Tony Goes

'Eu não falo baixo, as pessoas é que falam alto', diz Selton Mello sobre 'O Mecanismo'

Voz do ator está mais clara na 2ª temporada da série, que acaba de chegar à Netflix

Selton Mello no encontro entre os atores do seriado "Sessão de Terapia" no Chez Oscar - Zanone Fraissat
São Paulo

A voz de Selton Mello, 46, é inconfundível. O ator tem um estilo próprio de dicção, que às vezes soa quase como um sussurro. Rendeu até uma imitação impagável de Marcos Veras, no extinto humorístico “Zorra Total” da Globo. 

Essa marca registrada se voltou contra o próprio Selton quando a primeira temporada de “O Mecanismo” estreou, em março de 2018. Muita gente reclamou de não entender nada do que dizia seu personagem, o angustiado ex-policial Marco Ruffo. 

Somada à percepção de alguns de que o diretor José Padilha (dos filmes “Tropa de Elite”) integrava uma força-tarefa para tirar Lula das eleições presidenciais, essa má compreensão prejudicou a reputação da série.

Admito que eu mesmo nunca tive dificuldade para ouvir Selton direito. Assisti à primeira temporada de “O Mecanismo” em meu magnífico “home theater”, que eu ganhei no sorteio de fim de ano de um antigo emprego. Ah, bons tempos.



Mas o assunto floresceu nas redes sociais há cerca de um ano, e eu não poderia ignorá-lo na coletiva de imprensa que aconteceu nesta terça (7), no Rio de Janeiro, para promover o lançamento da nova safra de “O Mecanismo”.

Quando tive a chance de fazer uma pergunta, não titubeei: por que a voz de Selton Mello, ininteligível para muitos na primeira temporada, agora parece soar mais clara?

O ator riu, e soltou a frase que dá título a esta coluna: “Eu não acho que eu fale baixo, as pessoas é quem falam alto”. Depois das gargalhadas da plateia, Selton continuou: “Na primeira temporada, não foi um problema meu. Foi um problema de mixagem. É isso mesmo: mixaram errado, as pessoas entenderam mal. Agora mixaram certo e todo mundo entendeu”. Mais risos.

“Isso é verdade”, emendou José Padilha. “Como o Brasil começou a fazer séries mais tarde, (os técnicos) não se deram conta de que (os espectadores) veem as séries no iPhone. A mixagem foi feita em Dolby 5.1, para o cinema. Quando você vê em um iPad, ‘mata’ o microfone do centro”.

Selton não ligou para as críticas à sua voz. Mas se incomodou bastante com os ataques que ele e seus colegas de elenco receberam de outros atores, por terem trabalhado em uma série supostamente reacionária.

“Muita gente que levanta o punho e defende a liberdade de expressão veio nos bater. Que liberdade seletiva é essa?”, perguntou ele na coletiva. 

“Eu estudei muito o cinema político italiano para fazer “O Mecanismo”. Tinha um ator chamado Gian Maria Volontè que fazia de tudo: um cara de extrema-direita, um anarquista, um operário que lutava contra o sistema. Achei um pouco triste, e um pouco patético, os atores da série apanharem tanto. Esse é o nosso trabalho: mostrar as dubiedades do ser humano”.

“A gente vive uma época de muitas verdades, muitas certezas”, concluiu Selton. “Mas eu não tenho certeza de nada. E 'O Mecanismo' mostra essas incertezas”.

O jornalista viajou a convite da Netflix

Tony Goes

Tony Goes tem 58 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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