Tony Goes

Por que a teledramaturgia brasileira é tão pouco variada?

É difícil imaginar uma variedade de séries, como as produzidas na Espanha, no Brasil

Bianca Bin como Clara em "O Outro Lado do Paraíso" (Globo)
Bianca Bin como Clara em "O Outro Lado do Paraíso" (Globo) - TV Globo

Na sexta-feira passada (6), estreou na Netflix a segunda parte da minissérie espanhola “La Casa de Papel”, extremamente popular entre os assinantes brasileiros do serviço de streaming.

Trata-se um fenômeno de nicho, é claro: a Netflix não para de crescer em nosso país, mas ainda não chega aos pés da penetração da TV aberta. Mesmo assim, as redes sociais logo se encheram de memes a respeito do programa, uma prova razoável de sua influência cultural entre nós.

“La Casa de Papel” fala de um roubo à Casa da Moeda da Espanha, e tem algo de Quentin Tarantino em sua linguagem bastante cinematográfica. No entanto, trata-se de uma produção da emissora local Antena 3, um canal aberto (a Netflix apenas comprou os direitos de distribuição para o resto do mundo). 

Não se trata de um exemplo isolado. A variedade dramatúrgica da TV espanhola já foi tema de uma coluna minha aqui no F5. Há séries de ficção científica, dramas contundentes, comédias rasgadas, tudo produzido pelos canais abertos. 

É difícil imaginar o mesmo acontecendo por aqui. A Globo, de longe nossa maior “player”, até vem tentando variar a paleta do que oferece ao espectador. Mas a emissora carioca se sente na obrigação de estar sempre em primeiro lugar no Ibope, a qualquer horário. 

O resultado são novelas invariavelmente focadas no amor, com protagonistas femininas e quase 200 capítulos com bastante enrolação.

Claro que ainda existe um púbico mais do que fiel ao gênero. Haja vista o sucesso de “O Outro Lado do Paraíso”, atual ocupante da faixa das 21h e detentora dos números mais altos desde “Avenida Brasil” (2012).

Não por acaso, ambas as tramas falam da vingança de uma mulher humilhada que consegue dar a volta por cima.

Tentativas de mudar de clima têm tido menos êxito. É o caso da medieval “Deus Salve o Rei”, da faixa das 19h. Em crise na audiência, a novela está sofrendo uma intervenção justamente para carregar mais no romance entre seus personagens principais.

Ciente de que precisa diversificar o cardápio para fazer frente ao sob demanda, a Globo está investindo pesado em séries com temáticas ousadas, como “Ilha de Ferro” (sobre uma plataforma de petróleo) ou “Assédio” (baseada no caso do médico Roger Abdelmassih, acusado de abuso sexual por dezenas de suas pacientes).

Mas estes produtos diferenciados sairão primeiro no novo serviço de streaming que o canal pretende lançar até o fim de 2018, apelidado internamente de “Globoflix”. É uma maneira de atrair assinantes para a plataforma, e também de testar as águas.

Tomara que dê certo. Com o SBT focado em novelinhas infantis, a Record priorizando os folhetins bíblicos e os canais a cabo ainda contando com orçamento irrisórios, sobrou a poderosa Globo para tirar nossa teledramaturgia da pasmaceira.

Tony Goes

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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