Tony Goes

Na tentativa de parecer relevante, concurso de Miss Universo só consegue ser ridículo

Você está de salto alto, coberta de maquiagem, com o cabelo armado, no centro do palco e diante de milhares de pessoas. Outros milhões de telespectadores observam você à distância, dissecando cada detalhe do seu rosto e do seu corpo.

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E aí vem o momento que pode decidir se você é a mulher mais bonita da galáxia. O apresentador lhe pergunta à queima-roupa: como você resolveria a crise dos refugiados?

Esta foi a pergunta que coube à Miss França. Miss Quênia precisou responder o que a entusiasma e o que a preocupa no governo Trump. Miss Colômbia teve que explicar por que a violência é tão predominante nas sociedades modernas.

São questões que provocariam debates acalorados entre especialistas em política, sociologia e economia, talvez sem chegar a uma resposta definitiva. Mas as finalistas ao Miss Universo tiveram apenas alguns segundos para construir um argumento convincente.

Os concursos de beleza vivem sob fogo cerrado desde o final da década de 1960, quando começaram a ser atacados pelas feministas. Desde então, fazem um esforço enorme para fingir que não são apenas concursos de beleza.

A competição do Miss Estados Unidos, por exemplo, obriga suas candidatas a exibir algum tipo de talento performático. As misses precisam cantar, dançar, fazer malabarismos ou manipular um boneco de ventríloquo. Se a moça tiver um diploma em física nuclear mas não souber fazer nada no palco, será desclassificada.

Andrea Tovar, Iris Mittenaere, Raquel Pelissier
Da esquerda para a direita, Miss Colômbia Andrea Tovar, Miss France Iris Mittenaere e Miss Haiti Raquel Pelissier aguardam o resultado do concurso - Bullit Marquez /AP

Todos os certames também enfatizam o trabalho beneficente, mesmo que só diante das câmeras. Na edição de 2016 do Miss Universo —transmitida diretamente de Manila, nas Filipinas, e exibida neste domingo (29) pela Band e pelo TNT— não faltaram clipes das misses brincando com crianças portadoras de deficiências. Não basta se boazuda: tem que ser boazinha.

Quem ganha, no final? A mais sábia, a mais consciente, a mais engajada? Claro que não: ganha a mais linda na opinião dos jurados, e só na deles (a ganhadora do voto popular, Miss Tailândia, não ficou entre as três finalistas). 

É óbvio que uma miss que se declare a favor da guerra química não merece ser coroada. Mas, na minha humilde opinião, elas não precisariam ser obrigadas a declarar nada. São lindas, estão lá por causa disso, e ninguém espera que uma feia receba a faixa e a coroa.

Apesar de renderem alguns momentos engraçados (quem não se lembra do fracasso épico da Miss Carolina do Sul, que concorria ao título de Miss Estados Unidos adolescente em 2007?), essas perguntas sobre atualidades e questões mundiais servem basicamente para constranger as misses e alongar o show.

Que os concursos de beleza se assumam pelo que de fato são: concursos de beleza.



Tony Goes

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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