Tony Goes

À frente do Domingão, Huck se sai bem quando deixa o assistencialismo

Suspensão do jogo Brasil x Argentina atrasou a estreia do programa

Luciano Huck - Marcos Rosa/Globo
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Era para ser mesmo um domingão. Luciano Huck não poderia ter sonhado com um programa melhor para antes de sua estreia no lugar de Fausto Silva: nada menos do que um jogo entre Brasil e Argentina, pelas eliminatórias para a Copa de 2022. A garantia de receber a audiência lá em cima.

Quis o destino que agentes da Anvisa invadissem o campo, e a partida acabou suspensa. Nas redes sociais, o apresentador extravasou sua ansiedade: “Você fica pensando 'será que vou entrar antes’? Vai entrar um filme? O que vai acontecer? Eu não sei. Se alguém souber me avisa, por favor?”.

Entrou um filme. Depois de mais de uma hora com Galvão Bueno segurando as pontas, a Globo decidiu exibir “Círculo de Fogo”. Em versão compacta, claro: com 2h11 de duração no original, o longa sofreu cerca de 40 minutos de cortes.

O Domingão com Huck começou às 18h40, mais de meia hora depois do horário previsto. No entanto, se estava nervoso, Luciano Huck não demonstrou. Também deixou claro que não mudou nada nesta sua transferência de dia.

Depois de uma breve introdução ao vivo, entrou no ar um vídeo em que o apresentador dizia que sua missão era “inspirar” e que os brasileiros tiveram “sonhos interrompidos”, mas também dispõem de enorme capacidade de “reinvenção”. Parecia o lançamento de uma campanha eleitoral, e vai ver que era mesmo.

Em seguida, Huck foi ao interior da Paraíba entrevistar um porteiro que nas horas vagas é cantor, cujo sonho é se apresentar na TV. Antes que o sujeito pudesse realizá-lo, teve início o quiz show Quem Quer Ser um Milionário?. Ou seja, o mesmo Caldeirão de sempre, agora aos domingos.

Por isto mesmo, não faltaram críticas dos internautas, ainda mais depois da performance estelar de Marcos Mion à frente do novo Caldeirão. Comparado a seu sucessor, Huck é fogo baixo, paternalista, coxinha. De fato, os dois têm temperaturas cênicas muito diferentes. Mas também é verdade que, nas entradas ao vivo, Huck estava mais soltinho que de costume.

Aí veio o Show dos Famosos, o primeiro quadro herdado do Domingão do Faustão, pré-gravado. Com direito a erro de passagem: alguém na técnica apertou o botão errado e repetiu os primeiros segundos do bloco, algo raro na Globo. Também foi estranho Huck anunciar quem eram os famosos que iriam se apresentar. Nos tempos do Faustão, a revelação só era feita depois de cada número.

Mas cabe ressaltar que o apresentador também estava desenvolto e bem-humorado, interagindo com os jurados Preta Gil, Boninho e Xuxa, todos seus velhos conhecidos.

Percebo agora minha má vontade. Impactado pela energia de Mion neste sábado (4), eu compartilhava da expectativa de boa parte do público: Huck seria um jato d’água fria. Mas não foi. Repetidas vezes, ele se mostrou à altura da tarefa.

Só um terço dos participantes do Show dos Famosos se apresentou neste domingo, mas já dá para cravar um favorito: a cantora drag Gloria Groove, que surpreendeu ao incorporar à perfeição o sambista baiano Xanddy. Já Fiuk foi quase constrangedor como Amy Winehouse, parecendo uma drag queen tímida –uma contradição em termos. Nada contra: isso também é entretenimento.

Por falar nisso, até que teve bastante nessa estreia do novo Domingão. Toda vez que se preocupou apenas em divertir o espectador (e a si mesmo, por que não?), Luciano Huck se deu bem. Só que ele ainda é Luciano Huck.

Isto quer dizer que, depois de quase duas horas de diversão em estado puro, o assistencialismo finalmente deu as caras. A historinha de superação. O apelo fácil às lágrimas. Porque Huck não se contenta em apenas entreter (como se isto fosse pouco). Ele também quer ajudar o espectador a crescer como ser humano. Bocejo.

Mas até que foi leve. Seu Domingos, o porteiro da Paraíba, se apresentou ao lado de Luan Santana e Alcione, que praticamente o ofuscaram. Depois de uma única música, o convidado semianônimo deixou o palco para seus colegas célebres. Menos mal.

No frigir dos ovos, foi uma boa estreia, com bons índices de audiência (os números oficiais só devem sair nesta segunda) e boa repercussão na internet. Não teve o impacto de Marcos Mion no Caldeirão, mas dada a relativa falta de novidades –e o nervosismo amplificado pelo cancelamento do jogo Brasil x Argentina– Luciano Huck foi melhor do que muita gente esperava, eu inclusive.

Mas fica um pedido: deixe o assistencialismo barato para seus rivais Eliana e Rodrigo Faro, Luciano. Você não precisa disso. Pelo menos, não se quiser ser apenas apresentador.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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