Tony Goes

Cena de sexo gay em 'Liberdade, Liberdade' foi menos polêmica que o esperado

Em janeiro de 2014, a Globo manteve o suspense até o último segundo. Comentava-se que o último capítulo de “Amor à Vida” mostraria um beijo entre os personagens Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso). A emissora teria até gravado três versões da cena, em diferentes graus de intensidade. Mas ninguém confirmava nada.

O beijo foi mesmo ao ar (o de número 2, mediano), e o Brasil se dividiu. Muita gente aplaudiu, muita gente criticou. Líderes religiosos aproveitaram para soar as trombetas do apocalipse, e a controvérsia se arrastou por meses.

Dois anos e meio depois, a Globo chegou a divulgar com antecedência até mesmo o texto do capítulo de “Liberdade, Liberdade” exibido nesta terça (12), que teve a primeira cena de sexo entre homens da teledramaturgia brasileira. Tudo para garantir a máxima audiência e repercussão.

A cena parecia arrebatadora no papel, mas o que se viu no vídeo foi lento e contido. André (Caio Blat) e Tolentino (Ricardo Pereira), depois de meses de tesão reprimido, se entregaram um ao outro com inaudita delicadeza. Pouco verossímil, mas percebia-se a intenção de não chocar demais o espectador.

E, de fato, não chocou. O placar das redes sociais pendeu decididamente para o aplauso. E também para a espezinhação: eram muitos os comentários tirando sarro da “família tradicional brasileira”, que àquela altura estaria supostamente aos prantos.

Nomes como Silas Malafaia, Marco Feliciano e Ana Paula Valadão se mantiveram quietos sobre o assunto. Nem uma palavra sobre a novela em suas páginas na internet.

Será que o Brasil mudou? Sim, mas não a esse ponto. Basta constatar que o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, uma realidade desde 2011, ainda não é aprovado pela maioria da população e provavelmente seria rejeitado se submetido ao Congresso.

Ou então, o boicote funcionou? Uma organização católica convocou os fiéis pelo Facebook, conclamando-os a escolher entre a religião ou “Liberdade, Liberdade”. Será que recebeu adesão maciça?

O fato é que a Globo parece ter carta branca para ousar mais na faixa das 23 horas. No ano passado, “Verdades Secretas” tratou de drogas, pedofilia, homossexualidade e crimes passionais e não gerou um décimo do bafafá provocado pelo selinho entre Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg no primeiro capítulo de “Babilônia”, exibido às 21 horas.

De qualquer forma, sexo gay só é novidade na TV brasileira. Países teoricamente mais conservadores, como Portugal, México e Argentina, já mostraram homens se amando em suas novelas há tempos. Nos Estados Unidos, a “soap opera” “One Life to Live” exibiu sua primeira cena do gênero em 2010 —e no horário da tarde.

Polêmicas à parte, avançamos mais um pouco. Mas o avanço para valer será no dia em que o sexo gay na TV passar batido.

Tony Goes

tem 54 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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