Colo de Mãe
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Reflexões sobre o corpo materno

Em tempos de invasão do Talibã a Cabul, é sempre bom reforçar que o corpo da mulher pertence a ela

scaliger - Fotolia
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Agora

O corpo materno é morada de um filho e serve a ele nos primeiros meses. Mas gerar uma vida traz transformações arrasadoras ao corpo feminino. Talvez essa doação imposta pela natureza faça com que parte da sociedade se ache dona do corpo da mãe.

Ou talvez a forma patriarcal de organização faça com que se acredite que o corpo materno pertence a qualquer outro ser, menos a ela.

E nós, mães, em uma sociedade da imagem, caímos cada vez mais na armadilha de nos olhar e não nos reconhecer. De, muitas vezes, odiar o novo corpo: as dobras, a gordura extra, as estrias, o quadril que sobra, a barriga que aumenta e fica disforme. Mesmo sabendo que de lá veio o maior tesouro.

Lembro que, no meu primeiro parto, eu perdi muito peso nos primeiros quatro meses, e isso era motivo de elogio. A frase mais ouvida era: “Nossa, você nem parece que teve filho”. Embora aquele elogio me enchesse de vaidade, não preenchia meu coração.

Eu entendia que estava fazendo tudo certo aos olhos da sociedade, mas, ao mesmo tempo, me via completamente errada. Como é que eu era mãe e não parecia?

Da minha segunda filha foi diferente. Após 40 semanas de gestação e 19 quilos a mais, finalmente eu tinha cara de mãe. Dia desses, uma amiga confessou: “Fui te visitar e te achei tão relaxada”, dizia ela, sobre a visita após o nascimento da Laura. Eu lembrei a ela que, naquele dia, tinha conseguido lavar o cabelo no banho, já que a receberia em casa.

E aquilo tinha sido uma vitória. Eu, com duas filhas, em livre demanda da amamentação, não pensava em exercício físico nem em perder peso, e queria realmente parecer mãe. Afinal, eu era mãe. E esse é o maior elogio que poso receber.

Não quero dizer que o peso define a nossa maternidade, mas quero apontar como a imagem que a sociedade faz das mães é que pode nos determinar. De um lado, há quem espere mães magérrimas ao sair do hospital.

De outro, gente que só reconhece uma mãe se ela está acima do peso. Há quem ache a mãe descuidada se não perde peso e quem invalide sua maternidade se você aparecer com a silhueta de antes da gravidez. Tudo isso nos faz mal.

Vejo, o tempo todo, de Norte a Sul do país, mulheres que não se reconhecem nos seus corpos de mãe. E, muitas vezes, não é nem a gestação que engorda e molda, é o passar do tempo. São brancas, negras, novas e velhas. Católicas, evangélicas, zen budistas. Quase 100% delas só se sentem bem se perder em peso.

Não tiram fotos, não saem de casa, não compram roupas, não se amam. E correm para perder o peso da gestação com dietas mirabolantes, intervenções estéticas, exercícios físicos à exaustão, a ponto de passar menos tempo com os filhos na infância, de deixar para trás a conexão porque precisam de um corpo validado pela sociedade.

Não faço apologia ao excesso de peso que leva a diabetes e colesterol alto nem à gordura abdominal que traz hipertensão —aliás, cuidar do corpo materno de forma profunda deveria ser política do SUS e dos planos de saúde—. Falo de passar meses e, muitas vezes, anos sem se reconhecer como mulher, como ser humano e só conseguir se amar no espelho, vestir roupa bonita, se maquiar e sair em fotos se perder peso.

Isso tem que mudar. Nós precisamos, antes de tudo, nos respeitar para sermos respeitadas. E o respeito passa, inicialmente, pela autoafirmação de que o corpo materno é da mãe e ele vai, sim, respeitar o que a natureza faz conosco.

E​, não, a natureza não nos dá barriga de tanquinho logo após o parto. Isso é coisa da intervenção humana, seja o cirurgião plástico ou os filtros das fotos nas redes, ela nos dá transformação. Que saibamos lidar com esse presente vindo com o filho. Liberdade aos corpos maternos!

Colo de Mãe

Cristiane Gercina, 41, é mãe de Luiza, 13, e Laura, 8. É apaixonada pelas filhas e por literatura. Graduada e pós-graduada pela Unesp, é coordenadora-assistente de Grana do jornal Agora, empresa do Grupo Folha. Quer ver o desenho do seu filho publicado na coluna? Envie-o para o e-mail colodemae@grupofolha.com.br com nome completo e idade da criança, nome e celular do responsável.

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