Cinema e Séries

'Cine Holliúdy' vira série na Globo com história original, mas ainda exaltando cinema e CE

Heloísa Perissé e Letícia Colin são novidades no elenco da produção

Marylin ( Letícia Colin, Francis (Edmilson Filho). Francis está sem dinheiro, mas não cobra ingresso para as pessoas que estão entrando.
Marylin ( Letícia Colin) e Francis (Edmilson Filho) na série "Cine Holliúdy" - Divulgação/ Globo
São Paulo

"Cine Holliúdy" chegou aos cinemas em 2012 mostrando a luta do cearense Francisgleydisson (Edmilson Filho) contra a TV e o videocassete que começavam a competir com seu amado cinema. Passados sete anos, agora é a vez de o longa fazer o caminho contrário e deixar as telonas para alçar voos na televisão. 

Quem pensou em mais um caso de filme picotado no horário nobre na Globo, no entanto, se enganou. “Cine Holliúdy” terá uma história nova, mostrando o mesmo Francisgleydisson numa versão anterior a dos dois filmes da franquia, embora ainda dedicado à sétima arte, que é ameaçada pela chegada da televisão. 

A história da série, de Márcio Wilson e Claudio Paiva, é independente da mostrada nos dois longas homônimos e tem direção artística de Patrícia Pedrosa  e direção de Halder Gomes e Renata Porto D'Ave. 

Antes de levar seu cinema nômade ao interior do Ceará, Francis vivia na fictícia Pitombas, onde tocava um cinema fixo, nos anos 1970. O problema surge com a chegada da nova mulher do prefeito, a paulista Socorro (Heloísa Perissé), e sua filha, Marylin (Letícia Colin), que o convencem a comprar uma televisão, a primeira da cidade. 

“É uma história original. Original do original, de tão original que ficou”, brinca o diretor Halder Gomes, 52, que também é roteirista dos dois filmes. “Francisgleydisson ainda não é casado ou tem filhos, nem é um nômade do cinema. É como se depois da história da série, ele começasse a buscar cidades que não têm televisão ainda." 

Muito da série vem da história de Gomes, que cresceu no interior do Ceará e viu seu pai, prefeito da cidade, colocar a primeira televisão na praça, esvaziando o cinema local. “Eu não entendia porque as pessoas levavam a cadeira até a praça para ver a televisão, se a tela do cinema era muito maior. Meu pai só falava ‘é a modernidade’”, recorda ele. 

“Tudo no Francis lembra um pouco da minha história. O cara apaixonado, que trata o cinema como uma religião, com muita devoção, muito amor. A primeira cena do primeiro filme, por exemplo, é um diálogo que foi todo inspirado no momento que eu estava na vida, um diálogo que eu tinha em casa: ‘seguir ou não seguir, eis a questão’.” 

Apesar da proximidade entre as histórias de Francis e Gomes, o roteiro da série chegou ao cearense já pronto, mas ele é taxativo ao dizer que ele mesmo não conseguiria fazer melhor. Na avaliação do diretor, era importante manter o frescor da história, a ingenuidade dos personagens e a fidelidade ao cearensês: características que continuam. 

A novidade fica por conta de alguns personagens. Além de Socorro e Marylin, a série tem também a chegada do casal Belinha (Solange Teixeira) e Lindoso (Carri Costa), donos da mercearia local e, no caso de Lindoso, rival político do prefeito Olegário (Matheus Nachtergaele). 

Com novos atores e num lugar novo de gravação, já que as locações migraram do Ceará para a cidade de Areias, no interior paulista, a equipe teve um mês de preparação, o que ajudou no entrosamento dos atores e no resultado final, segundo Perissé. “Foi o melhor casamento do mundo. O cinema e a televisão gerando esse filho maravilhoso." 

"Foi um trabalho bem pesado, são três meses em locação com uma câmera só, feitura de cinema e ritmo de televisão. Mas mesmo assim, a gente nunca chegava no hotel cansado e mal-humorado”, completa Nachtergaele, que faz um prefeito vilão, mas palhação, segundo ele. “Vocês vão rir das maldades deles”, afirma. 

Além disso, a série terá episódios temáticos como mais uma forma de homenagear o cinema. O segundo capítulo, por exemplo, será de terror, com a mulher do prefeito sendo possuída por Rebeca (Ingrid Guimarães). Também serão lembradas as produções de ficção científica, de ação, de faroeste e até os filmes de luta. 

Além de Ingrid Guiamarães, outros convidados de peso aparecerão no decorrer dos dez episódios da série. Entre eles estão Ney Latorraca, Chico Diaz, Miguel Falabella, Falcão, Rafael Infante, Batoré, Denis Lacerda e Bruno Garcia. 

DESCANSO DAS DIVISÕES

O ator Matheus Nachtergaele, 51, que entra para o elenco de “Cine Holliúdy” na pele do prefeito Olegário, diz que a nova produção representa um alívio na sociedade de hoje: “Acho que a divisão política, religiosa e moral a que chegamos precisa de um descanso. Será o rapaz de esquerda sentado com ao lado da vovó de direita na sala". 

"Precisamos voltar a rir com nossos cacoetes, virtudes, improviso e mania de adaptação”, afirma o ator, que apesar de fazer um vilão, promete leveza e muita risada com Olegário. “Ele tão muito palhaço, divertido, brincante, que é aliviante”, resume o ator, que, apesar de ser paulista, diz ser quase nordestino após tantos personagens da região. 

Para Nachtergaele, a cultura do Nordeste ocupa hoje um espaço imenso, principalmente, depois da série “O Auto Da Compadecida” (Globo, 1999). “A presença do Nordeste não é só aquilo que a gente imagina como mais folclórico, mas é mais profundo. Tenho muita alegria de ser um ator muito usado pelo cinema Nordestino, principalmente, pernambucano."

Gomes também aponta a região "quase como uma nação que pensa arte". Ele cita a pintura, a música, a literatura, o cinema e conclui: "Não tem como não transbordar”. "São histórias muito saborosas, é o caso de 'Cine Holliúdy', um sucesso que começou no Ceará, se expandiu, transbordou e está agora no horário nobre da Globo", brinca. 

Já Perissé vê de forma diferente o espaço dado à cultura nordestina hoje no cinema e na TV: “Eu acho que esse espaço ainda é pequeno, mas vem crescendo. O Nordeste é atraente, e as pessoas já sabem que é um lugar para visitar e ser feliz. O Recife já é um polo de cinema, com grandes cineastas e a tendência é essa, Ceará, Bahia...”. 

DE DUBLÊ A CINEASTA 

Diretor dos filmes e agora da série "Cine Holliúdy", Halder Gomes consegue dizer o momento exato em que se apaixonou pela sétima arte. Foi ainda criança, no pequeno cinema da cidade de Senador Pompeu, onde cresceu, no interior do Ceará, vendo a um filme de Bruce Lee. 

“Aquela figura de Bruce Lee. Aquela figura, aquela imagem, aquele vigor me fascinou”, lembra Gomes, que se apaixonou também pelas artes marciais, mais precisamente pelo taekwondo, a qual se dedicou por mais de 20 anos, chegando a abrir uma academia de luta em Fortaleza. 

Foi durante viagens ao exterior, para participar de competições de luta, que Gomes percebeu, nos anos 1990, que havia um mercado em que luta e cinema se misturavam. Foi assim que se tornou dublê de filmes de ação em Los Angeles, nos Estados Unidos. “Era aquele cara que entra em ação para morrer, levar soco e tal."

"Chegou um momento em que o cinema começou a conflitar com o gerenciamento da minha academia. Assim, decidi matar minha galinha dos ovos de ouro, que era minha academia, e fui tentar carreira como diretor de cinema. Aí fiz o curta metragem ‘Cine Holiúdy: O Artista Contra o Caba do Mal’, que originou Cine Holliúdy”, conta. 

Hoje, Gomes afirma não ter sonhos, pois está vivendo todos que já teve. Espera apenas continuar “contando histórias que eu acredito, que eu acho que posso contar bem, que tenho conhecimento de causa”. Os projetos atuais são o drama “Vermelho Monet”, sobre um pintor clássico no fim da vida, e a sequência de “Shaulin do Sertão”. 

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