Thiago Stivaletti

Cinco coisas que não dá para engolir em 'Velho Chico'

O colete do Coronel Saruê

Quem ama e quem odeia “Velho Chico” concorda em apenas um ponto: o personagem de Antonio Fagundes é o erro da novela. Usa um figurino cômico, com aquela peruca ridícula que queria fazer referência ao Donald Trump —mas ninguém entendeu—, para um personagem que não foi escrito para a comédia. Ao contrário de um Odorico Paraguaçu, o Coronel Saruê é “sério”, “poderoso”, “autoritário” e não devia ter figurino tão patético. O ponto alto são aqueles coletes tamanho PP realçando a barriga do Fagundes. Por favor, ao menos relaxem esse colete e deixem Fagundão atuar sem ter que prender a respiração.

O celular que pega bem

Depois de “Babilônia” e “A Regra do Jogo”, a Globo sabia que precisava de uma novela rural bem sossegada para descansar o espectador. O problema é que uma novela passada às margens do São Francisco, longe de qualquer cidade grande, impede toda e qualquer ação de merchandising, certo? Errado. Outro dia, uma das personagens tirou o celular do bolso e começou a enumerar as vantagens do aplicativo do Itaú —que, claro, funcionava rápido que é uma beleza. Ou seja, novela é que é bom: mesmo no meio de um descampado, o seu 3G funciona perfeitamente —melhor do que quando chove em São Paulo.

Os mal-entendidos de Santo e Tereza

Toda a trama de “Velho Chico” se baseia num grande mal-entendido: Tereza (Camila Pitanga) escrevia cartas a Santos (Domingos Montagner) dizendo que estava grávida dele, mas a bruxa da mulher dele interceptou essas cartas e ele nunca soube disso. Tereza voltou à sua terra, os dois se reencontraram, mas lá se vão mais de 30 capítulos em que os dois se amam, se enroscam e se beijam no rio sem nunca esclarecer o assunto. Quando ele vai perguntar alguma coisa, ela logo precisa ir embora. Quando Santo conheceu Miguel pela primeira vez, foi parabenizar Tereza pelo lindo filho. E ela: “é só isso que você tem para me dizer? Que eu tenho um filho lindo?”, crente de que ele sempre soube que é o pai, mas sem botar tudo em pratos limpos. Haja paciência.

As camisas fashion do Miguel

Tudo bem, Gabriel Leone é a nova grande aposta de galã da Globo, com um talento dramático superior a Chay Suede. O filho de Tereza e Santo é mesmo um divo, mas fica meio esquisito realçar a beleza do moço com umas camisas moderníssimas que parecem saídas da passarela da São Paulo Fashion Week. Esta semana o menino estava ajudando os lavradores a arar a terra depois da chuva com uma camisa belíssima de gola aberta em várias camadas. Será que Ronaldo Fraga e o Oscar Metsavaht, dono da Osklen, tão indo toda semana para a beira do São Francisco levar roupas pro menino?

A namorada francesa do Miguel

Como a história da novela anda sempre a um por hora, os autores acharam que seria uma boa trazer uma nova personagem: Sophie (Yara Charry), a namorada francesa de Miguel. Tereza manda a moça vir da França para reconquistar o filho e afastá-lo de Olívia, que (teoricamente) é irmã dele. Mas agora Miguel já sabe que pode ser irmão de Olivia, já se afastou dela, não tá nem aí pra Sophie, e a moça fica vagando pela novela sem saber muito o que fazer. Os autores sabem: usam a pobre coitada para render uma ou duas cenas a mais por capítulo —ela fica ouvindo de Yolanda (Cristiane Torloni) um resumo de tudo o que está acontecendo na família. Não dá não.

Thiago Stivaletti

Thiago Stivaletti é jornalista, crítico de cinema e noveleiro alucinado. Trabalhou no "TV Folha", o extinto caderno de TV da Folha, e na página de Televisão do UOL. Viciou-se em novela aos sete anos de idade, quando sua mãe professora ia trabalhar à noite e o deixava na frente da TV assistindo a uma das melhores novelas de todos os tempos, "Roque Santeiro". Desde então, não parou mais. Mesmo quando não acompanha diariamente uma novela, sabe por osmose todo o elenco e tudo o que está se passando.

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