Tony Goes

Sob Pressão chega à terceira temporada em plena forma

Não faz sentido a decisão da Globo de terminar com o seriado médico

A personagem Carolina (Marjorie Estiano) em cena da série
A personagem Carolina (Marjorie Estiano) em cena da série - Globo
São Paulo

Custa muito caro desenvolver uma série para a TV. A preparação dos roteiros da primeira temporada – que inclui sinopses, arcos dramáticos, perfis de personagens e a “bíblia” (uma espécie de guia geral do programa), além de inúmeras das versões dos roteiros propriamente ditos – pode levar mais de um ano.

Depois vem o orçamento, a escolha de elenco e das locações, a produção e a pós-produção. Por mais cuidado que se tenha, por mais grana que se gaste, nada disso garante um sucesso. São inúmeros os produtos que fracassam logo de cara.

É por isto que o cancelamento de “Sob Pressão” desafia a lógica. A Globo anunciou que a terceira temporada da série, que estreou nesta quinta (2), também será a última. Segundo a emissora, “o ciclo se fechou”.

Só que não faz o menor sentido encerrar um programa que vai bem por qualquer ângulo que se olhe. “Sob Pressão” tem ótimas críticas, uma dezena de prêmios e índices expressivos de audiência. Ao contrário de outras atrações da Globo na mesma faixa horária, jamais perdeu para a concorrência.

O primeiro episódio da nova safra deixou evidente a maior qualidade da série: mostrar como a duríssima realidade brasileira interfere diretamente na vida pessoal dos cidadãos. Duas páginas tiradas do noticiário serviram de arcabouço para o roteiro: a greve dos caminhoneiros de maio de 2018, que paralisou o país, e a violência endêmica das nossas cidades.

“Sob Pressão” acabou de passar por um “reboot”. Seus protagonistas, os médicos Evandro (Julio Andrade) e Carolina (Marjorie Estiano), agora trabalham para o Serviço de Atendimento Móvel de Emergência (Samu)  do Rio de Janeiro, o serviço municipal de ambulâncias. Um único caso mantém a dupla ocupada durante todo o episódio de estreia da nova fase: um menino que teve o peito atravessado por um espeto de churrasco.

Além das agruras de sempre, os doutores têm que enfrentar a falta de material hospitalar agravada pela greve, a falta de gasolina, a recusa de um hospital particular em atender o garoto e a convivência com traficantes e contrabandistas. Acabam eles mesmos tendo que operar o paciente, em mais uma “gambiarra médica” (termo usado pelos próprios personagens).

Séries médicas costumam ser longevas por uma razão óbvia: os assuntos entram pela porta. A americana “E.R.” durou 15 anos. O mais difícil é construir personagens consistentes e interessantes, e isso “Sob Pressão” conseguiu faz tempo.

Será que, mesmo vendida para o exterior e liderando seu horário, “Sob Pressão” ainda é cara demais? A Globo vem enxugando custos de maneira ostensiva. Diminuiu o salário de grandes estrelas e até o ritmo de produção de séries.

Mesmo assim, é inexplicável a decisão de terminar o programa. A Conspiração, responsável pela produção, garante que gostaria de continuar. O público tampouco está cansado: os primeiros números divulgados da audiência desta quinta (2) são expressivos. Será que rolou alguma treta nas internas, da qual não estamos sabendo?

Se for este o caso, torço para que as partes se entendam. “Sob Pressão” é um produto superior, que leva a televisão brasileira a um novo patamar. Não merece esta morte súbita, como se fosse mal atendida em um precário hospital do subúrbio.

Tony Goes

Tony Goes tem 58 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

Final do conteúdo

Comentários

Ver todos os comentários Comentar esta reportagem

Últimas Notícias