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Futebol? Ronaldinho? Nada disso, o que os cubanos adoram mesmo são as novelas brasileiras

31/12/2014 - 11h22

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Passei duas semanas de férias em Cuba em novembro com meus amigos Bia, Chico e Guilherme. Inacreditável: voltamos poucos dias antes do Obama anunciar que estava retomando relações com a ilha.

O que mais me impressionou em Cuba é que, quando você diz que é brasileiro, nem uma alma vira pra você e diz: "Brassíl, fútbol, Ronaldinho". Todo mundo, homens e mulheres, diz: "Brasssíl?! A mí me encanta las novelas brasileñas!".

Na TV estatal cubana passam sempre duas novelas por vez, reprisadas em dois horários diferentes cada uma. Ou seja, tem novela às 6h da manhã para ver antes de sair para o trabalho, às 11h, às 15h e às 21h. Agora, os cubanos descobrem com um certo atraso "Chocolate com Pimenta" (2003) e "Paraíso Tropical" (2007).

Dona Pátria, a dona da pensão onde ficamos em Havana, é uma dessas noveleiras loucas. Queria saber tudo sobre as novelas atuais —eram tantas perguntas que por algum tempo achei que poderia ficar na terra de Fidel dando palestras sobre novelas. Pátria ainda não se curou da paixão por "Jorgito", o personagem de Cauã Reymond em "Avenida Brasil", que acabou há pouco tempo lá. Mas também anda apaixonada por Olavo, o vilão de Wagner Moura em "Paraíso Tropical".

Perguntei a Pátria quem são seus atores brasileiros favoritos. "Aquele que fez 'El Rey del Ganado' [Antonio Fagundes]. Também me encanta la Malu [Mader]. E aquela, a Glória Pires? É verdade que ela é casada com aquele músico, o Alexandre Pires?". Tive que explicar que, no Brasil, Pires é quase tão comum quanto Silva, e que Glória é casada com outro cantor, mas não pagodeiro.

Os cubanos são unânimes em afirmar que as nossas novelas são melhores que as mexicanas, mas gostam de uma ou outra colombiana que passa lá. "As atrizes mexicanas usam uma maquiagem muito pesada, não é legal. As atrizes brasileiras, além de atuarem melhor, são mais bonitas, têm uma beleza natural", opina Lucía, vigia na torre de um museu na pequena cidade colonial de Trinidad.

A paixão dos cubanos pelas novelas brasileiras é antiga. Nos anos 80, Fidel Castro autorizou a suspensão do racionamento de energia elétrica para que o povo não perdesse nenhum capítulo de "A Escrava Isaura". A Federação de Futebol Cubana teve de alterar o horário das partidas porque o público preferia ficar em casa, com a TV ligada. Há a lenda de que o próprio Fidel mudava o horário das reuniões para não perder o sofrimento de Lucélia Santos.

Também pudera. A novela cubana do momento, "La Outra Esquina", que passa três vezes por semana no canal CubaVisión, é precária demais. História fraca —uma advogada que descobre a traição do marido e volta a morar com os pais, levando o filho junto—, uma iluminação que mal pode ser chamada assim, e um machismo latente: no capítulo que assisti, havia dois casais com homens de 60 anos nada bonitos, com mulheres lindas de 30 anos perdidamente apaixonadas por eles —e não por dinheiro ou interesse. No Brasil, estamos um pouco melhor na fita...

Thiago Stivaletti

Thiago Stivaletti é jornalista, crítico de cinema e noveleiro alucinado. Trabalhou no "TV Folha", o extinto caderno de TV da Folha, e na página de Televisão do UOL. Viciou-se em novela aos sete anos de idade, quando sua mãe professora ia trabalhar à noite e o deixava na frente da TV assistindo a uma das melhores novelas de todos os tempos, "Roque Santeiro". Desde então, não parou mais. Mesmo quando não acompanha diariamente uma novela, sabe por osmose todo o elenco e tudo o que está se passando.

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