Shang-Chi (Simu Liu) em cena do filme "Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis" Jasin Boland/ Divulgação

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Robert Ito
The New York Times

No panteão de super-heróis da Marvel, temos o Homem-Aranha e o Homem de Ferro, o Capitão América e... Shang-Chi?

Admitidamente um dos menos conhecidos entre os protagonistas da editora de quadrinhos, Shang-Chi, também conhecido como O Mestre do Kung Fu, não era familiar para boa parte da equipe de criação contratada pela Disney e Marvel Studios dois anos atrás a fim de dar vida cinematográfica ao personagem.

Destin Daniel Cretton, diretor de “Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis”, que estreou no dia 2 de setembro, não conhecia o personagem, quando era mais jovem. O mesmo vale para o ator canadense Simu Liu (de “Kim’s Convenience”), que interpreta Shang-Chi no filme.

Quando o roteirista David Callaham, veterano fã da Marvel, foi procurado inicialmente para o projeto, e informado de que envolveria um super-herói asiático, ele imaginou que o estúdio estivesse falando de Amadeus Cho, o Hulk coreano, que apareceu inicialmente nos quadrinhos em 2005.

Quando lhe disseram que o protagonista seria Shang-Chi, a reação de Callaham foi: “Não sei quem é esse cara”.

Muita gente diria a mesma coisa. Para a equipe de criação, isso ofereceu grande liberdade criativa para formular o filme, no qual Liu interpreta um jovem americano de origem chinesa que trabalha como camareiro em um hotel —mas que, sem que nem mesmo seus amigos saibam disso, é também “o maior praticante de artes marciais do planeta”, e está batalhando para escapar ao controle de seu pai dominador.

Quer o personagem seja bem conhecido, quer não, o filme é causa de celebração: será o primeiro e único filme de super-heróis da Marvel com um protagonista asiático, um diretor americano de origem asiática, e tendo por base um personagem que era asiático, nos quadrinhos originais.

Mas, falando nos quadrinhos... Quando “The Hands of Shang-Chi, Master of Kung Fu” foi publicado inicialmente, em 1974, a revista era claramente um produto de sua era —com penteados de época e menções à banda Fleetwood Mac—, mas também de eras passadas, com material base que datava da década de 1920 na Inglaterra.

A revista era uma das mais problemáticas da Marvel em termos raciais, com os rostos dos asiáticos pintados em tons de laranja e amarelo jamais vistos na natureza, e personagens orientais caricatos como Shaka Kharn (uma espécie de reencarnação barata de Genghis Khan); o monossilábico Chankar (conhecido como “o sumô imbatível”); e Moon Sun (um dos “ancestrais” chineses, acompanhado por sua filha, a “mui bela e honorável” Tiko.)

O protagonista passava boa parte das histórias descalço e sem camisa, proferia platitudes dignas de profecias de biscoito chinês, em inglês canhestro, e convivia com sujeitos britânicos com nomes como Black Jack Tarr e Sir Denis Nayland Smith.

E havia o pai dele. O pai de Shang-Chi não era só um patriarca asiático dominador que desejava que o filho seguisse seus passos no comando do negócio da família, mas sim Fu Manchu, o arquivilão do “Perigo Amarelo” criado pelo romancista britânico Sax Rohmer em 1913.

Com unhas e bigodes longos, Fu Manchu sonha dominar o mundo. Em um filme de 1932 estrelado por Boris Karloff com uma maquiagem asiática grotesca, o personagem ordena que seus seguidores "matem os homens brancos e tomem suas mulheres”. Para retomar uma história com esse legado, o que a Marvel podia fazer?

Para começar, abrir mão de Fu Manchu. “Fu Manchu era problemático, por um bilhão de razões”, disse Callaham. Mas mesmo assim, adaptar a história parecia complicado, disse Cretton.

“Em minha primeira reunião com a Marvel, meu objetivo era simplesmente me fazer ouvir e pedir que eles evitassem isso e tentassem não fazer aquilo”, disse Cretton, mais conhecido por “Short Term 12” ["Temporário 12", em português] e outros dramas. “Jamais imaginei que seria contratado para o trabalho”.

Mesmo sem Fu Manchu, a Marvel desejava preservar o relacionamento familiar que tinha posição central na história, mas com uma figura paterna que interessasse a um ator eminente. “Quando nos perguntaram quem víamos no papel do pai, o primeiro nome que me ocorreu foi o de Tony Leung”, disse Cretton. “Mas eu disse que sabia que não haveria como conseguir a participação dele”.

De muitas maneiras, contratar Leung, que conquistou o prêmio de melhor ator do Festival de Cannes em 2000 por “Amor à Flor da Pele”, foi um sinal para todos os participantes de que Fu Manchu não estaria no filme, de qualquer maneira que fosse. Um dos atores mais talentosos e respeitados de Hong Kong não aceitaria interpretar um estereótipo racista e antichinês.

“Não havia como imaginar Tony Leung interpretando um personagem do tipo Fu Manchu”, disse Nancy Yuen, autora de “Reel Inequality: Hollywood Actors and Racism”, um livro sobre o racismo na escalação de atores em Hollywood. “Não seria humanamente possível, levando em conta aquilo que ele já é na história do cinema”.

Escalar Leung também foi parte de um esforço mais amplo para criar um elenco asiático, algo que os quadrinhos, e as obras que os influenciavam, raramente fizeram. (Talvez seja revelador que os dois principais atores brancos no novo filme, Florian Munteanu e Tim Roth, interpretem monstros.)

Na série de TV “Kung Fu”, da década de 1970, que a Marvel esperava adaptar antes de decidir ir adiante com Shang-Chi, o herói “chinês” da história (interpretado por David Carradine) era cercado por um elenco majoritariamente branco; da mesma forma, em “Operação Dragão” (1973), filme que inspirou os quadrinhos originais, o que incluía cópias desenhadas de cenas de luta, Bruce Lee lutava ao lado dos atores não asiáticos John Saxon e Jim Kelly.

A nova história de artes marciais está repleta de rostos asiáticos, entre os quais veteranos astros de Hong Kong como Leung e Michelle Yeoh, e de atores americanos de origem asiática como Awkwafina, Fala Chen e o comediante Ronny Chieng.

“Cresci no Havaí, e todos os meus amigos são misturas de asiático e americano ou ilhéu do Pacífico”, disse Cretton, que é americano de origens japonesas. “Eu queria que Shang-Chi estivesse cercado por um grupo de pessoas que lembrassem meus amigos, e se comportassem como eles”.

Por muito tempo, disse Liu, “os filmes de artes marciais tiveram por centro uma história do tipo peixe fora da água, em muitos casos passada na América branca e com foco em personagens brancos. Creio que era mais do que hora de realmente retomar o controle dessa narrativa e de contar uma história em nossos termos, sem uma lente de foco branco”.

Para isso, a equipe de criação repaginou Shang-Chi. O figurino antiquado se foi —“não queríamos fazer um filme sobre um cara que usa um gi [quimono] e uma faixa nos cabelos, e ataca pessoas no Central Park com golpes de caratê”, disse Callaham—, assim como o inglês canhestro.

Em lugar de um herói atormentado pela culpa que sente por matar pessoas com as mãos nuas e por ter um demônio como pai, a versão atualizada seria um sujeito acessível —e até engraçado.

A Marvel vem criando heróis engraçados há anos, mesmo aqueles como o Homem de Ferro e Thor, que não eram muito engraçados nos quadrinhos originais. Mas Shang-Chi, um dos poucos personagens asiáticos no universo Marvel —cinematográfico ou de revistas—, foi sempre notável pela falta de humor, mesmo sob os padrões dos super-heróis, e esse era mais um estereótipo que a equipe de criação estava determinada a superar.

“Sempre houve essa suposição nos Estados Unidos de que os asiáticos e os americanos de origem asiática não eram engraçados e nunca seriam”, disse Gene Luen Yang, que escreveu a mais recente série de quadrinhos de Shang-Chi. “Acho que foi por isso que escalaram Eddie Murphy para interpretar Mushu no ‘Mulan’ original”.

A equipe de criação estava tão consciente de todos os preconceitos que precisavam ser derrubados que chegou a fazer uma lista de estereótipos de Hollywood sobre os asiáticos, com a intenção de derrubá-los um por um.

Em seu filme, o humor viria dos personagens asiáticos, e não à custa deles. “Estávamos muito interessados em fazer de Shang-Chi um par romântico viável, como homem asiático”, disse Callaham, “e simultaneamente também reconhecíamos o estereótipo oposto sobre as mulheres asiáticas, vistas como excessivamente sensuais ou alvo de fetiches”.

Para se preparar, a equipe de criação assistiu a muitos filmes de artes marciais, como “The 36th Chamber of Shaolin”, de 1978, considerado como um dos maiores filmes de kung fu de todos os tempos, e também a filmes de ação da década de 1980, por exemplo “Os Aventureiros do Bairro Proibido”.

“Também sou muito fã de ‘Kung Fusão’”, disse Callaham, falando de um filme que, como “Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis”, inclui braceletes voadores, sequências de ação inspiradas na ficção chinesa “wuxia” de artes marciais, e, sim, muita comédia.

O filme também oferece criaturas místicas; uma sátira sutil ao passado racista de Fu Manchu e de outro personagem da Marvel com retrospecto semelhante, Mandarin; e muitas heroínas de artes marciais. Mas, para Callaham, um dos momentos mais memoráveis na criação do filme nada teve a ver com monstros ou cenas de artes marciais.

“Eu estava escrevendo uma sequência na qual Shang-Chi vai a São Francisco e sai com amigos, vivendo de um jeito parecido com o que eu vivia no passado”, ele disse.

“E de repente me vi tomado de emoção”, ele prosseguiu. “Costumo ser contratado para criar papéis para astros de cinema, com o objetivo de atrair astros para nossos filmes, e tipicamente eles não são asiáticos. Normalmente o que temos é um belo cara branco chamado Chris ou algo assim. E desejo tudo de melhor para esses caras, mas sempre quis me colocar na posição de poder imaginar como seria ter outra pessoa ali. Foi a primeira vez em minha vida em que pude me sentar para escrever sem ter de me limitar a imaginar essa situação só de passagem”.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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