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Tessa Thompson afirma que 3ª parte de 'Westworld' explora conceito de liberdade

Rachel Wood diz que compreende raiva de Dolores: 'Sob o rancor, há muita dor'

Tessa Thompson e Evan Rachel Wood no lançamento da 3ª temporada de

Tessa Thompson e Evan Rachel Wood no lançamento da 3ª temporada de "Westworld" em Los Angeles Mario Anzuoni/Reuters

São Paulo

A terceira temporada de "Westworld", que estreou há duas semanas na HBO, tem abordado cada vez mais a natureza da humanidade fora do parque, em uma Los Angeles futurista. Só o que não muda é o forte desejo de vingança da anfitriã Dolores (Evan Rachel Wood).

"Torcemos por muitos homens raivosos, determinados, dispostos a destruir qualquer coisa em seu caminho para chegar lá –há quem torça pelo Homem de Preto, até", diz Rachel Woods, sobre sua personagem.

"A reação das pessoas a Dolores na segunda temporada foi realmente interessante, quando ela está literalmente lutando por sua liberdade, depois de sofrer abusos por 30 anos, mas as pessoas ainda querem dizer que ela exagerou, o que é algo que fazemos com os sobreviventes, às vezes", afirma Wood.

"São realidades difíceis de encarar", completa a atriz, ao mencionar que na vida real também tem problemas quanto à raiva. "Sob o rancor, há muita dor. É de lá que a raiva vem."

Wood afirma que um dos fatores que mais a empolga na terceira temporada é a descoberta dos corpos dos anfitriões, porque reforça a ideia de que a força não depende de ser grande ou pequeno, homem ou mulher. Também, a relação dela com a personagem Charlotte Hale: "É estranha e perturbadora, mas bacana. E presumivelmente elas são a única pessoa que a outra tem".

Já Tessa Thompson, que interpreta Charlotte na série, diz que uma das questões centrais da nova temporada é a ideia de liberdade e a determinação dos anfitriões de sair do parque. "A ideia de que os humanos têm o direito de fazer suas escolhas, caminham pelo mundo dotados de poder de agência, e quando os anfitriões chegam ao mundo descobrem que os seres humanos também caminham em círculos, por causa dos algoritmos e das maneiras pelas quais eles podem determinar nossas vidas, se permitirmos. Talvez livre não seja assim tão livre, afinal", diz ela. "É empolgante para mim, porque creio que eles estão fazendo perguntas muito centrais."

Ante a situação em que estavam no final da temporada dois, onde vocês se veem agora?
Evan Rachel Wood - Uma das reviravoltas na temporada dois, em minha opinião, foi descobrir que Dolores já tinha deixado o parque. Ela estava fora de lá já há diversos meses, presumivelmente. No final da temporada dois, a deixamos com a casca de Hale, mas contendo a pérola misteriosa [de outro anfitrião], e Bernard foi reconstruído; Dolores está de volta ao seu corpo e agora está dando mais um passo no mundo real. Mas acho que as pessoas esquecem que antes daquela cena ela estava fora do parque, e que não sabemos o que ela estava fazendo, ou armando. Acho que é desse ponto que apanhamos a situação, no começo da temporada três; vemos o que ela esteve fazendo.
Tessa Thompson - E Charlotte está bem devastada, é uma coisa complicada de explicar. É difícil saber como articular a situação, e não estragar as surpresas ao mesmo tempo, mas ela certamente tem uma missão e, acredito, está tentando lidar com a vida da pessoa que ela está imitando. Ao longo da temporada, seu sucesso quanto a isso varia muito, em seu esforço por se manter fiel à sua missão.

Charlotte agora é misteriosa. É difícil interpretar duas personalidades diferentes ao mesmo tempo?
Tessa - Sim, é complicado. Na atuação, há uma ideia tradicional de que você não pode interpretar duas coisas ao mesmo tempo, da qual sempre discordei, porque acho possível. Sentimos muitas coisas, como humanos. Talvez seja porque sou de libra! Mas podemos interpretar múltiplas emoções ao mesmo tempo e muitas coisas podem acontecer a nós a um só tempo.
Creio que isso se aplique a atuar em termos de ter um objetivo e interpretar um papel; quanto mais clareza você tiver, quanto maior a especificidade quanto a alguma coisa, melhor você pode se comunicar com a audiência. Com essa personagem, em termos de execução, não há uma só coisa que eu esteja tentando comunicar ou fazer com que a audiência entenda. E uma das questões centrais que perguntamos, eu acho, é: embora a gente tenha um programa essencial, o cerne daquilo que somos, em que medida somos afetados pelas circunstâncias? Eu diria que bastante.

Com avanço da série, fica mais aparente que os corpos dos anfitriões não têm gênero.
Evan - Sim, e isso avança cada vez mais. Sim, essa temporada me empolga por esse motivo. Também a ideia de que força não depende de ser grande ou pequeno, de ser homem ou mulher. Creio que todos os anfitriões demonstram imensa força física –eles todos estão em vantagem, não importa que aparência tenham ou como ajam. Isso já é bacana em si. E também há o fato de que os anfitriões na verdade não têm gênero. Podem ter um gênero programado, mas em última análise são máquinas, e por isso transcendem essa questão, de alguma forma. E a sexualidade, e tudo mais.
Tessa - Realmente adoro isso, especialmente nesta temporada, porque, no caso de Charlotte, o conforto dela em sua própria pele varia, e acredito que vivemos uma era em que começamos a compreender que essa é a experiência de algumas pessoas, e que gênero, como conceito, é algo que não é fácil para todos. Creio que vivemos uma era em que precisamos realmente entender esse fato, e é uma ideia difícil de compreender, para alguns. Pensei muito sobre isso nesta temporada, e realmente amo esse lado da série.

E características, traços e comportamentos não têm um gênero essencial.
Evan - Papéis de gênero e gênero são coisas muito diferentes, acredito; alguns podem ser atribuídos à socialização e alguns são coisas genuínas que homens e mulheres têm de diferente, coisas biológicas, mas em geral acredito que sermos socializados para pensar em termos de mulheres ou de homens é algo que está mudando rapidamente, a cada dia.

O guarda-roupa desempenha um papel importante para a personagem?
Evan - Esta é a temporada dos vestidos de coquetel. O vestidinho preto. La femme Nikita. Sinto falta daquele vestido azul de fazendeira, mas só porque foi nele que encontrei a personagem, e ele parecia ser a pele dela, quando eu o usava. Parecia ser totalmente parte de Dolores. Do cabelo eu não sinto falta. Isso é algo de que abri mão sem problemas. Foi divertido realizar mais do potencial dela, e o que amo sobre as surpresas da série é que, quando elas acontecem, você pensa: “Mas é claro!” Seu cérebro não tinha ido lá originalmente. E uma dessas coisas é que “Dolores evidentemente sempre foi a mestra do disfarce –ela pode ser quem quiser”. E esse é um pensamento apavorante, tendo em vista os objetivos e o poder que ela tem. Essa foi uma coisa que realmente pudemos explorar nesta temporada, ver o que ela faz com esse poder, e também que, Deus o ajude se ela se lembrar de você como alguém que foi ao parque, porque a memória dela é perfeita.

Tanto Dolores quanto Charlotte são pessoas raivosas e não se desculpam por isso. Não é normal ter personagens femininos como elas nas telas. Como foi a experiência de interpretá-las?
Evan - Sim, isso é verdade sobre o que vimos na tela. Torcemos por muitos homens raivosos, determinados, dispostos a destruir qualquer coisa em seu caminho para chegar lá –há quem torça pelo Homem de Preto, até. A reação das pessoas a Dolores na segunda temporada foi realmente interessante, quando ela está literalmente lutando por sua liberdade, depois de sofrer abusos por 30 anos, mas as pessoas ainda querem dizer que ela exagerou, o que é algo que fazemos com os sobreviventes, às vezes. São realidades difíceis de encarar; é difícil quando você não encontra uma forma de se relacionar com um sentimento, e aí você presume muitas coisas.
Ser uma pessoa rancorosa e ter direito de ser rancorosa, ser autorizada a tomar conta disso e permitir que isso o conduza a algo de maior do que você –não é algo que seja visto com frequência na tela. Tenho problemas reais quanto à raiva, pessoalmente, e por isso a emoção mais difícil de conjurar, na série, é a raiva. Porque trabalho tanto para controlar a raiva na vida real. Por isso acho que esse é o veículo que uso para deixar que o sentimento transborde. Mas acho que por sob o rancor, há muita dor. É de lá que a raiva vem.

A série parece “Westworld 2.0”, de certa forma. Em que momento Jonathan Nolan e Lisa Joy decidiram lhes contar que haveria pessoas novas na série, e que o cenário da temporada três seria diferente? Vocês já sabiam no final da temporada dois que era a isso que retornariam?
Tessa - Acho que sabíamos, em alguma medida, porque saímos do parque, e por isso acho que também sabíamos, de alguma forma, que compreenderíamos o contexto mais amplo em que o "Westworld" existia, na forma do mundo real. Não dá para afirmar que sabíamos exatamente que cara teria esse mundo, mas tínhamos alguma ideia em linhas gerais.
Obviamente, da minha parte, esta é a temporada na qual sei mais do que nas anteriores. Eu nunca sabia de coisa alguma, até agora. Às vezes só sabia que cena faria na noite anterior à rodagem. Eu com certeza era um dos membros do elenco que recebia roteiros com trechos rasurados. Acho que eles agem de modo muito estratégico ao escolher em que hora uma pessoa receberá determinada informação, o que considero como útil, de certa forma, porque às vezes, especialmente se você precisa guardar um segredo, há perigos no desempenho –você pode terminar telegrafando coisas. Assim, às vezes é útil que o ator e o personagem descubram coisas no momento em que a audiência as descobre. É uma forma de magia e alquimia, em minha opinião, quando isso acontece. Mas, nesta temporada, vem sendo agradável sentir que agora sei um pouco mais. É empolgante para mim, porque creio que eles estão fazendo perguntas muito centrais, e sentir que você realmente compreende o mundo no qual aquilo existe é algo que aprecio ainda mais, nesta temporada.

Quais são as questões centrais desta temporada, você diria?
Tessa - Bem, acredito que uma delas é a ideia de liberdade, a determinação dos anfitriões de sair do parque. A ideia de que os humanos têm o direito de fazer suas escolhas, caminham pelo mundo dotados de poder de agência, e quando os anfitriões chegam ao mundo descobrem que os seres humanos também caminham em círculos, por conta dos algoritmos e das maneiras pelas quais eles podem determinar nossas vidas, se permitirmos. Talvez livre não seja assim tão livre, afinal. Acho que essa é uma das questões.
Outra questão, em minha opinião, é a ideia de que temos nossa natureza mas as circunstâncias a levam a mudar, e creio que haja essa ideia de que não devemos investir em determinadas pessoas, que presumimos que elas estão destinadas a fracassar, que seu destino na vida está decidido, por conta de questões peculiares a elas, e por isso não devemos investir em políticas que as apoiem e empoderem –o que representa ao mesmo tempo uma profecia e uma forma de fazer com que ela se realize. Creio que isso é algo que acontece muito nesta nação (EUA).

Essas barreiras ao progresso são criadas por nós?
Evan - Nós as criamos, sim. Com certeza criamos.
Tessa: Não é preciso acreditar em teorias de conspiração para saber que existe rastreamento na educação, ou para saber que coisas como policiamento preditivo estão em uso. O que perguntamos é: quem está influenciando esse ambiente? Que se torna o destino das pessoas. Até que ponto as coisas acontecem por escolha?

E Dolores basicamente manda em tudo, nesta temporada?
Evan - Ela está fazendo o máximo que pode, sim. Não creio que ela saiba o que vai fazer, por enquanto. Está recolhendo todas as informações e creio que uma das coisas que ela considera tão intrigantes em Caleb ]Nichols, interpretado por Aaron Paul] é que ele parece ser uma das poucas pessoas que ainda têm escolha. E ela quer saber do que se trata, e como isso é possível, o que isso s ignifica, qual é o significado disso para a humanidade.

Dolores é a coisa realista que Caleb encontrou?
Evan - Ironicamente, sim. Ela talvez seja um ser artificial, o que quer que isso signifique, mas está lhe contando a verdade, talvez pela primeira vez na vida dele.
Tessa - Também amo Caleb. Amo que ele represente a ideia de que as escolhas dependem das opções que nos são oferecidas. Ele está preso em um círculo, mas continua tentando. Se tivesse outras opções, faria outras escolhas. Creio que isso seja algo realmente importante de compreender quando pensamos sobre as pessoas; é fácil observar as pessoas que fizeram escolhas questionáveis, que talvez tenham levado uma vida de crime, mas é preciso considerar suas circunstâncias e dizer: “Que opções elas tinham? Que escolha podiam fazer de verdade?”
Evan - E, se você estivesse na mesma posição, daria a mesma escolha? A resposta é sim.

Como vocês descreveriam a relação entre Dolores e Charlotte nesta temporada?
Evan - É estranha e perturbadora, mas bacana. E presumivelmente elas são a única pessoa que a outra tem. Dolores continua escondida no mundo real, e ela presumivelmente já não tem Teddy [Flood, interpretado por James Marsden], ou não tem um guardião ou um amparo, e por isso ela conta com essa versão de Hale, e creio que isso realmente as conecte de uma maneira estranha. Elas compartilham de uma intimidade que não podem revelar a mais ninguém.
Dolores é estratégica quanto ao que é, e como age, a depender das situações em que está, e quando eu estava rodando cenas com Tessa [Thompson], creio que eu sempre levei para o trabalho a sensação de que aquele era o lugar em que ela não precisava ficar de guarda, não precisava mostrar uma fachada. Ela é mais vulnerável nessas cenas do que em geral, eu acho. Isso nos faz olhar uma vez mais para Dolores, para o que ela está fazendo, suas escolhas, e determinar se são boas ou más. Ela quer liberdade mas ainda tem alguém sob seu controle, fazendo o que ela manda. Existe uma hierarquia. Não fica sempre claro que isso seja bom.

Tradução de Paulo Migliacci.

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