Tony Goes

Meu dia de especialista na bancada do PopStar

Não foi fácil manter a objetividade no programa de calouros famosos da Globo

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Popstar - Divulgação
 

Quando o convite chegou à minha caixa de emails, eu custei a acreditar. Como assim? Participar do PopStar como especialista? Eu gosto bastante de música, mas não costumo escrever sobre o assunto.

Imaginei que jornalistas mais conhecidos teriam sido chamados antes de mim. De fato, descobri que dois deles haviam recusado o convite. Mas eu aceitei: achei que seria divertido. Também queria rever os Estúdios Globo, o antigo Projac, que eu frequentei durante um ano e meio quando fui roteirista do extinto Vídeo Show.

Embarquei para o Rio de Janeiro no sábado (30) à noite. Às 9h30 de domingo (1º), eu já estava nos estúdios da emissora. Levei três opções de camisa: a figurinista escolheu uma verde, a que melhor se destacaria contra o fundo do cenário. E passei dez minutos sendo maquiado, com Fafá de Belém em uma cadeira ao lado.

Um lauto café da manhã foi servido em um camarim, reunindo todo o time de especialistas: Luiza Possi, Ed Motta, Paula Mattos, Fernanda Abreu, Gabriel Moura, Byafra, Joelma, Dudu Nobre, Fafá e eu –o corpo estranho ali dentro. Todo mundo se conhecia, e eu não conhecia ninguém. Mas todos foram simpaticíssimos.

 

Um pouco antes do programa, um assistente de direção veio nos dar instruções. Em frente a cada jurado, há cinco botões na mesa. Os quatro de baixo trazem as notas possíveis, de 9,7 a 10. O de cima, bem maior, é o da estrela: se sete ou mais especialistas o apertarem, o candidato ganha um ponto extra.

Mas ninguém me falou para eu pegar leve ou poupar algum concorrente. Pelo contrário: “seja você mesmo”, me disseram. Ótimo, porque eu estava determinado a ser o mais criterioso possível em meu julgamento, doesse a quem doesse.

Só que não foi fácil. O clima de euforia no auditório é contagiante. Há torcidas organizadas, que fazem muita gritaria para cada especialista que entra no palco (até para mim fizeram). Serei eu o chato a estragar a festa?

O programa entrou no ar pontualmente às 12h45, com uma apresentação de Jakson Follmann. O ex-jogador da Chapecoense gozava de imunidade neste domingo; mesmo assim, alguns especialistas foram chamados a opinar. Ainda bem que eu não fui, porque não sou um dos maiores fãs do rapaz.

Em seguida veio Eriberto Leão cantando “Exagerado”, de Cazuza. Todo mundo deu estrela antes de mim. Dou ou não dou? Dou ou não dou? Acabei cedendo, quando o ator se atirou no chão. Mas economizei na nota: 9,8.

Minha primeira intervenção se deu após o número de George Sauma, que cantou “Verdade”, de Zeca Pagodinho. A apresentadora Taís Araujo me interpelou e eu consegui ser sincero: “George, você não tem uma voz fenomenal, mas a coreografia estava ótima e você 'entreteu' (sic) a plateia”, disse.

Pois é. O correto é “entreteve”. Soltei um erro de português logo na minha primeira aparição ao vivo na maior emissora do Brasil. O Twitter não me perdoou, e com razão.

Aliás, meu celular vibrou no bolso durante todo o programa. Muita gente mandando mensagem, achando que eu vou responder na hora. Ganhei 50 novos seguidores e até declarações de amor à primeira vista. Escapei dos haters, ufa –o que não teria acontecido se eu tivesse que opinar sobre o Jakson Follmann...

 

Ainda comentei as performances de Yara Charry e Totia Meirelles. As duas foram ótimas e eu não tive como evitar os elogios. Mas guardei minhas únicas notas 10 para as duas candidatas com quem eu já havia trabalhado antes: Babi (no Programa Livre, do SBT) e Nany People (na série "Partiu Shopping”, do Multishow). Que vergonha, hein? Privilegiando os amigos!

Nany foi a vencedora da rodada, com uma bela versão de “Tigresa”, de Caetano Veloso. Depois, pessoas que viram o PopStar pela TV me disseram que ela desafinou algumas vezes. Mas, na plateia, eu não percebi nada: o carisma da artista ofuscou qualquer deficiência vocal. Dei 10 e estrela, com louvor.

Terminado o programa, ainda rolou um almoço em outro camarim. Sentei-me ao lado de Joelma, a quem já critiquei algumas vezes. Será que ela vai me reconhecer? Não, eu não sou tão importante assim. Taís Araujo ainda deu uma passada rápida pelo lugar e só nos contou que a novela “Amor de Mãe” terá muitas reviravoltas –mais nada!

Saí dos Estúdios Globo por volta das 15h, com destino ao aeroporto. Participar do PopStar foi uma experiência marcante e uma oportunidade para (mais uma vez) ver a emissora funcionando por dentro. 
Se me chamarem de novo, prometo ser ainda mais rigoroso. Quer dizer... pelo menos, vou tentar.

Tony Goes

Tony Goes tem 58 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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