Tony Goes

Na TV paga, Laerte passa o bastão para Linn Quebrada e Jup do Bairro

'Transando com Laerte' sai do ar e cede lugar a 'TransMissão'

Laerte
Laerte - Folhapress

“Fui eu quem quis terminar”, conta a cartunista Laerte Coutinho, colaboradora da Folha. “Apresentar programa de TV nunca foi a minha piscininha... eu prefiro desenhar”.

E assim, depois de quatro temporadas exibidas pelo Canal Brasil, fecha-se o ciclo de “Transando com Laerte”, o primeiro talk show comandado por uma pessoa transexual na televisão brasileira.

Mas não será o último. Para ocupar o lugar que foi de Laerte, a emissora prepara “TransMissão”, apresentado pelas performers transexuais Linn da Quebrada e Jup do Bairro. A estreia está prevista para junho, na faixa da meia-noite.

Fui acompanhar a gravação de um episódio, em um estúdio em São Paulo. A convidada era justamente Laerte, que já havia recebido Linn em seu extinto programa. A conversa entre o trio fluiu naturalmente, e havia no ar um clima de passagem de bastão.

Laerte agora vai dedicar boa parte de seu tempo a terminar uma “historiona”, como ela mesma diz: um álbum em quadrinhos que deve ter por volta de 350 páginas. O protagonista é um jovem músico com dúvidas quanto à própria sexualidade, na década de 1960. E o título ainda não existe: por enquanto, a autora chama sua próxima obra apenas de “a longa”.

Já Linn e Jup ainda estão no começo da jornada. A dupla começou a chamar atenção há pouco mais de dois anos: primeiro com shows incendiários, onde apresentam raps politizados; depois, com os documentários “Abrindo o Armário” e “Bixa Travesty” (este último tem causado furor em festivais, mas ainda não entrou em cartaz).

“Este programa está sendo uma grande surpresa”, diz Linn. “Nós não fomos preparadas para isto. Eu não sabia que era apresentadora de TV”.

“A gente não precisa falar só de gênero, sexualidade e negritude”, acrescenta Jup. “Queremos falar de economia, de arte, de qualquer assunto”.

De fato, a lista de convidados é bastante ampla: há vários artistas trans, mas também nomes como Tom Zé ou Paola Carosella. Linn também diz que pretende fugir das temáticas que lhe seriam óbvias. “Queremos transmitir informação”.

“Sempre colocam a gente em lugar de fala”, continua Jup. “Agora a gente vai ouvir! É tão gostoso...” E Linn arremata: “Estamos dispostas a errar”.

Em “Bixa Travesty”, elas fazem o que parece ser um programa de rádio, comentando diversos assuntos. Muita gente perguntou se o programa existia mesmo, ou se havia um canal no YouTube. Essa demanda espontânea animou o Canal Brasil a procurá-las e a Kiko Goiffman e Claudia Priscila – os diretores de “Bixa” e, agora, também de “TransMissão”.

“Não é um programa de entrevistas”, conclui a articuladíssima Linn. “É um programa de conversa, de diálogo. Um programa de construção de pensamento coletivo”. Em junho no ar.

Tony Goes

Tony Goes tem 58 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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