Tony Goes

A derrocada de Harvey Weinstein: de produtor poderoso a predador sexual

O produtor Harvey Weinstein em 2015
O produtor Harvey Weinstein em 2015 - AFP PHOTO / LOIC VENANCE


Harvey  Weinstein foi o produtor americano de cinema mais importante dos últimos 25 anos. Foi ele quem descobriu e lapidou Quentin Tarantino, tido como um dos maiores diretores contemporâneos. Foi Weisntein quem também transformou a disputa pelo Oscar em uma autêntica estratégia de guerra, com resultados fenomenais.

Ele e seu irmão Bob fundaram a produtora Miramax (batizada em homenagem a seus pais, Miriam e Max) na década de 1970. Vinte anos depois, haviam tornado a companhia em sinônimo de sucesso e qualidade.

No final dos anos 90, a Miramax dominou a premiação da Academia de Hollywood. Filmes pouco mais que medianos como "O Paciente Inglês" (1996) ou "Shakespeare Apaixonado" (1998) ganharam os troféus principais, graças a campanhas muito bem articuladas.

Em 2005, os irmãos Weinstein deixaram a Miramax —que, àquela altura, já pertencia à Disney— e fundaram uma nova produtora, The  Weinstein  Company. O êxito nas premiações e nas bilheterias continuou, embora sem o mesmo ímpeto de antes.

A carapuça do produtor caricato cabia direitinho em Harvey  Weinstein. Ele era agressivo, boca-suja, sem pudor de difamar os concorrentes nos bastidores. Mas também era generoso com os talentos, a quem dava ampla liberdade de criação (mas não absoluta).

Para compensar a imagem de ogro, Weinstein se envolveu em várias causas de caridade, contribuindo com ONGs de combate à AIDS, à diabetes e à esclerose múltipla.

Mas agora talvez não tenha mais salvação. Uma reportagem publicada no New York Times na quinta (5) revelou que Weinstein fechou acordos financeiros com pelo menos oito mulheres em casos de assédio sexual.

Como costuma acontecer, logo surgiram muitas outras denúncias. Atrizes famosas, como Angelina Jolie, vieram a público relatar experiências para lá de desagradáveis. E até Meryl Streep —que nos EUA tem uma posição parecida com a que Fernanda Montenegro ocupa no Brasil, a de porta-voz da classe artística— se pronunciou contra Harvey Weinstein, apesar de terem trabalhado juntos várias vezes, sem maiores problemas.

Esta derrocada é fascinante por várias razões. Chama a atenção, inclusive, por ter demorado tanto. Algumas das vítimas de Weinstein guardaram segredo por mais de vinte anos, deixando que ele seguisse cometendo crimes.

Também é incrível como a nossa cultura ainda é leniente com sujeitos desse tipo. É mais do que provável que Hollywood inteira soubesse do mau comportamento de Harvey Weisntein, e ainda assim ele conseguiu manter durante décadas uma posição de destaque na indústria do entretenimento.

Agora seu reinado acabou: Weinstein foi despedido de sua própria empresa, e vai passar os próximos anos brigando nos tribunais. Bem-feito para ele, mas a pergunta fica no ar: quantos casos semelhantes existem por aí, dos quais ainda nem sabemos?

Tony Goes

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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