Thiago Stivaletti

'Pai Herói', a volta da grande Janete Clair à TV

Na última segunda, o canal Viva começou uma importante missão: reprisar as novelas de Janete Clair, talvez a novelista mais importante de todos os tempos. Alguns de seus clássicos, como "Irmãos Coragem" (1970) e "Selva de Pedra" (1972), já foram lançados em DVD. Agora, "Pai Herói" (1979) entra na programação do canal.

Entre as mil histórias de Janete, escolho uma: em 1975, a Globo produzia "Roque Santeiro", de seu marido Dias Gomes, tendo Betty Faria como a Viúva Porcina, Lima Duarte como Sinhozinho Malta e Francisco Cuoco como Roque.

Os militares leram a sinopse e decidiram de última hora censurar a trama, que era muito política e contestatória. Janete foi a solução: apresentou em poucos dias uma nova sinopse, urbana, mais simples de ser produzida, dando um grande papel para cada um dos três. Nascia "Pecado Capital", um dos maiores sucessos da Globo.

A reprise do primeiro capítulo de "Pai Herói" foi um assombro. Ao som da música "Pai", de Fábio Jr., sucesso na época, a abertura mostra um quebra-cabeça que revela a figura de um pai de mãos dadas com um filho pequeno, mas a silhueta do pai contém um vazio.

Em uma imagem, se dá o tema da trama, a busca do feirante André Cajarana (Tony Ramos), morador da pequena cidade de Paço Alegre (Minas), pelo pai que nunca conheceu.

Logo no primeiro bloco, a mocinha Carina (Elizabeth Savalla, linda) casa-se com o ambicioso César (Carlos Zara). A câmera dá um close em três ou quatro rostos durante a cerimônia, e a partir daí narra-se um pequeno flashback que dá conta da história de cada personagem.

Um recurso narrativo simples mas tão sofisticado, como a TV hoje parece proibida de fazer.

Tony Ramos
Tony Ramos interpreta André Cajarana na novela "Pai Herói", que começou a ser reprisada pelo Viva - Reprodução/Viva

"Pai Herói" vai desdobrar uma daquelas tramas bem romanescas de Janete, em que o amor se dá de forma ingênua e encantadora, no triângulo entre André, Carina e Ana Preta (Glória Menezes), dona de uma casa de samba no Rio no auge da beleza.

Glória faz aqui uma versão brasileira de Anna Magnani, a atriz neorrealista italiana de clássicos como "Mamma Roma" e "Roma, Cidade Aberta".

Como qualquer novela até meados dos anos 1980, esta nos lembra que as tramas da Globo já foram feitas 100% de atores de verdade, e não de jovens modelos de beleza estéril e quase nenhum talento.

Ver Paulo Autran, Rosamaria Murtinho, Lélia Abramo, Flávio Migliaccio, Beatriz Segall e tantos outros reunidos dá uma ideia clara de por que, com o enfraquecimento dos elencos, a novela foi perdendo força ao longo das décadas.

Numa quase ironia, a nova novela das 21h, "A Lei do Amor", se passa também numa bucólica cidade do interior, com cenas à beira do rio e um casal romântico que não está muito longe daquele de "Pai Herói". Mas o encanto do passado se perdeu, e está difícil embarcar nessa ingenuidade em pleno 2016. Fico com a novela velha.

Thiago Stivaletti

Thiago Stivaletti é jornalista, crítico de cinema e noveleiro alucinado. Trabalhou no "TV Folha", o extinto caderno de TV da Folha, e na página de Televisão do UOL. Viciou-se em novela aos sete anos de idade, quando sua mãe professora ia trabalhar à noite e o deixava na frente da TV assistindo a uma das melhores novelas de todos os tempos, "Roque Santeiro". Desde então, não parou mais. Mesmo quando não acompanha diariamente uma novela, sabe por osmose todo o elenco e tudo o que está se passando.

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