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Rosana Hermann

Rede Globo é a capivara Filó da vez

Emissora não é mais o padrão e alvo que desejo que já foi

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Entre o final de abril e o começo de maio, o Brasil estava apaixonado pela capivara Filó. Só dava ela. Escrevi uma coluna comentando que as buscas por Filó na internet naquele período superaram as feitas por Anitta e Gisele Bündchen. A própria coluna, por causa da amada roedora, foi uma das mais lidas desse ano.

Os comerciantes aproveitaram a onda e botaram o nome de bichinha em tudo para vender. Em sites de compras, as capivaras de pelúcia passaram a se chamar Filó, brinquedos de plástico em sites de produtos de segunda mão também ganharam o mesmo nome para aquecer as vendas, os fabricantes de amigurimis (feitos de tricô ou crochê) cataram linha e agulha para fazer Filós em série. Por R$ 60 você podia comprar até artigos para festas de aniversário com o tema "Capivara Filó".

O influenciador Agenor Tupinambá e a deputada estadual Joana Darc com a capivara Filó, antes de ser apreendida pelo Ibama - @joanadarcam no Instagram

Poucas semanas depois tudo mudou. Foi-se a paixão, acabou; se foi febre, o povo deve ter tomado um antitérmico, porque a febre passou. Ninguém mais fala em Filó nem no seu tutor. A realidade se impôs e as notícias nos mostraram que a capivara é um roedor que vive em liberdade e não deve nem pode ser transformado em pet domesticado. As imagens fofinhas e inspiradoras de Filó abraçando seu tutor, Filó tomando banho de rio com ele, que levavam todos a fazer "owwwwnnnnnn…" nas redes sociais eram fruto da imaginação romântica das pessoas, uma idealização fantasiosa da cabeça do público.

Pois a Rede Globo parece ser a'Capivara Filó da vez, um caso de amor coletivo que encontrou seu ponto de virada.

Durante décadas, o sonho de nove em cada dez brasileiros era estar na Globo. Atores e atrizes davam um rim para estar nas novelas globais. Artistas queriam ser entrevistados nos talk shows da emissora, cantores se ofereciam para fazer apresentações nos programas da linha de show. E todos os profissionais ligados ao mundo da TV, como técnicos, maquiadores, figurinistas, queriam ter um crachá da empresa de Roberto Marinho. E o público queria aparecer na tela Globo de qualquer jeito, fosse com faixas nos estádios, invadindo links ao vivo na rua ou participando de entrevistas de rua com populares ou preenchendo os auditórios. A Globo sempre foi padrão, o modelo de milhões, o Everest da comunicação. Quando alguém queria ofender um profissional de outra TV, dizia "se você fosse bom, você estaria na Globo!".

Hoje não mais. Hoje a Globo tem haters. Muitos haters. Uma parte por questões ideológicas, de todos os espectros. Outra parte vem da concorrência, como a Record, que vê na Globo o inimigo, embora contrate todo mundo que sai de lá. Há também a gana dos "sbtistas", opositores da Globo que vibram quando qualquer programa do Silvio Santos fica em primeiro lugar. Tem a geração que nem vê mais televisão e acha a Globo irrelevante. Existe ainda o grupo dos que a veem como apenas mais uma entre tantas opções de entretenimento.

Claro que milhões ainda assistem às novelas, ao Jornal Nacional, assinam o streaming e outros canais do grupo. Mas aquela paixão pela Rede do plim-plim, que a tratava como diva, a Vênus Platinada, não existe mais. Nem para a audiência nem para o elenco.

Todos os dias lemos notícias de grandes nomes que saíram da empresa, não renovaram contrato ou foram desligados. Todos os dias também vemos que grandes artistas globais que eram endeusados hoje são questionados, ignorados ou até cancelados.

A vida conectada trouxe muitos problemas e perigos, mas teve o efeito benéfico de nos mostrar a realidade e nos tirar de um mundo de ilusão. Porque no mundo capitalista em que vivemos, a realidade é que empresas visam lucros, artistas são humanamente falíveis e capivaras, embora fofinhas, podem morder quem mexer com elas indevidamente.

Fica a dica: ilusão é tempero, o prato principal que nos nutre é sempre a realidade.

Rosana Hermann

Rosana Hermann é jornalista, roteirista de TV desde 1983 e produtora de conteúdo.

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