De faixa a coroa

Por que as misses precisam falar inglês?

Disputas de beleza globais reforçam que valorizam a diversidade cultural; é isso mesmo?

Jamaicana Toni-Ann Singh (no centro) eleita Miss Mundo; a brasileira Elis Miele aparece na foto como a segunda à esquerda

Jamaicana Toni-Ann Singh (no centro) eleita Miss Mundo; a brasileira Elis Miele aparece na foto como a segunda à esquerda Daniel Leal-Olivas/ AFP

Neste ano, a mineira Elis Miele, 21, se destacou durante a competição do Miss Mundo, em Londres. A jovem ficou entre as cinco finalistas da competição, cuja final em 14 de dezembro foi vencida pela jamaicana Toni-Ann Singh, 23. O concurso, que é considerado um dos maiores existentes hoje, foi criado em 1951 e celebrou neste ano sua 69ª edição.

Comunicativa, simpática e carismática, Miele foi muito bem, obrigado, na disputa como um todo. Primeiro nos desafios preliminares, durante os quase 30 dias que antecederam o show da final. Neles, todas as 112 misses eram avaliadas e recebiam notas por seu desempenho. Esportes, talento, desfile top model e em traje de gala, entrevista com os jurados e outras provas estavam no roteiro.

Depois, no palco, ela brilhou. Apareceu em um vestido rosa com detalhes dourados e flores bordadas —digno de uma princesa. A maquiagem na medida certa destacou seu ponto forte: os olhos cintilantes. O cabelo estava com movimento flutuante, penteado de tal maneira que permitia revelar um brinco unilateral, que brindou o look com um brilho discreto. E, claro, o sorriso radiante foi a cereja do bolo. 

Por isso tudo e mais um pouco, a nossa brava guerreira entrou no Top 5. Deste ponto em diante, as finalistas são avaliada uma última vez, ao vivo, pelo júri artístico, comandado pela filantropa inglesa Julia Morley, 80 —atual dona do certame. E é ali que acontece a tradicional perguntinha, na apoteose do show. 

Por que a Miss Brasil não venceu? Há quem discorde, mas todos os indícios apontam que o inglês dela na resposta final foi o que a prejudicou. Você pode achar que ela respondeu algo errado, mas não foi isso. De modo geral, a miss estava calma e se virou muito bem, mas em um único momento tropeçou na conversação. 

 

As disputas de beleza globais gostam de reforçar que valorizam a diversidade cultural e introduzem suas misses como embaixadoras da paz entre os povos. Imprimem em seu DNA e slogan união mundial, tolerância com as diferenças e posicionam projetos sociais como escudos de suas marcas. 

Esse é o argumento para gerar interesse em mulheres nos quatro cantos do planeta. E também para, cada vez mais, ter um grande número de países concorrendo —que, aliás, pagam um alto valor de franquia para isso. 

A dúvida não está na motivação social dos concursos mas, sim, no quão sério eles levam o argumento acima. Afinal, na maioria das vezes, se a miss não fala inglês perfeito, mesmo que não seja a língua mãe de seu país, ela é desconsiderada.

Em um par de poltronas no centro do palco, o jornalista britânico Piers Morgan, 54, recebeu uma a uma das cinco finalistas e simulou um bate-papo. Ele é conhecido por ter comandado um programa de entrevistas na rede CNN, além de ter sido editor dos tabloides locais News of the World e Daily Mirror.

Na vez de Miele, Morgan quebrou o gelo contando que foi ao Rock in Rio em 1991 e emendou a pergunta mais manjada “Qual a razão pela qual todo mundo deveria pensar: sim, ela deve ser Miss Mundo?”. A miss respondeu brilhantemente em inglês, num desempenho bem melhor que o de muitos políticos brasileiros.

“Eu acredito em propósito, e quando você sabe o seu propósito na vida, está pronto para mudar o mundo. Precisamos sempre procurar por um propósito e tentar fazer o melhor de nós por ele todos os dias. Eu não estou aqui apenas para ser eu mesma, mas sim para representar todas estas garotas e todos os seus lindos projetos. E eu não quero trabalhar sozinha, e sim junto com todas estas mulheres, para fazer um mundo melhor”, mandou ela, sob aplausos.

Morgan continuou, em seu sotaque britânico pra lá de carregado: “Todos dizem que querem mudar o mundo para melhor. Então, qual você acredita que seja a maior ameaça que sua geração está enfrentando agora?”. 

Foi aí que a compreensão de inglês da miss deslizou. “Desculpe-me… Posso ter alguma ajuda?”, indagou. Morgan explicou melhor e a mineira rapidamente teceu sua resposta, novamente em inglês. “Acredito que precisamos ser nós mesmos. Não temos que nos preocupar com o que a sociedade diz, mas sim acreditar de verdade em nós. Às vezes as pessoas se envolvem demais com o que querem que a gente seja. Mas para mudar o mundo precisamos ser nós mesmos”.

Em resumo: o desempenho da Miss Brasil foi digno de uma vencedora. Pena que a diversidade cultural não parece ser tão celebrada nos concursos internacionais conforme a impressão que eles mesmos fazem questão de passar ao público.

Confira aqui a performance completa de Elis no concurso:

De faixa a coroa

Fábio Luís de Paula é jornalista especializado na cobertura de concursos de beleza, sendo os principais deles o Miss Brasil e Miss Universo. Formado em jornalismo pelo Mackenzie, passou por Redações da Folha e do UOL, além de assessorias, como a da Fox.

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