Mariliz Pereira Jorge

Brasileiro gosta de ajudar o próximo, desde que não seja tão próximo

Sugiro numa próxima temporada do BBB apenas pessoas que tenham histórias de tragédia

Gleici, uma das favoritas para vencer o BBB 18
Gleici, uma das favoritas para vencer o BBB 18 - Reprodução

Apesar de três finalistas o BBB parece que será decidido mesmo entre o imigrante sírio que quer trazer sua família da guerra e a acreana com infância pobre que pretende dar uma vida melhor para a mãe e os avós.

Se o público que acompanha o reality tivesse levado em conta apenas aspectos práticos como carisma, desenvoltura, senso de humor, sarcasmo, habilidade nas competições, postura combativa, Ana Clara seria campeã, apesar de ter carregado uma mala pesadíssima durante todo o programa que é seu pai.

Ayrton se superou nos últimos dias na chatice e na inconveniência a ponto de que gente da torcida da família já ache que um terceiro lugar está de ótimo tamanho para o pavão que vem crescendo dentro de Papito a cada paredão superado.

Mas voltando ao que interessa. O que explica, então, a escolha de duas pessoas que, se não fosse por suas tragédias pessoais talvez não se destacassem tanto no meio dos participantes? Culpa.

Brasileiro sente culpa desde sempre. A maioria de nós tem consciência do enorme problema de desigualdade, da falta de oportunidade, mas quando um moleque vem vender bala na mesa do restaurante, interrompendo nosso chopinho, a gente não quer ser incomodada. Também não fazemos o menor esforço para, de fato, ajudar os mais necessitados – financeiramente e emocionalmente. Apenas 4,4% das pessoas realizam algum trabalho voluntário no país, segundo dados divulgados hoje (18) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Uma pesquisa que avalia o comportamento humano, produzida pela fundação britânica Charities Aid Foundation, coloca o Brasil em 90º lugar numa lista de 135 países. O World Giving Index mede o percentual mensal que as pessoas costumam ajudar estranhos, a percentagem que doa dinheiro para instituições de caridade e também a que se dedica a trabalhos voluntários. Não parecemos tão legais assim, não é mesmo?

Mas num reality show estamos prestes e diminuir essa culpa ao dar o prêmio para duas pessoas que não são as mais interessantes, as mais inteligentes, as mais divertidas. Gleici é uma garota querida e encantadora, mas que teria passado sem deixar muitas lembranças se não tivesse virado alvo do núcleo malvado do programa que percebeu suas fragilidades e achou que se livraria dela muito rapidamente, o que fez a audiência e outros participantes imediatamente tentarem protegê-la. É uma estrela ainda com pouca luz própria e uma total incógnita se conseguirá brilhar sozinha aqui do lado de fora.

É difícil não se comover com a história de Kaysar, até mesmo porque podemos ter intimidade com a miséria e as injustiças sociais que assolam nosso país, mas não sabemos o que é enfrentar uma guerra, ainda que muitas pessoas vivam uma versão brazuca do que seria um conflito armado em muitas favelas brasileiras. Tenho dúvidas se não fosse sua tragédia pessoal, o sírio teria ido tão longe no BBB. Sua personalidade foi muito oscilante, mesmo que seus torcedores não admitam. Ora parecia muito ingênuo, manipulado, chato e inconveniente, ora seguro e determinado. Essa segunda faceta tem sido mais constante na reta final do BBB e ele vem abusando das situações para mandar um recado ao público: depende de vocês para que eu salve minha família da guerra. E como temos visto a chantagem emocional funcionou.

Independentemente de quem levar o prêmio fica claro que brasileiro gosta de ajudar o próximo, desde que não seja tão próximo. Desde que o trabalho todo seja apertar uma tecla no celular e votar num programa de TV. Sugiro numa próxima temporada o programa escolher apenas pessoas que tenham histórias de vidas de superação e deixar o público escolher qual tragédia é mais tragédia.

Mariliz Pereira Jorge

É jornalista e roteirista.

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