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Estilo
Descrição de chapéu The New York Times

Lizzo fala da relação com o corpo e como decidiu 'revolucionar o shapewear'

'Mulheres grandes merecem o direito de usar tangas', diz a cantora

Lizzo Bethany Mollenkof - 22.mar.22/The New York Times

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Vanessa Friedman
The New York Times

As muitas, muitas pessoas que aplaudiram, criticaram e de alguma forma tomaram parte na discussão aparentemente interminável sobre a nudez de Lizzo, 33, talvez se surpreendam ao descobrir que ela passa menos tempo completamente nua do que imaginam.

"Às vezes, quando olho na internet, sofro uma crise de identidade porque começo a questionar quem aquelas pessoas acham que sou", disse Lizzo (nome de batismo: Melissa Jefferson) em uma conversa via Zoom, de sua casa em Los Angeles. Por trás delas se viam as estatuetas de muitos prêmios, um cristal de ametista para atrair boas energias e sua coleção do Baby Yoda. "No momento, as pessoas pensam que vivo nua o tempo todo" ela disse. "É essa a única coisa que vejo: ‘Oh, lá vai a velha Lizzo, pelada outra vez; fico quase chocado quando a vejo de roupa’".

É verdade que ela postou algumas fotos que a mostram nua, online, usando seu corpo para forçar uma reavaliação dos preconceitos quanto a tamanho e beleza. E é claro que foi a eventos como a festa de aniversário de Cardi B usando um vestido transparente sobre uma tanga e dois adesivos para recobrir os mamilos, gerando um debate viral.

Mas na verdade, Lizzo dedicou boa parte de seu tempo nos três últimos anos não só ao seu novo disco e ao seu reality show para a Amazon Prime, "Watch Out for the Big Grrrls", mas também a um projeto inteiramente diferente, que envolve colocar roupas, e não tirá-las.

Lizzo recentemente mencionou o projeto na mídia social, dizendo que essa é "a maior coisa em que trabalhei até agora. Maior do que qualquer coisa que eu já tenha feito". E talvez seja a mais controversa. Porque Lizzo, a defensora da carne livre e exposta, está produzindo "shapewear" [modeladores].

Você sabe do que estou falando: o tipo de roupa de baixo que usualmente parece transmitir a mensagem oposta à de se amar como quer quer você seja, contida em sucessos de Lizzo como "Juice" e "Truth Hurts". Para não mencionar seu programa de TV.

É o tipo de contradição potencial que, na câmara de eco de sensibilidades pessoais da mídia social, pode terminar sendo vista como traição do ídolo ao fã. E Lizzo sabe disso. Ela não está tentando mudar os corpos alheios. Está tentando mudar a essência do "shapewear".

O nome de sua linha é Yitty, o apelido que ela tinha na infância, e os produtos foram criados em parceria com a Fabletics, a "marca de roupas para a vida ativa" da qual Kate Hudson foi uma das fundadoras. As peças serão lançadas esta semana, divididas em três coleções: Nearly Naked, Mesh Me e Major Label.

Juntas, disse Lizzo, as linhas "darão a todos a oportunidade de falarem por si quando o assunto é o look de seu corpo e a sensação que cada pessoa tem de seu corpo".

O ponto é tentar fazer pelo conceito das roupas de baixo aquilo que Lizzo fez quanto ao tamanho em geral, e também com relação à flauta –que ela costuma tocar enquanto dança o "twerk"; ou, melhor dizendo, é fazer por esse conceito aquilo que Lizzo fez por si mesma: removê-lo dos confins em que a sociedade e a cultura o aprisionaram. Deixar para trás a positividade do corpo, que se tornou uma frase de efeito vazia usada por todo mundo, e chegar a uma nova normatividade do corpo, para todos.

"Estou vendendo mais do que tangas, mais do que collants, mais do que cintas elásticas", disse Lizzo. "Estou vendendo uma mentalidade de que cada pessoa pode fazer o que quiser com seu corpo, usar o que quiser, e se sentir bem ao fazê-lo. O que quero é que, não importa que corpo a pessoa esteja mostrando, ela não venha a encontrar reações do tipo ‘nossa, como você é corajosa’", ela continuou. "Não. Chega disso. Nada a contemplar aqui a não ser um corpo, como qualquer corpo".

UMA BREVE HISTÓRIA DO "SHAPEWARE"

"Shapewear" é um nome novo para um velho conceito (mais ou menos como "wellness" passou a abarcar "dieta") –ou seja, o de que o corpo de uma mulher pode ser alterado por meios externos a fim de torná-lo mais aceitável aos olhos dos muitos que a contemplam, a maioria dos quais homens. Se isso envolve dor... bem, é o preço que é preciso pagar para atingir a definição de beleza que a sociedade impõe.

Que forma essas alterações tomavam varia de acordo com as normas culturais: referências a cintas são encontradas já na "Ilíada". Anquinhas, usadas por sob as saias para exagerar as dimensões dos quadris, foram uma versão do "shapewear", surgida no século 16, e o mesmo pode ser dito sobre os espartilhos de barbatanas de baleia, aço ou lona. Na metade do século 20, as cintas elásticas estavam em moda, o que por sua vez deu lugar às meias-calças, que em 2000 se transformaram em Spanx, o produto que tornou o "shapewear" famoso hoje em dia.

Ao substituir a tecnologia da costura tradicional pelo uso da lycra, Sara Blakely, fundadora da Spanx, mudou os tapetes vermelhos de Hollywood, e se tornou bilionária ao longo do caminho.

Mas o Spanx, como os espartilhos e cintas que o precederam, era uma espécie de "roupa de base", que existia para ser escondida; sua existência mesma era uma indicação de que aquilo que havia por sob cada peça não estava à altura das expectativas, mas os produtos também atuavam como uma arma secreta que permitia que corpos de todo os tipos tivessem acesso a roupas feitas para poucos. E além disso, "conforto" sempre foi um termo relativo, quando aplicado ao "shapewear".

Em parte para tentar mudar essa situação, muitos concorrentes novos chegaram ao mercado, mais notavelmente a Yummie Tummie, fundada em 2008 (e agora conhecida como Yummie); a Honeylove, criada em 2016; e, acima de tudo, a Skims, marca de Kim Kardashian, introduzida em 2019, que alardeava conforto e uma variedade de cores no tom da pele; a empresa foi avaliada em US$ 3,2 bilhões (R$ 16 bilhões) em uma rodada de capitalização realizada algumas semanas atrás.

A Allied Market Research recentemente divulgou um relatório prevendo que o mercado mundial de roupas de compressão e "shapewear" atingiria um movimento de US$ 6,95 bilhões (R$ 32,5 bilhões) anuais até 2030.

Ainda que as vendas de "shapewear" tenham caído durante a pandemia (quem precisa disso se está em casa largado no sofá?), Kristen Classi Zummo, analista do setor de vestuário no NPD Group, disse que houve um retorno do interesse quando os protocolos da Covid-19 foram relaxados e a vida noturna recomeçou.

O conforto continua a ser importante, ela disse, mas o crescimento era mais aparente na "inovação e nas peças usadas para moldar formas e para serem vistas", especialmente entre os consumidores com menos de 40 anos. Cora Harrington, fundadora e editora chefe do blog The Lingerie Addict e autora de "In Intimate Detail: How to Choose, Wear, and Love Lingerie", apontou que, para as pessoas mais jovens, "o Spanx tende a ser mais associado às suas mães. Elas desejam algo mais fashion".

"Creio que exista espaço para que surja uma nova marca e tome controle da narrativa", disse Harrington. Talvez porque, a despeito de todos os avanços do setor, a estética dominante tenha continuado presa ao ideal do "corpo de Barbie". É aí que entra a Yitty.

UMA HISTÓRIA AINDA MAIS SUCINTA DA YITTY

Ainda que possa parecer, à luz do sucesso da Fenty e da Skims, que Lizzo está simplesmente pegando carona no sucesso do "shapewear" comercializado por celebridades, ela na verdade pensa sobre esse setor desde que tinha 12 anos de idade.

Na época, ela vivia em Houston (sua família tinha se mudado de Detroit para lá quando ela tinha 10 anos), e, quando chegou ao ensino médio, começou a aprender a "ter vergonha do meu corpo". Mais tarde, depois que passou a se afirmar musicalmente, ela deixou de lado aquela mentalidade, e com ela as roupas de baixo que a acompanhavam. Foi só depois disso, quando começou a "me divertir com meu corpo, criando formas e permitindo que minhas curvas aparecessem, amando a gordura que você supostamente deve esconder e explorando possibilidades via moda", que ela voltou a pensar sobre o "shapewear".

"Fui a uma loja –não vou revelar o nome– procurando por alguma coisa para uma festa", ela disse. "O corredor de ‘shapewear’ estava desorganizado, como se alguém tivesse passado por lá apressadamente, em busca de algo que não foi capaz de encontrar. Havia peças de roupa pelo chão, e só três cores –preto, marfim e rosa, da cor das minhas unhas".

Lizzo acenou com a mão, exibindo unhas longas e pontudas, da cor de uma sapatilha de balé. "Ninguém é dessa cor!", ela disse.

Lizzo começou a encarar com seriedade a ideia de mudar essa situação quando "Truth Hurts" chegou às paradas de sucesso, e ela marcou reuniões com diversas grifes. "Eu dizia a eles que queria revolucionar o ‘shapewear’, e nosso relacionamento com esse tipo de roupa e com nossos corpos, e eles respondiam que bem, podiam criar uma microcoleção comigo para a marca X, Y ou Z. Não demorei a compreender que eles não compreendiam minha visão".

Ela queria "shapewear" que se anunciasse orgulhosamente –e que trouxesse a quem o usa a sensação de um abraço. O tipo de "shapewear" que, caso a pessoa o estivesse vestindo e sua saia subisse ou suas calças descessem, pudesse ser exibido com alegria. Ela nem queria usar o nome "shapewear". Queria usar o termo "bodywear", mas ninguém sabia o que aquilo significava.

Foi então que seu empresário, Kevin Beisler, lhe disse que tinha conversado com a equipe da Fabletics, e que a empresa estava conduzindo diversas pesquisas com consumidores.

Os consumidores tinham dito que "a categoria que eles mais desejavam era ‘shapewear’", disse Don Ressler, fundador da Fabletics, com Adam Goldberg. Ressler tinha visto o que pode acontecer quando você combina o poder da celebridade a um setor de vestuário sobre o qual a celebridade tenha alguma autoridade pessoal. (A Fabletics surgiu com o nome TechStyle Fashion Group e produziu a linha Savage X Fenty, que foi cindida como companhia independente em 2019.)

"Eles entendem o que você está dizendo", disse Beisler à sua cliente. "Aquelas palavras foram incríveis, porque eu não as tinha ouvido até ali", ela disse. "Ninguém tinha acreditado em meu sonho louco". Na verdade, Ressler lhe disse, "nós acreditamos que seja uma oportunidade multibilionária".

O FATOR LIZZO

Lizzo não acredita que o mercado esteja saturado ou que ela tenha perdido o barco porque outras marcas chegaram mais cedo. "Não há nada como sentir que você está no lugar certo na hora certa", ela disse.

A Yitty é "algo pessoal para mim, algo para minha versão bebê", ela prosseguiu. "Tenho andado na paralela do movimento da positividade do corpo há muito tempo, e sempre acreditei que o movimento deveria pertencer às pessoas que o criaram, pessoas negras, latinas, mulheres grandes e queer, mulheres tamanho 50 ou mais". Como indicador da audiência pretendida, a campanha publicitária traz modelos de todos os tamanhos, entre as quais a melhor amiga de Lizzo, que usa tamanho PP, além de Lizzo mesma.

Lizzo é a presidente-executiva e cofundadora da Yitty; Kristen Dykstra, antiga vice-presidente de marketing da Fabletics, é a presidente da empresa. As linhas demoraram três anos para ser desenvolvidas e os tamanhos variarão de PP a 6XG (um número a mais do que os modelos atualmente oferecidos pela Skims). Os preços dos leggings variam de US$ 69.95 (R$ 320) a US$ 74,95 (R$ 350), e os sutiãs serão vendidos por entre US$ 49,95 (R$ 230) e US$ 59,95 (R$ 280).

Há dois pesos de compressão, tecidos antimicrobianos para que os shorts, leggings e tangas possam ser usados sem roupas de baixo adicionais, sutiãs que mantêm a forma sem arames, uma estampa que parece uma asa de borboleta, e embalagens recicláveis. Lizzo criou os nomes de todas as cores, ainda que suas invenções favoritas –para um azul brilhante e rosa brilhante– sejam impublicáveis.

Ela também experimentou cada um dos modelos. "Adoro calcinhas cavadas, amo mesmo", ela disse. "Mas pode ser complicado quando você usa um tecido de compressão, porque a lateral pode enrolar se for cavada demais". Mas ela conta que, em muitas ocasiões, ao experimentar uma calcinha, perguntava se "vocês podem erguer a lateral?" –e ela faz o gesto de subir o corte perna acima. "Porque isso faz o traseiro parecer bonito".

Ela tem opiniões fortes sobre o que gosta. "Eu passei muito tempo usando o bandeau conversível da Yitty", ela disse. "Inovei os bandeaus". Quanto à tanga modeladora, "o que tenho a dizer é que as mulheres grandes também usam tangas. Elas merecem o direito de usar tangas, com um carinho extra lá em cima".

As roupas Yitty serão vendidas no site da empresa e no da Fabletics. Também serão vendidas nas 76 unidades da cadeia Fabletics, e em lojas pop-up em Los Angeles. E ocuparão posição central nas turnês de Lizzo, em seus vídeos e em seu programa de TV. Para ela, esse é o começo de uma nova fase.

"Quero mudar o mundo", ela disse. "Eu não quero só fazer música bacana –minha arte sempre teve um propósito maior. Agora estou tornando essa utilidade tangível".

"Estou construindo algo que, com sorte, pode durar gerações –não só a companhia ou o produto, mas a mentalidade da Yitty", ela prosseguiu. "Essa ideia de liberação em seu corpo e de poder expressar a liberdade de diferentes maneiras pode ir muito, muito longe".

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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