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'Verão 90' registra bons índices de audiência com tramas como a do doce de leite alucinógeno

Novela da Globo conquista com humor escrachado e nostalgia

Na novela Verão 90, o personagem Patrick (Klebber Toledo) observa pote de doce de leite encontrado no mar
Na novela Verão 90, o personagem Patrick (Klebber Toledo) encontra potes de doce de leite no mar - Victor Pollak/TV Globo
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Débora Melo
São Paulo

Sucesso de audiência, a novela das sete “Verão 90” (Globo) aposta em uma receita que mescla doses de humor com nostalgia para conquistar o público. Recentemente, a trama ficou mais interessante ao buscar inspiração em um fato real para fazer rir: o surreal aparecimento de latas de maconha no litoral de São Paulo e do Rio de Janeiro, em 1987, no episódio conhecido como “verão da lata”.

Na novela, a maconha foi substituída por doce de leite. O personagem Patrick, vivido por Klebber Toledo, encontra potes do doce no mar. Depois de comer o doce “batizado” e perder toda a timidez, ele faz uma performance arrasadora no palco da boate Dr. Spock.

“Eu adorei quando recebi os capítulos. Tudo isso é muito divertido, esse doce que deixa todo mundo eufórico, agitado”, diz o ator. “Não tem um lugar na rua em que eu vou que não me falem do doce de leite: ‘pô, me dá um doce de leite daquele; onde é que está aquele doce de leite’”, conta Toledo, aos risos.

Outra personagem que de repente se viu sob os efeitos da iguaria foi Janaína, interpretada por Dira Paes. As cenas em que ela fica bem louca em uma festa divertiram a atriz. “Para mim foi libertador fazer a sequência do doce de leite, porque a Janaína é uma mulher pé no chão, é exemplo, ela não se expõe muito. Então aquele foi um momento de liberdade da personagem, em que ela pode rir e chorar ao mesmo tempo."

Intrigada com os efeitos do doce, Janaína —que é dona de um restaurante– percebe que ele foi feito com uma erva conhecida como “cipó danado” e pede para Herculano (Humberto Martins) ir atrás da folha. Com o cipó em mãos, ela cria uma receita de bombom, que, ao contrário do doce de leite, é leve e provoca apenas “sensação de bem-estar”. “Parece que eu acabei de fazer uma meditação”, diz a personagem Madá (Fabiana Karla), após provar o bombom.

Na avaliação da autora Paula Amaral, que escreve a novela com Izabel de Oliveira, a trama também provoca reflexão. “Eu acredito que o humor tem o poder de gerar reflexão, sem ser planfetário. Tratamos de temas sérios como preconceito, racismo e sexismo de forma leve.”

A autora diz ainda que o momento difícil pelo qual atravessa o Brasil —há anos mergulhado em uma crise política e econômica— ajuda a explicar o sucesso do folhetim da Globo. “É uma novela leve e divertida, que veio em um momento em que o brasileiro estava precisando exatamente desse ‘respiro’. Fomos felizes em fazer uma comédia rasgada, com trama dinâmica, contando, ainda, com o charme e a nostalgia dos anos 1990. Foi uma equação que, realmente, caiu no gosto do telespectador”, comemora a autora.

“O público, em geral, é muito caloroso com a novela. É emocionante saber que netos e avós assistem, juntos, ‘Verão 90’", completa.

A mesma percepção tem o elenco. Para Rafael Vitti, que interpreta João, “as pessoas adoram esse clima de nostalgia”. “Eu amo. Os meus pais adoram assistir”, conta. Já atriz Isabelle Drummond, que faz a mocinha Manu, acrescenta que o clima nos estúdios é o melhor possível. “A equipe é muito unida, e o clima é sempre alto astral. Acho que isso contribui muito para o sucesso da novela.”

Os atores também apontam a direção de Jorge Fernando como algo especial. “É uma trama com ótimos personagens e com a alegria do Jorge Fernando. Acho que essa é a marca de ‘Verão 90’”, opina Dira Paes. O colega Klebber Toledo concorda. “O ritmo que o Jorginho dá para a novela, um tom de comédia na medida, é característica dele.”

NO 'VERÃO DA LATA', MACONHA CHEGOU PELO MAR

As latas de maconha foram parar nas praias brasileiras em 1987. Um carregamento com aproximadamente 22 toneladas estava a bordo do cargueiro Solana Star, que partira da Austrália com destino aos Estados Unidos. A história foi contada pelo jornalista Wilson Aquino no livro “Verão da Lata”, lançado em 2012.

Passando pelo litoral do Rio de Janeiro, a tripulação do Solana Star descobriu que o barco estava sendo procurado e lançou no mar as famosas latas, cada uma com 1,5 quilo de uma erva considerada de ótima qualidade.

O Brasil, que acabava de sair de uma ditadura, saudou o episódio como um sopro de liberdade, e até hoje essa história é cercada por lendas.

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