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Em 'Bom Sucesso', David Jr. diz ser importante discutir abandono paterno: 'Há homens tóxicos'

Ator também destaca que o 'racismo no Brasil é um problema do branco'

Ramon (David Junior) - Raquel Cunha/Globo
Cris Veronez
Rio de Janeiro

O triângulo amoroso formado por Marcos (Rômulo Estrela), Paloma (Grazi Massafera) e Ramon (David Junior) gera torcidas entre os fãs de “Bom Sucesso”, atual novela das 19h da Globo. Mas para o ator David Junior, 33, é a questão de seu personagem com a paternidade e o abandono da filha que mais o desafia. 

“O triângulo amoroso é bonito de se ver, mas meu desafio com o Ramon é a relação dele com a Alice (Bruna Inocencio), de como a gente pode criar uma nova narrativa para esses pais que optam pelo financeiro e esquecem que o sentimental também faz parte da construção psicológica e das relações sociais que essa criança vai ter”, diz o ator.

Na história, Ramon vai para os Estados Unidos e deixa a namorada e a filha pequena no Brasil, retornando apenas 16 anos depois. “Inicialmente eu ficava meio na defensiva, tentando defender o personagem, mas a gente precisa tocar na ferida mesmo. Existem homens tóxicos, que acham que só por serem provedores já é o suficiente”, avalia.

Segundo David Junior, a química com Bruna, que interpreta sua filha na trama, foi imediata. “Ela despejou tudo o que queria falar, enquanto filha abandonada. Eu recebi calado.  Naquele momento, criamos um elo, uma aliança de pai e filha e nos entendemos nesse lugar. Tive um carinho e um amor imediatos pela Bruna.”

Quando o assunto é paternidade na vida real, David, que é casado com a atriz Yasmin Garcez, fica em cima do muro. Ele afirma que sempre quis ser pai, mas que tem repensado a ideia desde que descobriu que mal consegue cuidar de seu cachorro.

“Sempre criei cachorro do lado de fora de casa e agora, pela primeira vez, tenho um filhotinho dentro do apartamento, que depende 24 horas de mim. Quando vou sair, preciso ter uma bolsa, levar o brinquedo, levar a fralda, e penso ‘caraca… imagina um filho’ (risos).”

REPRESENTATIVIDADE

Formando um casal inter-racial na novela, ao lado de Grazi Massafera, David Junior afirma não ter sofrido preconceito por conta da trama, mas ressalta: “O racismo no Brasil é um problema do branco, não do negro. Eles é que precisam resolver. Eu só preciso me policiar para não sofrer essa opressão.”

Ele afirma ainda que a gramática da língua portuguesa foi criada de forma colonial, patriarcal e racista, de forma a colocar o negro no lugar de objeto e não de sujeito. Segundo ele, é preciso uma realfabetização da sociedade.

“Nesta novela, estamos apresentando um personagem que não se coloca como objeto, como oprimido. Ele se coloca como sujeito: tem uma vida, uma profissão, uma demanda que precisa cumprir”, avalia o ator.

Além de integrar o elenco de “Bom Sucesso”, David Junior também está no ar na quarta temporada de “Sessão de Terapia” (Globoplay), que considera um produto forte e urgente. Na série, ele interpreta o machista Nando.

“A partir do momento em que ele deixa de ser o centro da família, começa a não se achar suficiente, e para piorar, ele fica impotente na cama, o que para o homem é o fim. Isso faz parte de uma construção patriarcal que a gente aprendeu lá atrás, que construiu homens, mulheres doentes, e deixando filhos doentes.”

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