Thiago Stivaletti

'The Crown', ou 'Os Ricos Também Choram na Monarquia Britânica'

Como tá bem difícil seguir a Globo nos últimos tempos  —"A Lei do Amor" chatíssima, "Rock Story" mais ou menos, "Nada Será como Antes" só uma vez por semana, "Supermax" nem se fala— , o negócio é se jogar nas séries da Netflix ou da HBO.

Outro dia fiquei na dúvida entre começar a brasileira "3%" ou a britânica "The Crown", ambas na Netflix. Me chamem de colonizado, imperialista, vendido, mas deixei a nacional pra depois e embarquei nas aflições da jovem rainha Elizabeth 2ª. Entrei sem fé, porque essa fleuma britânica nunca foi "my cup of tea", como eles mesmos diriam —não consegui passar do segundo episódio de "Downton Abbey".

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Os atores Claire Foy e Jared Harris em cena da série 'The Crown', da Netflix - Alex Bailey/ AP

E não é que o negócio prende pelo pescoço e não solta mais? A equipe por trás da produção é de tirar a coroa: Peter Morgan, um dos melhores roteiristas de Hollywood, que já havia se debruçado sobre Elizabeth mais velha no filme "A Rainha" (2006), que deu o Oscar a Helen Mirren; Stephen Daldry, diretor do maravilhoso "As Horas" — esqueçamos o lamentável "Trash", que ele rodou no Brasil. Tem até brasileiro na história: Adriano Goldman, diretor de fotografia de "Xingu" e "O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias", é o responsável pela câmera e pela luz do Palácio de Buckingham.

"The Crown" me lembrou uma novela latina que já teve adaptações no Brasil e em outros países: "Os Ricos Também Choram". Com o carisma da atriz Claire Foy, compartilhamos do pesado fardo de ser rainha num dos episódios. Ela reclama ao tio, o duque de Windsor, que abdicou do trono em favor do seu irmão mais novo, pai dela, que ele nunca pediu desculpas a ela por ter lhe passado um fardo tão grande.

Discutindo com o marido, o ambicioso príncipe Phillip, ela diz algo como: "Ninguém gosta de morar em Buckingham. Mas é preciso". Ou seja: como é triste morar num palácio enorme, ter mais de cem serviçais, comer do bom e do melhor. Se fosse na monarquia brasileira e numa novela da Globo , a rainha terminaria a história comendo um bom churrasquinho na laje para mostrar ao povão que bom mesmo é ter poucos bens materiais nessa vida.

Agora, falando sério, o maior mérito da série é mostrar fatos não muito favoráveis aos nobres ingleses, mas ao mesmo tempo responder a difícil pergunta: "Para que serve a monarquia britânica?". Há uma função social, ligada a valores éticos e religiosos, que ainda leva ao povo inglês um grande orgulho por seus valores. Neste Brasil em tempos de Lava Jato, onde nossas poucas crenças no país já foram para o buraco, dá vontade de convocar Elisabeth para dar um pouco de orgulho e esperança aos brasileiros...

Ah: e "The Crown" ainda tem o americano John Lithgow, de filmes como "Laços de Ternura" (1983) e "Síndrome de Caim" (1992), também conhecido como o pai de família ET da série "Third Rock from the Sun" e de "How I Met Your Mother". Com seu Winston Churchill rabugento e cheio de manias, ele tem algumas das melhores falas da série.

Thiago Stivaletti

Thiago Stivaletti é jornalista, crítico de cinema e noveleiro alucinado. Trabalhou no "TV Folha", o extinto caderno de TV da Folha, e na página de Televisão do UOL. Viciou-se em novela aos sete anos de idade, quando sua mãe professora ia trabalhar à noite e o deixava na frente da TV assistindo a uma das melhores novelas de todos os tempos, "Roque Santeiro". Desde então, não parou mais. Mesmo quando não acompanha diariamente uma novela, sabe por osmose todo o elenco e tudo o que está se passando.

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