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O preço amargo da fama instantânea no 'BBB'

21/04/2015 - 18h41

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DE SÃO PAULO

É da natureza humana a necessidade de obter aprovação e de ser reconhecido. Começa na infância, quando pais e professores ensinam à criança que sua atitude só tem valor se eles a aprovarem.

Mas a busca pelo reconhecimento do outro pode se tornar doentia, e existe um catálogo extenso de comportamentos patológicos que envolvem a necessidade de atenção, do narcisismo às personalidades histriônicas. São pessoas que geralmente dramatizam situações para impressionar os outros e agem com falta de sinceridade.

Participantes de reality show são reconhecidamente fortes candidatos a essas enfermidades, e para vários deles a fama instantânea se assemelha a um medicamento: traz bem estar e alívio no início, mas terríveis efeitos adversos após a administração contínua.

No mundo do entretenimento talvez poucas coisas sejam ao mesmo tempo tão prazerosas e cruéis quanto a fama instantânea, porque não se pode prever a consequência que a superexposição do passado trará no futuro.

Para participantes do "BBB", as dificuldades já começam assim que deixam o confinamento. Com o declínio do formato e perda de audiência na emissora, a cada ano eles são menos convidados para outros trabalhos dentro da TV Globo.

Ávidos pelo estrelato mas presos a um contrato rigoroso que os deixa à disposição exclusiva por um salário mixuruca de cerca de R$ 700,00 ao mês até julho, os "brothers" passam por um processo de declínio midiático intencional e perverso, proibidos de aparecer em outros canais até que ninguém se lembre deles.

A máquina de construção em série de celebridades produz e descarta com a mesma rapidez.

Participantes de reality show são um produto televisivo de consumo rápido e tido como pouco sustentável, por isso precisam ser reciclados para que haja espaço na lixeira da próxima temporada. Em sua maioria não há talento que justifique a longevidade.

Impedidos de revelar seus talentos para a televisão, sobrevivem nos holofotes aqueles que alimentam a mídia do pouco que restou de suas intimidades produzindo factoides, ou na pior das hipóteses protagonizando algum escândalo.

Amanda e Fernando, principais destaques do "BBB15", estão nas manchetes dessa semana pelas mesmas razões que atraíram a atenção durante o programa: a ambiguidade de suas declarações.

Fernando fez uma festa de aniversário e soltou uma nota alegando que Amanda foi convidada mas que ela teria recusado, e ainda ligado e agradecido. Por sua vez, Amanda negou o convite de Fernando e através de sua assessora disse desconhecer tal ligação e conversa. Quem foi o menos sincero?

Tudo é possível nesse chorume, em especial a possibilidade de que ambos distorceram os fatos cada qual à sua maneira para que a realidade se torne menos fétida a todos. O importante é pensar no futuro.

A ex-BBB Juliana Lopes talvez não tivesse pensado no seu quando aceitou participar do "BBB4". Reclusa há anos em Miami, onde trabalha anonimamente como advogada e corretora imobiliária, tem vivido um pesadelo desde que seu nome caiu maliciosamente na imprensa norte-americana.

Acusada de ter usado a influência de um senador para conseguir visto de permanência nos EUA, teve seu nome ligado a um suposto esquema de corrupção que envolve um médico financiador da campanha do tal senador. Nas matérias, a ex-BBB é tratada como mulher objeto e suas capas de nu do passado estampam as publicações.

Juliana Lopes é do tempo em que as revistas masculinas ainda pagavam cachê razoável para ensaios de nu, e era comum que as participantes mais destacadas posassem, nada demais até aí. Grazi Massafera e Sabrina Sato também fizeram, inclusive.

Mas a vulgarização com que tem sido retratada na imprensa norte-americana levou até Juliana o histórico que ela talvez quisesse ter enterrado quando deixou o Brasil em busca de outro tipo de reconhecimento. Onze anos depois ela ainda paga o preço amargo das escolhas narcisistas.

Sem a fama instantânea do passado, Juliana certamente teria boas chances de passar desapercebida nesse escândalo. Que fique o aprendizado para as gerações futuras: o anonimato vale ouro.

Marcelo Arantes

Marcelo Arantes é médico psiquiatra e psicoterapeuta, atende adultos e crianças em São Paulo e interage com os leitores por meio do site "www.marceloarantes.com"

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