Aviso
Este conteúdo é para maiores de 18 anos. Se tem menos de 18 anos, é inapropriado para você. Clique aqui.

Tony Goes

Convite a Nego Di para A Fazenda não tem cabimento após ataques transfóbicos

Comediante agrediu Linn da Quebrada durante show de stand-up

Nego Di
Nego Di - João Cotta/Globo
  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

"Eu estou sentado com a nega velha assistindo o bagulho. A travesti... pegou uma mina. Beijou uma mina! (...) O cara vira mulher, bota silicone, bota cabelo, toma hormônio... pra sair pra pegar umas minas? Eu nunca tinha visto traveco machorra na minha vida!".

O trecho acima fez parte do show de stand-up que Nego Di fez em Canoas, no Rio Grande do Sul, no dia 27 de abril. O bagulho a que ele se refere é o BBB 22, e a travesti é Linn da Quebrada, que trocou beijos com a atriz e cantora Maria na primeira festa desta temporada do programa.

Um vídeo da cena foi postado nas redes sociais, e a repercussão foi péssima. Antonio Tabet, do grupo Porta dos Fundos, tuitou que a última vez em que ele havia rido tanto foi quando quebrou a perna. Maria, por sua vez, escreveu que "pra preconceituoso, a gente não dá palco. A gente denuncia, processa".

A própria Linn da Quebrada se manifestou. "O que mais me deixa puta é que tudo isso que ele está fazendo parece meticulosamente pensado para deslegitimar tudo que temos construído há tanto tempo. Para nos distanciar ainda mais da nossa humanidade. Não é sobre o jogo do BBB, é sobre o jogo que eles fazem aqui fora também".

Acossado por todos os lados, Nego Di acusou seus críticos de "lacração", comparou seu humor grotesco às sátiras que o Porta do Fundos faz com a religião e ainda ostentou um suposto convite para participar de A Fazenda 14, que não foi confirmado pela produção do programa.

Solange Gomes, que participou da edição de 2021 do reality, correu para desmenti-lo na internet: "Em primeiro lugar, A Fazenda não convida, ela sonda. Segundo: só começam em junho as sondagens para o elenco que eles realmente querem. Eu, hein".

De qualquer forma, o convite não soa implausível. De uns anos para cá, A Fazenda se tornou uma clínica de reabilitação de carreiras. Os rappers MC Biel e Nego do Borel, ambos acusados de assédio sexual, participaram das últimas temporadas. Biel chegou em segundo lugar em 2020, mas Nego do Borel acabou sendo expulso em 2021 por, aham, assédio sexual.

Essa prática de chamar artistas caídos em desgraça foi copiada pelo BBB 22, cujo vencedor foi justamente o ator Arthur Aguiar –frequentador assíduo dos sites de fofoca por causa de seus inúmeros casos extraconjugais.

Tanto a Globo como a Record acham que a presença de participantes "polêmicos" vai apimentar seus reality shows, mas talvez não percebam que, ao convidá-los, estão passando pano para seus comportamentos execráveis.

E o que Nego Di fez com Linn da Quebrada, é, sim execrável. Aliás, é crime de homofobia, e ele pode ser processado por isto. Também é uma demonstração do pior tipo de ignorância: aquela que quer se manter na escuridão.

Então vamos dar uma aulinha para Nego Di, porque ele está precisando. Identidade de gênero e orientação sexual são coisas distintas e independentes. Se ele prestasse mais atenção no mundo ao seu redor, já teria visto que existem muitas pessoas que fazem transição de gênero –de homem para mulher, ou vice-versa– e, com isto, passam de heterossexuais para homossexuais.

A personagem Ivana, de "A Força do Querer", é um bom exemplo. Ela, que nasceu com um corpo feminino, luta a novela inteira para se tornar um rapaz, Ivan. Só que, nesse tempo todo, sua preferência sexual segue a mesma: Ivana/Ivan gosta de transar com homens.

Nem vou falar em bissexuais, pansexuais e pessoas não-binárias, por que me falta espaço. Mas dá para fazer um resumão, Nego Di: o mundo mudou, e os rótulos "homem" e "mulher" não servem mais para todo mundo. As sexualidades são fluidas, e hoje cada um pode ser e fazer o que quiser, você goste ou não.

Informe-se melhor, leia mais, converse com quem entende do assunto. Entenda que suas supostas piadas machucam, e muito, e contribuem para a cultura machista e violenta do país que mais mata pessoas LGBTQIA+ do mundo.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

Final do conteúdo
  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Comentários

Ver todos os comentários Comentar esta reportagem