Tony Goes

Até jornalistas experientes como Fabio Pannunzio têm dificuldade em entender o que é violência sexual

Âncora da Band provocou revolta nas redes sociais com suas declarações

O médium João de Deus, acusado de centenas de casos de assédio sexual, deixa a casa onde ficou famoso por consultas e aconselhamentos espirituais
O médium João de Deus, acusado de centenas de casos de assédio sexual, deixa a casa onde ficou famoso por consultas e aconselhamentos espirituais - Walterson Rosa/Folhapress
Tony Goes
São Paulo

Fabio Pannunzio é um dos jornalistas mais respeitados do Brasil. O âncora do Jornal da Noite da Band tem uma carreira longa e bem-sucedida, pontuada por inúmeros prêmios. E, no entanto, Pannunzio parece que ainda não compreendeu que a violência sexual não tem nada a ver com o desejo.

Na edição da última segunda (17) de seu telejornal, ele levantou a hipótese de que nem todas as mais de 500 denúncias de estupro e abuso contra o médium João de Deus sejam verídicas. 

Claro que é dever de qualquer jornalista – de qualquer pessoa, aliás – duvidar de alguma coisa até que ela seja definitivamente comprovada. Mas a história recente indica que, toda vez que surge uma acusação de má conduta sexual contra alguém poderoso, logo em seguida aparecem dezenas de outras. É um padrão que se repete, e um forte indício da culpa do acusado.

“Você acha crível mesmo que esse homem molestou 500 mulheres aos 76 anos de idade?”, perguntou Pannunzio ao telespectador. Esqueceu-se de que algumas denúncias contra João de Deus remontam a atos cometidos há mais de 40 anos. Não foi em 2018 que o médium teria abusado de tantas mulheres.

Mas o mais grave vem a seguir. “É preciso mais que hormônios para se crer numa história dessa”, declarou Pannunzio. A frase saiu meio confusa: quem precisa de hormônios? Mas o que âncora provavelmente quis dizer é que nenhum homem tem tanto hormônio assim, que o empurre a atacar sexualmente mais de 500 mulheres.

Só que tem uma coisa: nenhum estuprador é movido pelo tesão. O que faz com que um homem assedie e abuse de uma mulher é o poder. Tanto que existem casos de estupradores impotentes, que atacaram suas vítimas com cabos de vassoura ou coisa parecida.

Muitos internautas se revoltaram com Pannunzio. E o desabafo mais contundente veio da também jornalista Leila Neubarth, da GloboNews, que escreveu o seguinte em seu perfil no Twitter: “É difícil até dizer o que eu sinto quando ouço um comentário como esse... não se se fico enojada, revoltada ou com pena pela total falta de informação dele...”

Pannunzio acusou o golpe, e respondeu a Leilane na edição desta terça (18) do Jornal da Noite: “Eu jamais defendi o cara. Ele é um estuprador serial. Mas não são nem serão 506 vítimas. A informação está errada. O que nada ameniza os crimes cometidos por ele. Como eu disse, há muito trigo e pouco joio”.

Sim, a informação deve estar errada mesmo – é provável que o número de vítimas de João de Deus seja ainda maior do que este. Haverá relatos falsos entre as denúncias? Também é possível.

Mas meu ponto não é este. Meu ponto é que é, sim, bastante crível que um homem poderoso moleste mais de 500 mulheres vulneráveis ao longo de mais de 40 anos. Mas não há hormônio que explique esses assédios: um molestador age assim porque pode, não porque está a fim de sexo.

Por incrível que pareça, ainda existem muitos homens que não compreendem essa realidade – talvez sejam a maioria. Não estou dizendo que sejam estupradores, tampouco cúmplices de estupradores. Mas é notória a dificuldade masculina de aceitar como verídica uma acusação de abuso sexual. Estamos (eu me incluo) muito mais propensos a acreditar em denúncias de corrupção ou de qualquer crime que não envolva sexo.

Enquanto esta atitude mental não mudar, estupros e abusos continuarão sendo relevados.

Tony Goes

Tony Goes tem 58 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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