Renato Kramer

'Eu não me achava um bom diretor de novela', confessa Guel Arraes

"Eu percebi que a novela não era o melhor pra mim, porque eu sou ruim de improvisar... Mas sou bom de preparar", disse o diretor Guel Arraes em entrevista ao "Ofício Em Cena" (Globonews) na última terça-feira (26).

Mas Arraes não queria arredar o pé da televisão, em que acreditava tanto, então foi fazer o que afirma sempre queria fazer na própria televisão: "algo mais inquietante, que pudesse questionar mais o espectador ao mesmo tempo que fosse comercialmente viável".

Guel dirigiu então programas bastante diferenciados para a época, e muito bem recebidos pelo público: a série "Armação Ilimitada" (!985-1988) e o humorístico "TV Pirata" (1988-1990 e 1992).

"Aí passei a ser uma porta na televisão para várias pessoas da cena alternativa: desde Regina Casé e Luiz Fernando Guimarães (do grupo "Asdrúbal Trouxe o Trombone") até mesmo o pessoal do besteirol, com nomes como Pedro Cardoso, Felipe Pinheiro e Miguel Falabella, que já estava na televisão, mas enfim depois se juntou com a turma", relembra Arraes.

O diretor conta que assim passou a fazer parte dessa turma que tentava novos formatos para a televisão, até como alternativos às novelas. Foi bom, porque eu não me achava um bom diretor de novela", confessa Guel.

Guel Arraes e Marco Nanini no Cine PE
Guel Arraes e Marco Nanini - Crédito: Daniela Nader/Divulgação

A apresentadora Bianca Ramoneda citou um sonho confesso do diretor Guel Arraes de uma televisão coletiva. "O que é isso na prática?", quis saber Ramoneda.

"Basicamente a criação do texto. Trabalhar em grupo, criar em grupo tem sempre uma centelha que vem de algum lugar. A gente reúne e discute as ideias, e a boa ideia tem uma capacidade incrível de se impor", explica Arraes. "Ninguém precisa dizer isso aqui é melhor, é a própria ideia que ganha. Nenhum convence o outro, não existe um 'faça isso!'. O espaço mais democrático tem que ser o da criação", completa.

"E é sempre harmônico assim?", cutuca Ramoneda. "Não... Quase nunca", retruca Guel serenamente. E observa que devemos sempre procurar trabalhar com quem admiramos e que nos admire também.

Sobre a influência da televisão nos Estados Unidos e no Brasil, Guel afirma que contraditoriamente temos grandes diferenças, mas grande semelhanças também. "O povo brasileiro é muito apaixonado por televisão pela novela. Nós temos um gênero que é único no Brasil que é a novela, que ocupa o horário nobre. Lá (USA) eles não tem isso, lá funcionam mais os seriados", declara Arraes.

E acrescenta: "Por isso os seriados brasileiros têm uma tarefa mais complicada, que é a de não repetir a novela. Embora uma das novidades dos seriados americanos foi ter incluído aspectos da novela: tem seriados que terminam com gancho para a continuação. Uma boa parte do princípio do novo seriado americano vem deles terem incluído a novela dentro do seriado", afirma Arraes.

Fazer isso no Brasil seria inventar a roda, comenta o diretor, já que a novela aqui é o destaque há muito. "Seria sair de uma novela para entrar em outra novela. Então os nossos seriados têm uma função importante que é se diferenciar da novela: trazer outros temas, criar formatos diferentes", conclui.

Renato Kramer

Natural de Porto Alegre, Renato Kramer formou-se em Estudos Sociais pela PUC/RS. Começou a fazer teatro ainda no sul. Em São Paulo, formou-se como ator na Escola de Arte Dramática (USP). Escreveu, dirigiu e atuou em diversos espetáculos teatrais. Já assinou a coluna "Antena", na "Contigo!", e fez críticas teatrais para o "Jornal da Tarde" e para a rádio Eldorado AM. Na Folha, colaborou com a "Ilustrada" antes de se tornar colunista do site "F5"

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