Thiago Stivaletti

Afinal, 'Dois Irmãos' é uma obra-prima ou a série mais chata dos últimos anos?

Os amigos estão divididos. "Dois Irmãos", a aguardada nova série da Globo, que o diretor Luiz Fernando Carvalho rodou há dois anos, antes mesmo da novela "Velho Chico", estreou na última semana e provocou um racha nas redes sociais.

É mais uma obra-prima de um diretor conhecido pelos seus planos sofisticados ou a série mais chata que a Globo lançou nos últimos anos?

Sim, "Dois Irmãos" é linda, cenários e figurinos deslumbrantes, aquela luz que a gente costuma chamar de cinema. É baseada em um grande livro recente, do amazonense Milton Hatoum, provavelmente o melhor escritor regionalista que temos desde Jorge Amado.

Cauã Reymond está muito bem como os gêmeos Omar e Yaqub —mais animalesco como Omar, o irmão intempestivo, Fagundes muito melhor sem a peruca do coronel Afrânio, Juliana Paes entregando uma bela mãe para Eliane Giardini. Ah, e Maria Fernanda Cândido em um registro nunca visto, com a beleza escondida atrás de uma grossa peruca e um enorme chapelão —e uma voz que não é dela.

Qual é o problema então? "Dois Irmãos" é solene demais, pomposa demais, pesada demais. Cada cena parece jogar na nossa cara: "Ajoelhe-se. Você está diante de uma obra-prima".

O maior sintoma dessa pompa excessiva é a abertura, com uma ópera estridente tocando sobre as imagens de um artista plástico (Carlos Araújo) que lembram os afrescos de Michelangelo na Capela Sistina. Outro sintoma: sem conseguir sair de sua raiz literária, a série não tem um, mas dois narradores. Fagundes contando a história de um barco no meio do rio Amazonas e olhando pra câmera, e a voz em off de Irandhir Santos, que vive o agregado Nael. Muita coisa.

A reação negativa talvez seja natural. Com "Dois Irmãos", a Globo está quebrando o próprio jejum de muitos anos sem uma adaptação literária.

Nesses anos todos, o público se acostumou a coisa mais light —de preferência com boas doses de erotismo pro horário. Como desabafou alguém no Twitter na estreia: Globo, por favor, reprisa "Verdades Secretas" agora. A gente jura que vai dar o mesmo ibope da primeira vez.

E os tempos mudam cada vez mais rápido. Se Luiz Fernando Carvalho era a nova grande promessa das novelas ao dirigir "Renascer" em 1993 ou o artista intenso por trás de "Lavoura Arcaica" (2001), um dos filmes seminais da Retomada, em 2017 esse estilo solene e bastante barroco não parece estar sintonizado com o ar dos tempos.

Enfim, mesmo sem toda a acolhida a "Dois Irmãos", espero que a Globo volte a adaptar outro livro em breve. Quem sabe algo mais leve, um Daniel Galera, ou até uma Tati Bernardi, para gente dar umas risadas.


E os youtubers?

"É Fada!", o filme da Kéfera Buchmann, fez 1,7 milhão de espectadores nos cinemas. "Eu Fico Loko", de Christian Figueiredo, estreou neste fim de semana com público de 220 mil. Em fevereiro, chega "Internet — O Filme", com mais uma leva de youtubers, entre eles Felipe Castanhari.

O cinema já entendeu que os youtubers são uma maneira de se comunicar com um público muito jovem, que já nasceu nas plataformas digitais e não quer saber das mídias tradicionais. Quando as novelas vão fazer o mesmo?

Não acho difícil imaginar uma Jout Jout ou um Victor Meyniel com um bom personagem cômico numa novela das 19h. Mas, claro, para a coisa funcionar direito, os youtubers deveriam ser os responsáveis pelos personagens e seu texto —cabendo aos autores da novela fazer a ponte com o resto da história. Não custa tentar.

Thiago Stivaletti

Thiago Stivaletti é jornalista, crítico de cinema e noveleiro alucinado. Trabalhou no "TV Folha", o extinto caderno de TV da Folha, e na página de Televisão do UOL. Viciou-se em novela aos sete anos de idade, quando sua mãe professora ia trabalhar à noite e o deixava na frente da TV assistindo a uma das melhores novelas de todos os tempos, "Roque Santeiro". Desde então, não parou mais. Mesmo quando não acompanha diariamente uma novela, sabe por osmose todo o elenco e tudo o que está se passando.

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