Cinema e Séries

Há 25 anos, discurso de Tom Hanks pelo Oscar por 'Filadéfila' foi marco na luta contra a aids

Palavras do ator originaram um novo filme

O ator Tom Hanks em cena do filme "Filadélfia"
O ator Tom Hanks em cena do filme "Filadélfia" - Divulgação
BRUCE FRETTS

Você não encontrará muita gente em Hollywood que se declare feliz por Daniel Day-Lewis ter recusado o convite para um de seus projetos, mas isso aconteceu no caso de "Filadélfia", drama sobre a aids que 25 anos atrás levou a um dos mais memoráveis discursos de agradecimento por um Oscar na história da academia.

"Nossa ideia era fazer um drama muito sério, e Daniel traz o peso necessário a um projeto como esse", recordou Ron Nyswaner, o roteirista do filme, em entrevista recente. Mas o respeitado ator britânico por fim recusou o papel de Andrew Beckett, um advogado gay que sofre da doença e processa seu escritório por demiti-lo, no drama dirigido por Jonathan Demme.

"Então Tom Hanks se ofereceu para o papel", prosseguiu Nyswaner, "e o gênio de Jonathan permitiu que ele percebesse que Tom daria um toque mais leve ao filme, como que convidando o público a acompanhá-lo em sua jornada".

E foi o que aconteceu. O filme faturou mais de US$ 200 milhões nas bilheterias mundiais, e Hanks, que levou o Oscar como melhor ator em 1994 (o primeiro de seus dois prêmios), chorou ao agradecer sua mulher, Rita Wilson, e seus companheiros na equipe de "Filadélfia". E em seguida destacou a importância de duas pessoas que não trabalharam no filme.

"Eu não estaria aqui se não fosse por dois homens muito importantes em minha vida", ele disse. "Rawley Farnsworth, que foi meu professor de teatro no segundo grau e me ensinou que 'faça bem o seu papel, é lá que reside a glória'; e um de meus colegas no curso de Farnsworth, John Gilkerson. Menciono os nomes deles porque são dois dos mais admiráveis gays americanos, dois homens maravilhosos com quem tive a felicidade de trabalhar quando ainda muito jovem, e duas grandes inspirações". Ele prosseguiu elogiando vítimas da Aids como Gilkerson, ator e titereiro de San Francisco que morreu em 1989. "As ruas do céu estão lotadas de anjos".

Nyswaner era parte da audiência, como indicado ao prêmio de melhor roteiro (foi derrotado por Jane Campion, por "O Piano"), e recorda: "O discurso dele foi tão bonito, articulado e comovente que as pessoas ficaram boquiabertas. Ele nos elevou com o poder de suas palavras".

Steven Spielberg, que levou prêmios como melhor diretor e pelo melhor filme com "A Lista de Schindler", naquela noite, recorda que "o discurso foi incrível e em certo sentido comunicou mais sobre o que "Filadélfia" estava dizendo - e atingiu mais pessoas - do que o filme jamais fará".

O discurso teve efeito diferente sobre Farnsworth. "Exposto no Oscar!", gritava a manchete do jornal sensacionalista The New York Post. A história real não era tão simples: Hanks havia contatado Farnsworth, com quem não falava desde pouco depois de sua formatura em 1974 na Skyline High School, em Oakland, Califórnia, e pedido permissão para revelar a sexualidade do professor.

Farnsworth concedeu a permissão. "Não me incomoda sair do armário agora", disse o professor aposentado [ele tinha 69 anos em 1994] à revista People. "Não achei que tivesse algo a perder", embora ele acrescentasse que "se eu ainda tivesse uma vida profissional, não sei como teria reagido".

A experiência mudou a vida de Farnsworth. "Foi uma grande realização para mim", ele disse na época. Ele se tornou ativista dos direitos gays, trabalhando com uma organização de defesa dos professores gays, lésbicas e transgênero, e foi o líder de uma parada em Atlanta para crianças portadoras de HIV.

A história de Farnsworth teve outra consequência imprevista: deu ao roteirista Paul Rudnick a ideia para "Será que Ele É?", uma comédia de 1997 sobre um professor de segundo grau (Kevin Kline) cuja homossexualidade é revelada em um discurso de cerimônia de premiação por um ex-aluno (Matt Dillon).
Nyswaner disse que o produtor do filme, Scott Rudin, "me contou que faria um filme inspirado pelo meu; eu achei ótimo, e ele disse que na verdade a inspiração havia sido o discurso de Tom no Oscar. Fiquei meio murcho ao ouvir isso".

Mas como apontou Dave Karger, apresentador do programa "Turner Classic Movies", em uma entrevista, "é seguro dizer que esse foi o único discurso do Oscar a inspirar um novo filme". 

Passados 25 anos, a escalação de um ator heterossexual como Hanks para um papel gay tão importante poderia atrair acusações de discriminação. Foi uma das críticas feitas a "Bohemian Rhapsody", cinebiografia de Freddie Mercury estrelada por Rami Malek, um ator heterossexual e favorito ao Oscar de melhor ator este ano.

Nyswaner, que é gay, reconheceu que os tempos mudaram. "Hoje essa questão seria seriamente considerada - somos muito conscientes dela", ele disse. Mas também declarou que "filmes potencialmente controversos precisam de astros, se a ideia é produzi-los. E isso é um fato".
De qualquer jeito, o desempenho de Hanks no filme - e no Oscar - teve impacto duradouro. "É o tipo de coisa que ajudou a normalizar as pessoas gays e as pessoas com Aids aos olhos da audiência", disse Arnold Wayne Jones, autor de "The Envelope, Please: The Ultimate Academy Awards Trivia Book", um livro de curiosidades sobre o Oscar. "Essas coisas fazem diferença", ele acrescentou.

E continuam a fazer. "Nos últimos 25 anos, muita gente me abordou para agradecer pelo filme e dizer que ele tinha mudado suas vidas", disse Nyswaner, que nos últimos anos vem trabalhando em séries dramáticas para a TV a cabo. "No ano passado, no estúdio em que filmamos 'Homeland', um assistente de produção nascido no Egito me abordou e me disse que assistir ao meu filme aos 14 anos o havia feito compreender quem ele realmente era. Por isso, sei que 'Filadélfia' teve efeito positivo sobre as vidas das pessoas".

The New York Times

Tradução de PAULO MIGLIACCI

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