Tony Goes

A era das telenovelas está chegando ao fim?

Marta Kauffman, uma das criadoras de "Friends", esteve no Brasil em 2013 e soltou uma bomba durante uma entrevista: "Vou dizer umas coisas que deixarão vocês tristes. A telenovela não vai ser o primeiro gênero de entretenimento, não vai funcionar mais (...) As pessoas não veem mais TV como antes. Quando a novela acaba, ninguém vê no DVD nem assiste no YouTube."

Na época, muita gente se irritou com essa declaração. Lá vem mais uma gringa, oriunda de um país onde as séries dominam a TV há décadas, se metendo na cultura de um país que ela mal conhece!

No entanto, três anos depois, a profecia de Marta Kauffman parece estar se cumprindo, e não só no Brasil.

Vejamos o caso do México, outro grande epicentro das telenovelas. A gigantesca Televisa, a maior rede de lá, reduziu sua produção para apenas quatro novos títulos por ano. E sua concorrente mais próxima, a TV Azteca, simplesmente abandonou o gênero. Agora vai se concentrar nos realities e nas séries.

Mas, e por aqui? As novelas continuam firmes e fortes, não? Hmm, sim, mas alguns sinais interessantes já estão no ar.

Um dos mais fortes é a crise permanente do horário das 21h da Globo, o mais rentável da TV brasileira.

O último grande sucesso da faixa foi "Amor à Vida", que terminou em janeiro de 2014. De lá para cá, a emissora colecionou êxitos meia-bomba, como "Velho Chico", ou até mesmo o redondo fracasso de "Babilônia". Um fenômeno como "Avenida Brasil" (2012) parece ter sido no século passado.

Enquanto isso, as minisséries nacionais continuam em ascensão. Antes relegadas ao mês de janeiro, agora elas frequentam a grade da Globo durante o ano todo.


"Justiça" nem havia acabado quando começou "Supermax"; nesta terça (27) estreia "Nada Será Como Antes", e, pela primeira vez na história, o canal exibirá dois capítulos de minisséries diferentes em sequência.

Sem falar nos seriados em temporadas, um formato que finalmente se firmou no Brasil. E não só na Globo: devido à excelente audiência de "A Garota da Moto", o SBT já anunciou que encomendará uma nova leva de episódios.

O que mudou? O espectador, é claro. Já existe toda uma nova geração que jamais criou o hábito de assistir à TV linear (um termo que sequer existia há pouco tempo – trata-se simplesmente da TV convencional, com horários fixos, seja ela aberta ou paga). Essa garotada se acostumou a ver o que quiser pelo computador, na hora em que quiser.

Some-se a isto o avanço do VOD, o "video  on  demand", cujo ponta-de-lança mais reluzente é a Netflix.

Um crescimento tão avassalador que significa não apenas mais um player a disputar o mercado, mas uma mudança de paradigma. Agora se consome televisão de uma maneira diferente.

É por isto que a Globo investe em sua própria plataforma digital, a GloboPlay. Também é por isto que está produzindo tantas séries: a emissora sabe que seu produto principal, a telenovela, se comporta mal no streaming.

Afinal, ninguém faz binge watching (assistir a diversos capítulos de uma vez) com novelas, porque boa parte delas é pura encheção de linguiça.

Então quer dizer que as novelas estão em extinção? Não. Existem até novidades no gênero, como os melodramas turcos que estão comovendo meio mundo.

Mas estamos caminhando rapidamente para um contexto onde elas não serão mais dominantes. E bem mais rápido do que o esperado.

Tony Goes

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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