Tony Goes

Em uma semana, Diego Hypolito deu uma bola dentro e outra fora

Atleta acertou ao estrelar comercial do gel KY, mas foi ingênuo ao posar com Bolsonaro

Retrato de atleta Diego Hypolito para a seção "Minha História" de UOL Esporte
Retrato de atleta Diego Hypolito para a seção "Minha História" de UOL Esporte - Lucas Lima/UOL

Diego Hypolito voltou a estar em evidência, mesmo sem conquistar nenhuma nova medalha. O maior nome masculino da ginástica olímpica brasileira em todos os tempos voltou às manchetes em maio passado, quando deu um longo depoimento publicado pelo UOL. No texto, em primeira pessoa, o atleta assumiu publicamente sua homossexualidade.

Muita gente reagiu com indiferença, e o próprio Hypolito afirmou que não estava revelando nenhuma grande novidade. Mas o simples fato de sair do armário foi importante: a notícia não era ele ser gay, mas sim assumir ser gay.


Na quinta passada (14), Diego Hypolito surpreendeu novamente. O ginasta surgiu como garoto-propaganda do lubrificante íntimo KY, um produto bastante conhecido pelo público LGBT+. Foi a primeira vez que a marca usou uma celebridade em sua publicidade no Brasil –e uma celebridade gay, ainda por cima.

Com este pequeno gesto, Hypolito demonstrou estar absolutamente confortável com a própria sexualidade. Não tem nada do que se envergonhar –e ainda mandou uma mensagem de empoderamento para os jovens homo e transexuais, que estão crescendo em um ambiente mais repressivo do que o de alguns anos atrás.

Um dos responsáveis pelo clima de repressão é o presidente Jair Bolsonaro. Apesar de hoje dizer que não é homofóbico, Bolsonaro deixou inúmeras declarações que comprovam exatamente o contrário. Uma das mais famosas é “prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí”, dada em 2011 em uma entrevista à extinta revista “Playboy”.

Bolsonaro vem perdendo popularidade desde que chegou à Presidência. Seu governo ainda tem poucos resultados concretos a apresentar. Para piorar, suspeitas de envolvimento no assassinato de Marielle Franco atingem a imagem de sua família.

Precisando de uma agenda positiva, Bolsonaro chamou Diego Hypolito para uma conversa no Planalto. O atleta atendeu ao convite e, na manhã desta quinta (21), sua foto ao lado do Presidente, publicada no perfil deste no Instagram, provocou um reboliço nas redes sociais.

Hypolito correu para se defender. "Para mim não existe essa de esquerda e direita, eu sou de Deus [...] Mas mesmo sendo gay me preocupo que o esporte está acabando", disse ele à Folha.

A preocupação é compreensível. O esporte brasileiro, assim como a cultura, vem perdendo financiamento público. O próprio Hypolito já havia postado, no início de 2019, que queria se encontrar com o presidente para tratar do assunto.

Mas jura que ele acreditou que Bolsonaro está mesmo interessado no futuro da nossa ginástica olímpica? O presidente já deu sobejas provas de que só pensa em uma coisa: nele mesmo. De resto, vem abandonando pelo caminho diversos apoiadores de primeira hora.

Diego Hypolito foi ingênuo. Deixou-se manipular por Bolsonaro, o único que tem algo a ganhar (em termos de imagem) com este encontro em Brasília. Muito vou me admirar se daí surgirem verbas de patrocínio para a delegação brasileira nas Olimpíadas de Tóquio.

A vida é assim mesmo. Num dia a gente chuta uma bola a gol; no outro, ela vai parar na arquibancada. Não vou cobrar coerência de Diego Hypolito. Até porque ele não é uma pessoa muito politizada, nem interessada em levantar bandeiras.

Mas um pouquinho menos de ingenuidade, ah, isto eu vou. ​

 

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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