários da Pátria, 4301, Santana,  tel. (11) 2972-9200

Clube Piratininga Aulas de dança de salão | Segundas e quartas, às 14h | R$ 100 por mês com duas aulas por semana. É possível fazer aula experimental por R$ 5 | Inscrições e informações: tel. (11) 3662-2946 | Al. Barros, 376, Santa Cecília

Instituto Paulista de Geriatria e Gerontologia José Ermírio de Moraes Aulas de danças específicas para pessoas com acima de 60 anos | Às segundas, às 16h, e às quintas, às 10h | Grátis | Inscrições e informações: tel. (11) 2030-4007 | Pça. Padre Aleixo Monteiro Mafra, 34, São Miguel Paulista

 

Onde dançar

Casa do Sargento Tem baile às sextas e aos sábados, com repertório que reúne ritmos variados | Às 21h
R$ 50 (R$ 25 acima de 60 anos) | Na rua Scuvero, 195, Cambuci, tel. (11) 3208-2504

Clube Piratininga O baile mais tradicional de São Paulo apresenta ritmos diversos | Às quintas e domingos, das 16h à 0h. Aos sábados, das 19h às 2h | R$ 25 (qui. e dom.) e R$ 40 (sáb.) | Na al. Barros, 376, Santa Cecília, tel. (11) 4508-8872

Instituto Melhor Idade Estação Vida Tem banda ao vivo apenas aos sábados. Às terças e quintas as músicas tocadas são de CD. Só entra quem tiver mais de 50 anos | A partir das 13h | Grátis | Na av. Francisco Matarazzo, 455, Água Branca, tel. (11) 3865-6917

Instituto Paulista de Geriatria e Gerontologia José Ermírio de Moraes Baile com música ao vivo exclusivo para maiores de 60 anos | Às sextas, das 14h30 às 18h30 (não abre em feriados) | Grátis | Na pça. Padre Aleixo Monteiro Mafra, 34, São Miguel Paulista, tel. (11) 2030-4007

Galeria Olido O Baile dos 70 + vai eleger três duplas de destaque na pista de dança para serem coroadas como Reis e Rainhas 70 + | Inscrições devem ser feitas pelo email obaile70mais@mesa2.com.br ou presencialmente | Dia 27/9, Número máximo de participantes: 200 casais | Das 15h às 17h - inscrições se houver vagas restantes | Às 18h - início do baile | Dia 30/9 | A partir das 14h, coroação dos reis e rainhas do baile | Na av. São João, 473, centro, tel. (11) 3331-8399

Roma Danças Baile com ritmos diversos | Às quintas, das 14h às 19h. Aos sábados, das 14h às 18h e das 23h às 4h. Aos domingos, das 14h às 13h | A partir de 10/9 passará a ter baile também às segundas, das 17h às 23h | R$ 15 a entrada e R$ 10 por um lugar à mesa; às segundas, a entrada custará R$ 10 | Na rua Roma, 485, Lapa, tel. (11) 3672-6956

Sesc Pompeia “Segue o Baile” é um projeto específico para a terceira idade e conta com shows diferentes a cada semana | Às quartas, às 16h | Grátis | Na r. Clélia, 93, Pompeia, tel. (11) 3871-7700 | Recomenda-se chegar com uma hora de antecedência

Sesc Santo André Específico para idosos. Há danças circulares em que todos, de mãos dadas, apoiam e auxiliam seus companheiros | Às quartas, às 14h | Grátis | Na rua Tamarutaca, 302, Vila Guiomar, tel. (11) 4469-1200

União Fraterna Música ao vivo | Às segundas, das 17h à 0h. Às sextas, das 18h às 2h | R$ 15 a entrada e R$ 20 por um lugar à mesa | Na rua Guaicurus, 27, Água Branca, tel. (11) 3672-0358 

Zais Não é especificamente para idosos, mas os bailes de sábado à tarde têm predominância de pessoas de mais de 60 anos. Banda ao vivo toca ritmos variados | Aos sábados, a partir das 15h | R$ 15 | Na rua Domingos de Morais, 1.630, Vila Mariana, tel. (11) 5549-5890

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