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Tony Goes

Saída de Adrilles Jorge reforça que Jovem Pan precisa escolher melhor seus comentaristas

Em menos de seis meses, emissora se meteu em três grandes polêmicas

Homem de termo e gravata faz suposta saudação nazista com a palma da mão aberta
Adrilles Jorge - Reprodução/ Jovem Pan
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A TV Jovem Pan News entrou no ar em 27 de outubro de 2021. A rigor, não era uma grande novidade: há anos que a rádio Jovem Pan de São Paulo colocou câmeras em todos seus estúdios, transmitindo ao vivo sua programação pelo YouTube.

Mas o novo canal de notícias logo se firmou como um sucesso de audiência, suplantando concorrentes mais antigos como a Record News e a Band News. A razão não é a cobertura jornalística, muito inferior às da GloboNews ou da CNN Brasil, mas o posicionamento claro da emissora. Por mais que jure ser neutra e plural, a JP é fortemente favorável ao governo Bolsonaro, atraindo o simpatizante da extrema-direita, que desconfia de outros veículos de imprensa.

Não é pecado ser de direita. Nos EUA, há canais de todos os matizes, e o mais bem-sucedido de todos é a Fox News, apoiadora de Trump e de todas as pautas conservadoras. Mas algum rigor jornalístico é sempre necessário, e a Jovem Pan vem falhando com frequência neste quesito.

Com menos de seis meses no ar, a TV Jovem Pan News já se meteu em pelo menos três grandes polêmicas. Em 4 de novembro do ano passado, o humorista André Marinho, então integrante do "Pânico", pediu demissão depois de ter irritado Bolsonaro durante uma entrevista, ao questioná-lo sobre o escândalo das rachadinhas. Incapaz de responder, o presidente fez o que costuma fazer quando se sente confrontado: levantou-se e foi embora.

André Marinho disse que sua saída da emissora não se devia a este episódio, e que ele estava apenas em busca de "novos ares". Não convenceu ninguém, e a imagem de equilíbrio almejada pela JP sofreu um forte abalo.

Menos de duas semanas depois, no dia 16 de novembro, algo bem mais sério aconteceu. Durante o Jornal da Manhã, em debate com Amanda Klein, o jornalista José Carlos Bernardi alegou que "a morte de judeus poderia fomentar a retomada econômica do Brasil". Segundo ele, o Holocausto serviu para a Alemanha se apossar do poder econômico da comunidade judaica, o que teria sido fundamental para o desenvolvimento do país após a 2ª Guerra Mundial.

Bernardi foi demitido da Jovem Pan, e ainda perdeu o cargo de assessor do deputado estadual Campos Machado (Avante-SP). Seu comentário estupefaciente ainda lhe rendeu processos na Justiça.

Agora temos o caso de Adrilles Jorge, que foi desligado da emissora nesta quarta (9) depois de ter se despedido dos espectadores com um gesto que pode, sim, ser interpretado como uma saudação nazista.

Não acredito que Adrilles ou Monark, que causou um bafafá depois de defender a legalização do partido nazista no Brasil, sejam de fato fãs de Hitler –até porque ambos dão sinais de não conhecerem muita coisa sobre a ideologia racista e assassina que propõe a eliminação física de judeus, ciganos, homossexuais, deficientes físicos e quem quer que seja que não se encaixe num imaginário padrão de pureza.

Mas é evidente que os dois são despreparadíssimos. Adrilles até tem diploma de jornalista e publicou um livro de poesias, mas sua fama advém de uma tempestuosa passagem pelo BBB 15 e das inúmeras declarações ignorantes e preconceituosas que soltou nos últimos anos.

A Jovem Pan achou que isto o qualificava a ser comentarista. No entanto, não foram poucas as vezes que Adrilles arrancou protestos depois de meter os pés pelas mãos em programas da emissora. Mas só foi efetivamente defenestrado depois de brincar com o nazismo, algo que deveria ser tabu para qualquer pessoa com um mínimo de cultura e inteligência.

Sua saída impede que a emissora perca patrocinadores de imediato, mas isto não significa que o resto do time da Jovem Pan seja do mais alto nível. Entre as contratações recentes do canal estão Caio Copolla e Alexandre Garcia, ambos demitidos há pouco da CNN Brasil, e o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, o maior protetor de desmatadores que este país já teve.

Com uma equipe dessas, realmente fica difícil para a Jovem Pan produzir um noticiário isento e de qualidade. Seria ótimo se fossem escolhidos comentaristas mais gabaritados, que não espalhassem fake news nem se colocassem automaticamente a favor de qualquer horror cometido por este desgoverno.

Mas a emissora parece preferir uma realidade paralela, para fidelizar o ouvinte/espectador de extrema-direita. Contanto que não assuste os anunciantes, é claro.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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