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Descrição de chapéu The New York Times

Dan Schneider: Por onde anda criador das séries 'iCarly' e 'Drake e Josh'

Diretor de sucesso da Nickelodeon deixou a companhia em 2018

Dan Schneider em Calabasas, Califórnia, Estados Unidos Philip Cheung - 12.jun.2021/NYT

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Matt Stevens e Julia Jacobs
Beverly Hills, Califórnia
The New York Times

Era a maior noite do ano para o entretenimento infantil, e alguns dos maiores astros da Nickelodeon, de diversas gerações, se reuniram para homenagear Dan Schneider, o homem que os tornou famosos.

“Você não só mudou as vidas de todos nós, mas mudou a televisão infantil”, disse Victoria Justice, estrela de “Victorious”, quando Schneider subiu ao palco para receber o primeiro e único prêmio já concedido pela Nickelodeon pelo conjunto de uma carreira.

Schneider estava no auge de seu poder quando subiu ao palco no Kid’s Choice Awards de 2014, cercado por uma multidão de estrelas adolescentes. Ele vinha desfrutando de um sucesso sem paralelos como roteirista e showrunner na Nickelodeon, e ajudou a definir os rumos da rede por duas décadas, com séries de sucesso como “All That”, “The Amanda Show”, “Drake e Josh”, “Zoey 101”, “Victorious” e, talvez seu trabalho mais emblemático, “iCarly”.

Mas apenas quatro anos mais tarde, o homem que o The New York Times descreveu um dia como “o Norman Lear da TV infantil” estava fora da rede. No segundo trimestre de 2018, ele e a Nickelodeon divulgaram um comunicado conjunto anunciando sua separação.

Schneider desapareceu quase instantaneamente, voltando para casa com os US$ 7 milhões (R$ 35,8 mi) que ainda tinha a receber pelo seu contrato. Sua conta do Twitter, sempre muito movimentada, praticamente se calou. Ele raramente aparecia em público.

E embora o anúncio do fim de seu relacionamento com a Nickelodeon informasse que ele buscaria “novas oportunidades e projetos”, por anos não houve indicação de que Schneider, criador de sucessos que ajudaram a definir os parâmetros da comédia para a geração milênio e a geração Z, tivesse programas novos a caminho.

Em junho, quando a Nickelodeon Studios lançou sua versão repaginada de “iCarly” no serviço de streaming Paramount+, isso aconteceu sem Schneider, uma decisão que renovou o mistério sobre os motivos para que uma figura que dominava o setor tivesse desaparecido da programação.

Mas agora, entrevistas com antigos colegas, amigos e executivos de TV pintam um retrato muito mais completo sobre sua saída e os pontos fortes e fracos de Schneider. Elas revelam que, embora tenha criado uma grande sequência de sucessos e tivesse um ouvido perfeito para o vernáculo dos adolescentes e pré-adolescentes, trabalhar com ele podia ser difícil.

A realidade é que, antes do anúncio de sua saída, a ViacomCBS, controladora da Nickelodeon, havia investigado Schneider e constatado que, embora muitos colegas elogiassem sua atenção a detalhes e ética de trabalho, muita gente que trabalhou com ele o considerava verbalmente abusivo.

Schneider, em sua primeira grande entrevista desde que deixou a Nickelodeon, se recusou a comentar sobre a investigação. Mas defendeu seu estilo de liderança, negou que sua saída tenha sido acrimoniosa e descreveu a decisão como uma confluência natural de eventos depois de um período “exaustivo” no qual ele até produzia 50 episódios novos de séries por ano.

“Eu fiz uma pausa para tomar conta de muitas coisas que deixei lado por décadas”, disse Schneider, apontando que emagreceu mais de 45 quilos desde que parou. “O que quer que eu venha a fazer a seguir, quero que seja melhor do que aquilo que fiz no passado”. A revisão da Viacom surgiu em meio a rumores de internet que indicavam que a presença de Schneider no mundo do entretenimento infantil era inapropriada.

Internautas postaram compilações contendo cenas de séries de Schneider, vídeos que ele gravou nos sets e fotos dele ao lado de atores mirins, a fim de questionar o comportamento dele para com os jovens com quem trabalhava. Imagens das séries que mostravam personagens com os pés descalços foram apontadas como provas de fetiche. Outras cenas foram dissecadas e discutidas como momentos roteirizados de insinuação sexual, interpretados por um elenco adolescente.

Schneider disse estar bem ciente dessas insinuações, que ele descreveu como “ridículas”. Disse que era triste que as companhias de mídia social possam divulgar “qualquer mentira” livremente. Crianças acham graça em pés descalços, e suas séries não faziam qualquer esforço para sexualizar suas jovens estrelas.

“Era um estilo de comédia completamente inocente”, ele afirmou. Mas o ruído da internet havia despertado a atenção dos chefes de Schneider, em 2018, também o ano em que o movimento #MeToo ganhou força.

A ViacomCBS entrevistou dezenas de empregados, de acordo com quatro pessoas informadas sobre a revisão que disseram não ter autorização para discuti-la. A revisão não encontrou qualquer prova de desvios de conduta sexual por Schneider, mas determinou que ele ocasionalmente abusava verbalmente das pessoas com quem trabalhava.

Alguns antigos colegas, em entrevistas recentes, disseram considerá-lo um produtor de séries controlador e difícil, propenso a chiliques e a enviar emails irados –um homem de ego delicado que causava desconforto constante a alguns dos membros de sua equipe.

Diversas dessas pessoas disseram que se sentiam desconfortáveis quando Schneider pedia que uma pessoa do departamento de figurino massageasse seus ombros e pescoço, o que acontecia com frequência, ou quando ele enviava mensagens de texto aos atores infantis fora do horário de trabalho.

Schneider disse que jamais agiu de maneira inapropriada para com as pessoas de sua equipe. “Eu não poderia ter, e não teria, as amizades duradouras que tenho e a lealdade continuada de tanta gente respeitada se destratasse os atores, de qualquer idade, especialmente os menores”, ele disse.

E acrescentou que, se as pessoas o consideravam “difícil”, era porque ele sempre teve “padrões elevados”. “Sempre me dispus a defender causas criativas nas quais acredito”, ele disse.

Para compreender o vazio deixado por Schneider quando ele saiu da Nickelodeon, é preciso considerar as dimensões de seu sucesso na rede. Schneider e a rede cresceram juntos, disseram alguns de seus ex-colegas, e construíram do zero um espaço para a programação infantil e familiar, criando a rede de maior sucesso na TV a cabo básica.

O conjunto da obra de Schneider na Nickelodeon tendia a envolver comédias de situação de ritmo rápido e repletas de piadas, que pontuavam tramas envolvendo amizades e aventuras adolescentes, com diálogos absurdos e exagerados o bastante para atrair o riso dos pré-adolescentes.

Das lagostas dançantes de “The Amanda Show” aos tacos de espaguete de “iCarly”, as séries de Schneider ajudaram a transformar o reino da comédia da Nickelodeon em um mundo no qual a garotada parecia ter o poder de transformar suas ideias mais loucas em realidade.

“Há uma certa cadência musical, na atuação em sitcoms”, disse a atriz Yvette Nicole Brown, que interpretou Helen em “Drake e Josh”. “E Dan é capaz de ouvir essa música”. A comédia serviu por muito tempo como ferramenta a Schneider, que cresceu em Memphis, Tennessee, cercado pelo que ele descreve como uma família calorosa e divertida.

Schneider disse que, aos sete anos, era o aluno mais gordo de sua classe, e que via a comédia como caminho para a aceitação. “Ninguém me veria como o garoto mais gordo da sala se eles achassem que eu era o garoto mais engraçado da classe”, ele disse.

O estudo não era o ponto forte de Schneider. Seus professores prediletos, na infância e adolescência, foram roteiristas de TV como Susan Harris, Larry Gelbart e Carl Reiner, cujo trabalho ele estudou com muita atenção.

Depois de voltar para casa ao fim de uma breve passagem por Boston, e de encontrar emprego em uma oficina de assistência técnica de computadores Apple, ele conseguiu um papel em um filme, “Making the Grade”, cuja seleção de elenco foi realizada em Memphis.

Mais tarde, Schneider foi selecionado para o elenco da sitcom “Head of the Class”, na década de 1980, na qual trabalhou com Brian Robbins, hoje presidente de entretenimento infantil e familiar na ViacomCBS. Pelo final da década de 1980, Schneider tinha sido recrutado como um dos apresentadores da segunda edição do “Kid’s Choice Awards”, com Robbins, e fez amizade com Albie Hecht, na época envolvido com o desenvolvimento de comédias para a Nickelodeon.

Schneider e Robbins terminariam trabalhando juntos em “All That”, um programa de sketches de humor para crianças, ao estilo de “Saturday Night Live”, do qual Robbins foi um dos criadores. “All That” durou 10 temporadas, em sua versão inicial, e ao longo dos anos revelou atores como Kenan Thompson, Kel Mitchell, Amanda Bynes e Jamie Lynn Spears.

Tracy Katsky, antiga executiva da Nickelodeon que trabalhou com Schneider nos anos de maior popularidade de “iCarly”, mais tarde, disse que ele era um dos raros adultos que compreendiam plenamente como escrever para crianças.

Schneider se recusava a depender de jogos verbais para seu humor, ela disse, porque sabia que certos segmentos de sua audiência não entenderiam esse tipo de gracejo. Schneider mesmo disse que costumava perguntar aos seus jovens atores diretamente se eles achavam que as brincadeiras do roteiro eram engraçadas.

“A rede sabia que, por mais que eles quisessem que a série fosse um sucesso, eu queria ainda mais”, ele disse. Muitos dos aliados de Schneider dizem que de certa maneira ele lhes parece uma criança grande –que respeitava sua jovem audiência como igual e era unicamente (e lucrativamente) capaz de explorar aquilo que sabia que o público acharia engraçado.

Ele é fã de “Jornada nas Estrelas” e também gosta de relógios clássicos e de lancheiras escolares antigas. É obcecado pelos seus animais de estimação, e chegou a pagar pelo transporte de seu coelho de estimação, Cookie, de Los Angeles a San Diego para que ele pudesse ser tratado por um determinado veterinário.

O blog e o canal de YouTube de Schneider, na época em que ele comandava as principais séries da Nickelodeon, capturam a maneira pela qual interagia com os atores adolescentes e os jovens fãs dos programas –como se fosse parte de sua geração.

Ele postou um vídeo que o mostrava dando um susto na atriz Miranda Cosgrove, de “iCarly”, quando ela entrava em uma sala, e um que mostrava Justice quando ele a convenceu a comer uma sardinha. Em seu blog ele revelava “fatos divertidos” sobre os episódios e pedia comentários dos fãs (e os lembrava constantemente de que deveriam ser “gentis” uns com os outros no fórum).

Mas algumas pessoas que trabalharam em séries de Schneider, e pediram que seus nomes não fossem revelados porque disseram temer represálias da parte dele, afirmaram que viam seu companheirismo com os jovens atores como desconfortável e estranho, da parte de um poderoso produtor executivo de meia-idade.

Diversas dessas pessoas recordam que ele costumava dedicar um bom tempo de seus dias a interagir com os jovens fãs online, e que ele enviava mensagens de texto aos jovens atores de suas séries, depois do expediente, comentando sobre bobagens da vida adolescente.

Isso deve ser visto como pesquisa? Antigos membros da equipe da Nickelodeon recordam que o personagem de Justice em “Victorious” tinha um armário no set decorado com fotos de rapazes descritos como “deliciosos” e “quem é o mais quente?”. Uma das fotos mostrava Dan Schneider quando jovem.

Schneider disse que a decoração do armário provavelmente foi colocada lá por alguém do departamento de arte, e que ele jamais teve o objetivo de se tornar popular ou conhecido, como criador da série. Quanto a interagir com os fãs online, ele disse que só o fazia “de maneiras muito públicas”, completamente transparentes para seus colegas.

Entre os atores adolescentes de suas séries, acrescentou, mensagens de texto eram muitas vezes a forma preferencial de conversação. “Jamais interagi com os atores, via mensagem de texto ou de qualquer outro modo, de uma maneira que pudesse causar desconforto a alguém”, ele disse.

Antigos membros de suas equipes dizem que Schneider parecia se imaginar como rei do Nick on Sunset, o antigo estúdio de gravação da rede. Ele tinha um banheiro privativo, ao lado do usado pela maior parte do pessoal. Três ex-colegas recordam ocasiões em que membros da equipe o empurraram de uma sala para outra em uma cadeira de escritório, para que ele pudesse continuar trabalhando no caminho.

Outro antigo colega o descreveu como “workaholic”, propenso a gritar, e disposto a esperar que os colegas trabalhassem de 16 a 20 horas por dia, em companhia de Schneider e dos roteiristas, e que fossem à sua casa para trabalhar nos finais de semana.

“Sempre serei grato a Dan por ter me dado uma chance quando eu era um roteirista inexperiente e recém-formado na universidade, e por tudo que aprendi nos seis anos seguintes”, disse Arthur Gradstein, que trabalhou como roteirista e produtor com Schneider em quatro séries.

“Boa parte de minha experiência com ele foi excelente. Ele tinha momentos de generosidade e me fazia sentir validado, e era empolgante estar perto de seu talento e de sua paixão por criar entretenimento”. “Mas ele também era extremamente exigente, controlador, depreciativo e vingativo”, prosseguiu Gradstein, “e fazia questão de ignorar limites e o comportamento apropriado no local de trabalho”.

Alguns dos ex-colegas de Schneider lamentam que Hollywood tenha sido por tanto tempo um lugar onde é difícil trabalhar –um ecossistema no qual um showrunner bem-sucedido e criativo como Schneider pode exercer imenso poder e às vezes escapar de consequências quando seus métodos de gestão são improdutivos. A diferença, eles dizem, é que Schneider impôs seu estilo a programas infantis.

Mas diversos dos antigos colegas de Schneider, entre os quais Brown e Katsky, disseram que jamais o viram perder o controle. Elogiam-no por sua atenção estreita a detalhes e dizem que sua recusa de aceitar menos ou se conformar com algo que o não satisfizesse é o que tornou as séries dele tão populares.

Outros produtores usariam um celular qualquer como adereço de cena, mas Schneider pediu que sua equipe criasse o “PearPhone”, uma paródia dos aparelhos da Apple, e os modelos criados por eles foram usadas em diversas das séries que ele produzia.

“Sei que algumas pessoas dirão que ele era duro demais”, disse Lauren Levine, ex-executiva da Nickelodeon que trabalhou em estreito contato com Schneider no filme “Merry Christmas Drake & Josh”, feito para a TV. “Para mim, ele jamais era duro sem motivo. Tinha uma visão, e queria realizá-la”.

Schneider contesta as descrições dele como mimado ou severo demais. Ele disse que os banheiros em seu escritório e perto dele eram usados por outras pessoas. A jornada de trabalho era a comum no setor. E, se ele alguma vez foi empurrado pelo estúdio em uma cadeira, “só pode ter sido como piada”.

Se seus emails pareciam “frustrados ou impacientes”, ele disse, provavelmente era porque ele estava no começo de sua carreira como produtor, e queria que suas séries fossem sucessos. “Ao longo dos anos, cresci e amadureci como produtor e líder”, ele disse. “Tenho certeza de que sou melhor e mais gentil em minha forma de me comunicar, hoje”.

Hoje em dia, depois de três anos de hiato, Schneider parece determinado a voltar à TV e a recolocar em circulação seu modelo de comédia, junto a novas audiências. Em uma entrevista de três horas de duração no Beverly Hills Hotel, ele conversou sobre a situação da TV infantil e sobre seu plano de apresentar “um piloto ambicioso e muito diferente” que escreveu e vendeu para outra rede.

A nova série é mais dirigida “a uma audiência adulta”, ele disse, e a decisão sobre colocá-la ou não em produção deve surgir até o final de julho. Ele está trabalhando simultaneamente em outros projetos que estão em desenvolvimento, entre os quais um dirigido a crianças e famílias.

Ele disse que não tem ressentimentos para com a Nickelodeon e deseja “tudo de melhor” aos envolvidos na versão repaginada de “iCarly”. Mas enquanto pensa no futuro, Schneider também considera seu legado, e o período no qual seu nome aparecia “em toda parte” nos créditos de muitas séries televisivas de sucesso.

“Não quero envelhecer e um dia ver por acaso um episódio qualquer das séries que fiz, pensar ‘argh’, e me decepcionar comigo mesmo”, ele disse.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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