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Zapping - Cristina Padiglione
Descrição de chapéu Três Perguntas Para...

Zebrinha: 'Representatividade já foi, agora queremos presença'

Com vasto currículo, coreógrafo do júri da Dança dos Famosos fala sobre arte e vivência negra

José Carlos Arandiba ( Zebrinha ) - Instagram/xorogan_zebrinha
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Campinas

José Carlos Arandiba, o Zebrinha, fez sua estreia nas telas da TV como jurado fixo do Dança dos Famosos 2022 (Globo). O bailarino começou sua carreira no Grupo de Dança contemporânea da Bahia, e já ensinou dança em Paris, Alemanha e Bélgica.

Ao longo de seus 30 anos de carreira, Zebrinha já foi ovacionado pela coreógrafa norte americana Judith Jamison e aplaudido de pé pela cantora lírica Jessye Norman. Ele se apresentou por quatro vezes no festival de dança de Lyon, na França, considerado o maior festival de dança do mundo, e ficou cara a cara com Spike Lee, a quem concedeu entrevista.

Apesar de todas as conquistas, José Carlos se emociona mesmo quando cita as crianças e adolescentes da periferia baiana o chamando de "professor Zebrinha". O sucesso da carreira, apesar de deslumbrante, só não se completa pela perda do filho, Rock, a quem o artista faz questão de homenagear: "Existem pessoas que se foram, mas devem ser lembradas", afirma.

Formado em dança clássica e moderna em conservatórios da Holanda e de Nova York, ele já se apresentou em diversas companhias internacionais e coreografou produções de cinema, televisão e teatro.

Atualmente, Zebrinha faz parte do time de preparação de elenco da 2ª temporada de "Cine Holliúdy", série de comédia do Globoplay. Desde 1992, o artista é coordenador e coreógrafo do Bando de Teatro Olodum, além de formar dançarinos no Balé Folclórico da Bahia.

Ele falou à coluna sobre inclusão, arte, negritude, afeto, religião e outros assuntos. A seção "Três Perguntas Para...", por onde já passaram nomes como Ana Flávia Cavalcanti, Mariana Santos, Cris Guterres e Maurício Meirelles, traz trechos dessa conversa. Confira:

Você acredita que essa edição do Dança dos Famosos está mais diversa, com a sua presença e JojoTodynho quebrando preconceitos sobre ser uma mulher gorda na dança, por exemplo?

Eu não estou na direção, não estou na formação, mas a fotografia melhorou. Porque você tem um jurado fixo preto ali, avaliando todas aquelas pessoas, eu acho que já é [um avanço].

Inclusive, eu não queria fazer, a princípio, porque eu sou homem de teatro. Eu me defino como simplesmente um professor de dança, eu vivi toda a minha vida assim. Quero ganhar dinheiro, adoro ganhar dinheiro, mas minha função é outra dentro do mundo espetáculo. Me peça para interpretar alguma coisa, Deus do céu, vai ser um cagaço.

Eu dancei minha vida toda, no dia que eu saí dos palcos, eu me prometi que não voltaria nunca mais. E não foi por nada, é que eu achava que já tinha feito tudo o que eu queria fazer. Agora eu queria fazer outra coisa, ser útil para a sociedade. Eu estou muito satisfeito com minha vida, já produzi muito, artisticamente.

Então, eu me neguei muito a aceitar o convite feito por Henrique Matias [diretor do quadro]. E eu tenho uma gangue, que são meus amigos de todos os dias, de ‘eu te amo’, ‘eu te adoro’. Eles me forçaram (risos). Elise Lopes, Jairo Bittencourt, Lázaro Ramos e Taís Araújo –essa daí veio com a cartada total, era bem certeira, e depois da conversa com ela eu aceitei.

E eu sento ali, ainda meio assim [desconfortável], no primeiro dia, quando chega Jéssica Ellen e faz aquele discurso muito bacana, o mesmo discurso que eu faço para os meus mais velhos. Toda vez que eu tenho chance de falar de Carlos Morgan, de Mário Gusmão e de outros mestres, tenho aquela mesma postura. Um dia vai chegar a vez de Jéssica, assim como é Ruth Souza, dona Lélia [Gonzalez], Conceição Evaristo, a quem rendo homenagens.

No dia seguinte foi Sérgio Menezes, que também fez a mesma coisa. Eu senti que era uma extensão: é como se escrevesse um livro e começasse a distribuir para a comunidade. Eu acho que estar ali não é nem questão de representatividade, é questão de presença, de você ter essa pessoa ali todos os dias, é disso que a gente precisa hoje em dia.

Essa é a reivindicação de Ana Maria Gonçalves [Autora de ‘Um defeito de Cor’], ela disse que representatividade já foi, agora nós queremos presença.

Então me sinto fincado ali e sabendo que estou causando um efeito para a comunidade preta. Todas as vezes que eu via um preto nesse lugar, era o mesmo efeito que me causava, de acreditar que existe possibilidade, por mais cruel que o sistema seja. Claro que não vai ser tão fácil como se fosse para um branco, chegar aí. A gente, para conseguir chegar a esse patamar, é uma ralação só.

Agora, o que eu não gosto, aí eu viro uma arara mesmo, é quando as pessoas acham que aquele lugar ali [na televisão] é o grande sucesso da minha vida. Nunca foi. Não é esse caminho. Se o grande público quiser pensar isso, tudo bem, mas se as pessoas que me conhecem, que conhecem o meu trabalho, vierem com essa história… Aí está jogando fora toda a minha trajetória como artista preto nesse país.

Como é participar desse processo de preparação de elenco para produções de TV e cinema, e depois assistir ao que você ensinou e ajudou a construir?

Para mim é sempre frustrante (risos). Porque quando termina de produzir alguma coisa artística, eu acho que é hora de começar. Falando sério mesmo. Porque chega um momento em que você tem que parar —e na televisão, no cinema, existe uma urgência por conta orçamentária, de tempo dos atores, que precisam fazer várias coisas ao mesmo tempo... Então, é o lugar onde eu fico mais frustrado em relação ao resultado do nosso trabalho.

Tudo funciona porque nós nos associamos imediatamente. É o que eu tento fazer em todo processo que eu entro, inclusive no processo educativo: vamos nos associar para chegar lá. Esse é meu processo: é um trabalho de várias mãos, vários pés, várias cabeças, não sou eu. Eu cheguei na sala [de aula] ontem e falei: 'Eu não tenho informação nenhuma para passar para vocês. Bora ver o que é que nós construímos juntos'. E, para mim, funciona assim. Só que, quando chega no final, eu fico muito frustrado. Porque acho que ali era o ponto de partida.

Mas você é exigente, não é?

A vida é exigente comigo (risos). Vamos falar agora aqui da comunidade preta. Eu acho que tudo você só consegue com disciplina, perseverança e um certo respeito a quem está com a batuta na mão —se você tem isso, você já tem um caminho certo para conseguir o sucesso esperado naquele projeto.

Mas nós somos tão doloridos pelo chicote da escravidão, que continua a nos açoitar... Acho que [mais] as pessoas da minha idade, mas o Brasil ainda se submete à lembrança da ditadura... Então, todas as vezes que você fala sobre disciplina e sinônimos que vão legendar essa ideia que eu tenho sobre construção profissional, de um espetáculo, soa como chicote.

E mesmo assim, nós conseguimos fazer muita coisa. Por isso que eu falo do afeto. Eu, particularmente, quando encontro uma pessoa com a qual vou trabalhar, se ela é preta, que eu sei a proveniência anormal da qual nós viemos, a primeira coisa que eu começo a exercer é o afeto, o cuidado. E, às vezes, as pessoas ficam muito assustadas com como me abro para uma pessoa que não conheço.

Eu me torno parte da família dessa pessoas. E é muito fácil para mim, porque a carência dessas pessoas é a mesma carência que eu sempre tive. Claro, eu estudei muito, psicologia, um monte de coisas, mas uma das coisas que eu trago para esse processo de formação é a minha vivência na minha família, no bairro, onde todo mundo cuidava do outro.

E uma outra coisa que eu trago é que eu sou candomblecista. Não sou tão religioso, podia ser budista, qualquer coisa, mas é que eu sou preto (risos), vou privilegiar o meu legado. Tem um monte de comportamentos e tradições religiosas que me fascinam, mas eu acho que o único legado que a gente tem no Brasil, forte, que nossos antepassados nos deixaram, foi essa religião.

Aí eu trago também essa relação dessa comunidade, que eu acho muito bonita, de acolher. Candomblé é um centro de acolhimento, é uma família formada por outras famílias.

Zapping - Cristina Padiglione

Cristina Padiglione, 50, é jornalista e escreve sobre assuntos relacionados à televisão. Ela cobre a área desde 1991, quando a TV paga ainda engatinhava. Ela passou pelas Redações dos jornais Folha da Tarde (1992-1995), Folha (1997-1999) e O Estado de S. Paulo (2000-2016), entre outras publicações. Ela também tem o blog Telepadi (telepadi.folha.com.br), hospedado no site da Folha.

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