Tony Goes

Apesar dos retrocessos, o artista brasileiro do ano é Pabllo Vittar

A cantora Pablo Vittar em show na rua Augusta, na região central de São Paulo
A cantora Pablo Vittar em show na rua Augusta, na região central de São Paulo - Zanone Fraissat-17.dez.2017/Folhapress


2017 foi um ano curioso. À primeira vista, o Brasil se tornou mais conservador. Turbas ruidosas (e até violentas) fizeram manifestações pelo fechamento de exposições de arte ou contra a presença de intelectuais que elas nem leram, mas não gostam.

E, no entanto, o sucesso mais fulgurante do ano foi Pabllo Vittar, uma drag queen maranhense de quem, um ano atrás, o grande público nunca tinha ouvido falar.

Hoje é até estranho lembrar que, no primeiro trimestre de 2017, Pabllo Vittar ainda era crooner da banda do programa Amor & Sexo (Globo), sem que as câmeras lhe dessem maior destaque.

Corta para alguns meses depois e lá está ela cantando com Maiara e Maraísa no gigantesco palco do Festeja Brasil, show transmitido pela Globo que reuniu as maiores cantoras do feminejo. Pabllo nem pertence ao gênero, mas os fãs são os mesmos.

Como se explica este contraste? A comparação com 1973 é pertinente. Naquela época, a repressão promovida pela ditadura militar estava no auge. Havia censura, tortura, guerrilha urbana e na selva.

Mas foi neste ambiente carregado que um trio surgido no underground paulistano explodiu a nível nacional: os Secos & Molhados, cujo principal vocalista era um certo Ney Matogrosso.

É difícil explicar para os jovens de hoje o impacto que Ney causou 44 anos atrás. Não havia precedente para sua figura andrógina, sua voz feminina, seus trejeitos espalhafatosos.

Pabllo Vittar emerge em um momento diferente, claro, mas também com semelhanças. Estamos mais divididos do que nunca. Setores à esquerda e à direita se mostram intolerantes, proibindo que se discutam determinados temas ou cobrando nomenclaturas que, no entender deles, seriam as únicas admissíveis.

A drag queen que emplacou hits como "K.O." ou "Corpo Sensual" chegou para embaralhar essa trincheira. Não liga se a chamam de o Pabllo ou a Pabllo, deixa-se fotografar desmontada, com aparência masculina, e circula por todos os nichos culturais.

Passado um momento em que parecia ser uma unanimidade, também já divide opiniões. Acumulam-se nas redes sociais as queixas contra sua voz, que estaria perdendo potência. De fato, em algumas apresentações ao vivo, é nítido o esforço que Pabllo faz para alcançar certas notas e manter o fôlego.

Afinal, ela canta em falsete ou aquela é mesmo sua voz natural? De qualquer forma, fica a dica: aulas de canto já, para aprender a controlar a emissão e encarar a maratona de shows que vem pela frente.

Pabllo Vittar não teve os bilhões de execuções de Marília Mendonça, nem foi tão onipresente na mídia quanto sua amiga Anitta. Mas, em termos de choque cultural, ninguém lacrou mais do que ela.

2017 foi mesmo seu ano. Para 2018 está prevista a gravação de um álbum com produtores internacionais, soba égide da poderosa Sony. E Pabllo já mostrou que sabe cantar em inglês. Te cuida, resto do mundo.

Tony Goes

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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