Tony Goes

Viver Dom Pedro 2º é uma honra e grande responsabilidade, diz Selton Mello

Ator volta às novelas após mais de 20 anos com 'Nos Tempos do Imperador'

Selton Mello como Dom Pedro 2º em "Nos Tempos do Imperador" - Paulo Belote/Globo
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Em fevereiro de 2020, este colunista esteve nos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro, a convite da emissora. Conversei com alguns atores e visitei os sets de gravação da novela “Nos Tempos do Imperador”, que tinha estreia marcada para o dia 30 de março daquele ano. Mas não consegui entrevistar Selton Mello. O protagonista da trama tinha muitas cenas para gravar naquela data, e só conseguimos trocar algumas palavras.

Dias depois, no entanto, Selton me concedeu uma entrevista por email. Sem participar de uma novela desde “Força de um Desejo”, de 1999 –apesar de, nesse meio tempo, ter feito vários trabalhos na Globo– ele se mostrou animado por interpretar D. Pedro 2º, o segundo e último monarca brasileiro. No entanto, a pandemia adiou a estreia de “Nos Tempos do Imperador” em quase um ano e meio. A novela finalmente entra no ar na próxima segunda-feira (9), na faixa das 18 horas. E a minha entrevista com Selton agora pode ser publicada.

O que fez você ter vontade de voltar às novelas a esta altura da sua carreira –e ainda mais como protagonista, o que implica em uma carga brutal de trabalho?
Eu fiquei fascinado com a ideia de dar vida ao nosso último imperador. Retratar o fim de uma era, os momentos finais da monarquia. O texto da novela é tão saboroso de ler. Alessandro Marson e Thereza Falcão conseguiram unir todas as referências históricas em um roteiro limpo, fluido, atendendo ao formato do folhetim clássico, sem firulas, sem tentar ser série. É uma novela, e das boas. Vinícius Coimbra, o diretor artístico, me dirigiu em “Ligações Perigosas”, um dos trabalhos que mais amei fazer na TV. Um elenco incrível, parceiros antigos, como o mestre José Dumont, a Leticia Sabatella, que eu dirigi em "Sessão de Terapia", e novos como a Mariana Ximenes e o Alexandre Nero, talentos de quem eu sempre quis me aproximar. Estou muito feliz com esse retorno depois de mais de 20 anos.

O quanto você conhecia de D. Pedro 2º antes de “Nos Tempos do Imperador”? Mudou sua opinião sobre ele, ou confirmou o que já sabia?
Eu sabia o básico, que aprendi na escola. Mas não tinha guardado na memória tantas nuances que agora, estudando, eu percebo. Aliás, aí está outro fator para meu retorno, nesse projeto específico: a memória. Temos uma memória falha. Achei uma grande oportunidade poder participar de um projeto que conta uma parte fundamental de nossa história.

Você já tem alguns personagens “de época” no currículo, mas nenhum com o peso histórico de D. Pedro 2º. Como foi compô-lo? Sua abordagem é diferente quando o papel é contemporâneo?
Viver Dom Pedro 2º é uma honra e uma grande responsabilidade. Um homem com ideias nobres, que valorizava a educação, a ciência, a cultura. Percebo uma grande influência sensível de sua mãe, a imperatriz Leopoldina, que foi lindamente representada por Leticia Colin em “Novo Mundo”. Ele foi talhado para não repetir as falhas trágicas de seu pai, o grande trabalho de Caio Castro na TV. Dom Pedro 2º não foi criado pelos pais, e sim por um grupo escalado para sua formação, altamente rígida. Era um leitor voraz, de poucas palavras, um menino e depois um adolescente que carregou a responsabilidade de ser o sucessor do trono sendo tão novo, e sem dúvida, mesmo com todo o preparo, a falta dos pais em sua formação emocional influenciou em seu temperamento.

O que envolveu sua preparação para o papel? Leituras, aulas de etiqueta, aulas de história, prosódia, postura?
Tivemos aulas variadas de época, etiqueta, sim. Mas meu estudo é sempre solitário, lendo coisas, anotando passagens que eu achava importantes em sua vida. O desafio é ler tudo que eu li, e depois simplesmente ir fazer, sem psicologismos. O resultado será a expressão de minha impressão do que senti, com tanto material à disposição. Uma impressão íntima sobre o homem considerado um dos mais importantes desse país. Um fato curioso: Dom Pedro 1º já foi retratado em novela, no cinema algumas vezes, e Dom Pedro 2º não. Isto é fascinante e me enche de esperança de realizar um trabalho à altura deste personagem lendário.

D. Pedro 2º tem uma certa aura de bonachão na mente de muitos brasileiros. Uma espécie de Papai Noel do século 19, de barbas brancas e olhar bondoso. A novela mostrará que ele teve pelo menos uma amante fixa. O país está preparado para absorver uma imagem mais complexa (e até sexualizada) do nosso segundo imperador?
Os historiadores e amantes de nossa história oscilam em suas visões sobre o Imperador. Mas uma coisa todos concordam: ele foi um grande estadista, e teve papel decisivo sobre o progresso do país. Sua história com a condessa de Barral (Mariana Ximenes) será uma das coisas que veremos. Também saberemos como ele era como pai, sua dificuldade em governar batendo de frente com quem tentava manter seus privilégios em detrimento da nação, sua relação com a imperatriz, sua sede de conhecimento e seu desejo de espalhar o que aprendeu. Muitas facetas de uma figura mítica, dentro do formato de um folhetim, e levando em conta o horário de exibição. Temos um material vasto e lindo para contar uma grande história.

Qual você acha que seria a característica definidora de D. Pedro 2º, se é que é possível resumi-lo?
Difícil resumir, mas diria que ele foi um homem inteligente e sensível, tentando construir um país grandioso.

Você vê paralelos entre o Brasil de D. Pedro 2º e o Brasil de hoje? Um século e meio depois, o que é que ainda não mudou?
Os poderosos continuam fazendo suas próprias leis e seguem dando as cartas. A abolição, que foi um pesadelo no governo da realeza, pois muitos, que estavam de fora, não tinham interesse em mudar o estado das coisas, só foi realizada no fim de sua era, através de sua filha, a princesa Isabel. Os ecos da escravidão ainda são parte de nossa estrutura. O racismo, velado ou escancarado, ainda circula, infelizmente, por nossos dias. Penso que o público terá uma oportunidade valiosa de enxergar o que seu reinado deixou de bom e o que nada mudou através dos tempos.

Como você acha que “Nos Tempos do Imperador” se insere no contexto do Brasil atual?
Acho que é uma chance rara de poder comparar, o que mudou, o que ainda persiste. E isso promove algo que prezo no meu trabalho, levar entretenimento junto com informação e reflexão.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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