Tony Goes

Paola Carosella tem razão: a obesidade faz mal à saúde

Cancelamento da chef é mais um exagero do tribunal da internet

Retrato da chef e jurada do programa Master Chef Paola Carosella
Retrato da chef e jurada do programa Master Chef Paola Carosella - André Giorgi/UOL

A Mauritânia, na África Ocidental, é uma das nações mais pobres do mundo. Com quase todo seu território ocupado pelo deserto do Saara, o país tem uma agricultura tão incipiente que, por lá, a gordura é um símbolo de status. Ao ponto de muitas famílias escolherem uma das filhas para engordar: quanto mais obesa a moça for, maiores suas chances de arranjar um bom casamento.

A verdade é que uma mulher de corpo roliço sempre foi considerada mais desejável por quase todas as culturas humanas. Um sinal de saúde e de riqueza, qualidades que toda noiva sonha em ter. Foi só a partir de meados do século 20 que a magreza se tornou o padrão de beleza das sociedades ocidentais. Muito por causa da expansão dos esportes, onde as vitórias dependem de condicionamento físico, e também da indústria da moda, que prefere modelos esguias para exibir suas criações.

Hoje este padrão é questionado, e com razão. Porque, para muita gente, ele é simplesmente impossível. Não há dieta balanceada ou rotina de exercícios que consiga transformar numa sílfide alguém que tenha uma propensão genética a ser mais encorpado. O resultado dessa pressão constante por medidas supostamente perfeitas são lágrimas, frustrações, baixa autoestima, distúrbios alimentares e até suicídios.

Muitos médicos afirmam, inclusive, que não há nada de errado em estar um pouco acima do chamado peso ideal. Inúmeros “cheinhos” levam vidas longas e saudáveis. Boa parte da cultura contemporânea reconhece este fato e até o celebra, com atitudes positivas que levam à ampliação do conceito de beleza.

Obesidade é outra coisa. É algo a ser combatido, e não por razões estéticas. O risco de problemas graves de saúde, como diabetes e doenças cardíacas, aumenta exponencialmente para os muito gordos. Várias moças da Mauritânia morrem cedo, fulminadas por infartos.

Foi isto que a chef Paola Carosella quis dizer num tuíte postado no dia 22 de julho. A jurada do “MasterChef Brasil” (Band) participava de uma discussão pública sobre o que seria a “comida do futuro”, que supostamente recriará em laboratório alimentos como carne e cereais. Em dado momento, Paola respondeu assim a um seguidor, que defendia a “comida impressa industrializada”:

“Já tentou agroecologia? Comida de verdade? Feita por pessoas? Agricultura local? Comida que respeita a cultura? Comida que respeita biomas? Que respeita pessoas? Que não produz miséria? Aquela saudável, que não nos deixa obesos, hipertensos...”

É preciso muita má vontade para achar algo ofensivo nesta defesa da alimentação saudável e natural, mas o tribunal da internet conseguiu. O pomo da discórdia foi a palavra “obesos”, que suscitou acusações de gordofobia contra a chef argentina.

Gordofobia é tratar mal alguém que está acima do peso. É tirar sarro, é chamar de feio, é negar oportunidades profissionais ou fazer julgamento moral. Paola Carosella não fez nada disso: apenas apontou que a comida hiperprocessada pode levar à obesidade, uma condição física extrema que abre a porta para uma enxurrada de enfermidades.

Paola seguiu na discussão por mais dois dias, o que irritou a parte mais obtusa da blogosfera. Na sexta (24), ela mesma admitiu que estava sendo “cancelada”, com uma certa dose de ironia. No sábado (25), jogou a toalha: pediu desculpas e disse que deveria ter usado a palavra “doentes” no lugar de “obesos”.

Não acho que Paola Carosella deva desculpas a ninguém, até porque, neste caso, a parte ofendida foi ela. Mas entendo que tenha querido se livrar, o mais rápido possível, de uma aporrinhação desnecessária.

Suas desculpas tampouco mudam um fato incontornável: a obesidade faz mal à saúde. Mas, enquanto muitos integrantes do tribunal da internet não entenderem isto, continuarão perseguindo à toa gente bacana e correta. Como se, nas redes sociais, não houvesse vilões de verdade que mereçam ser atazanados.

Tony Goes

Tony Goes tem 58 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

Final do conteúdo

Comentários

Ver todos os comentários Comentar esta reportagem