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Tony Goes

Por que o aborto ainda é assunto raro nas novelas brasileiras?

Tabu durante muito tempo, o tema vem sendo mais abordado recentemente

Rita (Nanda Costa) no momento em que está abortando em 'Segunda Chamada' - Maruicio Fidalgo/Divulgação
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O Brasil ainda nem saiu do luto pelas mortes de Bruno Pereira e Dom Phillips, e uma nova barbaridade já vem desafiar nossa capacidade de indignação: o caso da menina catarinense de 11 anos de idade, grávida de mais de sete meses, obrigada pela juíza Joana Ribeiro Zimmer a permanecer num abrigo, longe da mãe, e a levar a termo sua gravidez indesejada. Privada de seu direito a um aborto seguro, a menina foi estuprada mais uma vez.

Ao investir contra o aborto legal, permitido pela lei brasileira apenas para casos de estupro, risco de vida para a mãe e anencefalia do feto, os reacionários acabam trazendo à tona uma questão que permanecia abafada: por que o aborto não é legalizado e acessível no Brasil, ao contrário do que acontece em todos os países desenvolvidos?

A ausência de debates sobre o tema fez com que ele fosse quase ignorado no nosso maior fórum de discussão: as telenovelas. Em nenhum outro lugar do mundo os folhetins televisivos têm tanta influência sobre a sociedade. Nossas novelas contribuíram, por exemplo, para a aprovação da lei do divórcio na década de 1970, e para a maior aceitação da homossexualidade nos dias que correm.

Quase todas as famílias brasileiras têm mulheres que abortaram. O fenômeno, praticamente universal, só vem sendo abordado de maneira mais frequente pela nossa teledramaturgia de uns tempos para cá. Uma explicação possível é que hoje temos muito mais mulheres assinando novelas e séries do que há algumas décadas.

Em "Bom Sucesso", exibida pela Globo entre 2019 e 2020, a personagem Nana, vivida por Fabíula Nascimento, tem seu anticoncepcional trocado por um placebo pelo vilão Diogo, papel de Armando Babaioff, e engravida dele. Nana então pensa em abortar. Ouve inúmeras opiniões, pró e contra, até se decidir a ter o filho. Os autores Rosane Svartman e Paulo Haim conseguiram expor diversos pontos de vista, ajudando Nana fazer sua escolha.

Em outras ocasiões, o aborto foi usado para conduzir um personagem a um desfecho trágico. Foi o que aconteceu na primeira temporada de "Segunda Chamada", de 2019, quando Rita, feita por Nanda Costa, morre depois de uma tentativa caseira de abortamento. Ou em "A Dona do Pedaço", do mesmo ano, em que Otávio, interpretado por José de Abreu, obriga sua amante Edilene, vivida por Cynthia Senek, a interromper uma gravidez indesejada. A moça morre durante o procedimento.

"A Dona do Pedaço" era escrita por Walcyr Carrasco, que causou uma certa polêmica ao abordar o assunto em "Amor à Vida", de 2013. Um dos protagonistas da trama, o médico César Khoury, papel de Antonio Fagundes, faz um longo discurso contra o aborto em um dos capítulos, alegando até mesmo razões religiosas. Na época, a cena foi muito criticada por seu unilateralismo. No entanto, no final da novela, a amante de César engravida, e ele esquece de seus supostos valores ao incentivar que ela aborte.

"Pantanal", o grande sucesso do momento, abordará o assunto em duas de suas subtramas. Numa delas, Guta, personagem de Julia Dalavia, engravida de Marcelo, feito por Lucas Leto. Tenório, o pai de Guta, vivido por Murilo Benício, exige que a filha aborte, mas ela se recusa.

Já Irma, encarnada por Camila Morgado, engravidará de Trindade, personagem de Gabriel Sater. Pressionada pela mãe a abortar, ela também levará sua gravidez até o fim.

Um padrão emerge depois de analisarmos essas abordagens. Na maioria das vezes, a personagem desiste do aborto e resolve ter o filho. Quando o abortamento acontece, o resultado é sempre fatal para a mulher.

É evidente que esse padrão reflete a opinião do público conservador. Contrariado, este segmento pode derrubar a audiência de uma novela. Mas a situação no Brasil está ficando tão tenebrosa que uma reação mais contundente se faz necessária, inclusive na teledramaturgia.

Em 1979, quando ainda existiam a censura e a ditadura militar, o episódio "Ainda Não É a Hora", da série "Malu Mulher", mostrava algo quase impensável para os dias de hoje. Amparada pela protagonista, um dos papéis mais icônicos da carreira de Regina Duarte, a personagem vivida por Lucélia Santos decidia fazer um aborto. E fazia. Quando voltaremos a ver um momento como este na TV brasileira?

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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