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Rosana Hermann
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Ana Hickmann era refém num cativeiro de luxo

Veio à tona a ponta do iceberg do relacionamento abusivo que ela vivia com seu agressor

Ana Hickmann - Instagram/ahickmann
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Antes de começar preciso dizer algo muito importante: se sua vida estivesse por um fio, nas mãos de um cirurgião, você iria perguntar para que time ele torce? Qual sua escola de samba? Se ele gosta de coentro? Claro que não. Porque isso tudo não importa, importa que ele seja um bom cirurgião e salve sua vida. Da mesma forma, não importa em quem Ana Hickmann votou, até porque o voto é secreto. Ela é uma mulher que foi agredida por um abusador e foi salva pelo 190 e pela Lei Maria da Penha. Dito isso, sigamos.

Em 2017, quando Ana Hickmann postou as primeiras fotos de sua mansão em Itu com aquela sala gigantesca, todos nós brincamos, rimos, fizemos memes. Eu mesma fiz um post perguntando se alguém sabia o CEP da sala. Teve gente comentando que a sala tinha o próprio IPTU.

O que víamos pela mídia era a imagem de uma mulher rica, alta, loira, belíssima, ex-modelo, empresária bem-sucedida, apresentadora de televisão, famosa por ter pernas de mais de um metro e vinte, casada com seu fiel empresário e mãe de um garotinho. A verdade era outra. Dentro e fora da casa.

Agora, quando veio à tona a ponta do iceberg do relacionamento abusivo que Ana Hickmann vivia com seu agressor, juntamos todos os pedacinhos desse quebra-cabeças de trinta anos, para compreender os infinitos pedidos de socorro silenciosos publicados nas entrelinhas dessa rede. Mesmo com mais um ato covarde daquele embuste, que apagou todo o conteúdo revelador e comprometedor de seus perfis, ainda é possível garimpar suas grosserias, suas maldades e, sobretudo, seu comportamento constante de humilhação e abuso, sempre disposto a manter Ana sob seu jugo e que, até agora, se traduz em ameaças de exposição e tentativas de culpabilizá-la.

O movimento que Ana parecia fazer era pedir ajuda para as pessoas a seu redor. E o que essas pessoas diziam, como Ana mesmo contou em sua entrevista para Carolina Ferraz? Elas diziam que ela tinha que aguentar, que ela não devia terminar o casamento. Ninguém a apoiava. Algumas porque talvez tivessem interesse na estabilidade daquele relacionamento que gerava seus empregos. Outras porque são fundamentalistas religiosas que defendem o casamento indissolúvel mesmo quando a mulher é vítima de todo tipo de agressão. E certamente tem o caso dos que se beneficiavam com essa imagem de casal perfeito e não queriam abrir mão do lucro.

E aqui, sei de uma história que mostra que o abuso sofrido por Ana ia além da dor de sua infância presenciando seu pai agredindo sua mãe, de um marido tóxico e um entorno que exigia dela a resignação. Isso também aconteceu num antigo caso, no âmbito profissional. Em um trabalho comercial, segundo fonte envolvida no ocorrido, Ana estava reticente em dar sequência a uma ação com uma marca desconhecida, pois acreditava que não combinava com sua linha pessoal e disse que não queria fazer o trabalho.

Ao ouvir isso, um de seus contratantes teria vociferado: "Ela não quer? E quem é ela para querer ou não querer alguma coisa? Vai fazer, sim!". E, usando de seu poder, esse senhor teria, propositalmente, designado um diretor de quem Ana não gostava para dirigir a ação, como "castigo". Ana teve que aceitar. Ou seja, o abuso masculino estava e está em todo lugar. Vem de muitos avós, de pais, de tios, irmãos, de parceiros, de colegas, de chefes, de contratantes.

Ana, como tantas de nós, mulheres, foi treinada desde pequena, para ser a aluna exemplar, a filha boazinha, a menina "obediente", nesse grande sistema misógino. Um patriarcado que conta com o apoio de toda uma sociedade conservadora, para prender a mulher no papel de "esposa fiel e cordata" e depois mantê-la à forças no lugar da "maternidade-santa". A mulher sem libido, sem pecado, sem coragem, sem vontade, sem forças, sem direitos.

Dá para entender por que Ana tentava se cercar de outras vidas que não a julgavam e apenas davam amor, como no caso do Joaquim, o cachorrinho fofo que Ana resgatou numa estrada contra a vontade do brutamontes que a acompanhava. Até quando Ana falava desse amor canino em seus perfis, o desgraçado comentava maldades.

Ana parecia ter tudo que todo mundo busca nessa vida. Beleza, fama, fortuna, sucesso. Mas só parecia. Era tão irreal como os feeds de Instagram que invejamos sem imaginarmos a dimensão daquela falsidade.

Hoje, podemos afirmar, sem metáforas, que aquela mansão, onde Ana Hickmann foi agredida diante de seu filho e lutou por sua integridade, não era mais um lar, mas um cárcere privado de luxo onde vivia como refém. E que a gentileza, a atenção que dedicava ao pai do seu filho nos vídeos, nos stories, nas entrevistas, era medo que virou hábito, era condicionamento de quem é sequestrado e subjugado por tantos anos a seu algoz que se apega a ele. Não era amor, era Síndrome de Estocolmo.

A luta pelo direito de toda mulher viver sem ser oprimida, humilhada, abusada, agredida e assassinada tem nome: feminismo.

Vida longa à Lei Maria da Penha!

Vida longa ao Joaquim!

#ForçaAna

Rosana Hermann

Rosana Hermann é jornalista, roteirista de TV desde 1983 e produtora de conteúdo.

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