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Por que uma dança de mulheres de shortinhos gerou escândalo na Austrália

O grupo dançando twerk em frente ao novo navio de guerra australiano HMAS Supply
O grupo dançando twerk em frente ao novo navio de guerra australiano HMAS Supply - BBC News Brasil/@alexbrucesmith/Twitter
Frances Mao
BBC News Brasil

Um vídeo de mulheres usando shortinhos e dançando twerk num evento militar gerou escândalo na Austrália e dividiu opiniões.

O twerk é um tipo de dança que envolve principalmente movimentos dos quadris e agachamentos, um pouco parecida com a dança do funk brasileiro.

A cena do evento australiana era incongruente, bizarra e engraçada. Então, é claro, viralizou na internet ao ser divulgada na quarta-feira (14).

Mas a coreografia em estilo de videoclipe –incluindo reboladas, balançadas e tremores de bundas– também foi alvo de críticas. Parlamentares conservadores puxaram o coro daqueles que consideraram o conteúdo "inapropriado".

Os tabloides publicaram manchetes criticando os padrões militares. Mas outros se ofenderam por razão diversa –considerando a atuação das dançarinas vergonhosa, e rotulando a coreografia como excessivamente "sexualizada".

Isso, por sua vez, gerou críticas ao policiamento dos corpos das mulheres e da dança feminina. O grupo de dançarinas envolvido na filmagem, chamado 101 Doll Squadron, reclamou da cobertura midiática do caso.

Quando se tornou público que o vídeo havia sido editado de maneira enganosa pela ABC, a rede pública de televisão, essas vozes se tornaram ainda mais eloquentes. Afinal, como exatamente essa saga do "twerking da Marinha australiana" se desenrolou?

UM PASSO A PASSO DO QUE ACONTECEU

O grupo 101 Doll Squadron foi contratado pela Marinha Real Australiana para se apresentar na cerimônia de lançamento no sábado (10) de um novo navio, o HMAS Supply.

O evento, no entanto, só ganhou ampla repercussão após um repórter da ABC compartilhar um vídeo no Twitter contendo cenas das mulheres fazendo sua dança animada, diante de reações impassíveis dos líderes militares presentes.

A postagem, depois deletada, citava um parlamentar governista lamentando a queda nos padrões das Forças Armadas. A combinação levou a postagem a viralizar nas redes.

Mas, na quinta-feira (15), se tornou público que a filmagem havia sido editada de forma enganosa pela ABC, que emitiu um pedido de desculpas.

A Marinha informou que nenhum dos oficiais ou autoridades presentes, como o governador-geral, testemunhou a performance, que aconteceu antes da chegada dos convidados.

O primeiro-ministro Scott Morrison disse que os "padrões militares falharam", mas criticou a reportagem equivocada feita pela ABC. A Marinha não explicou por que as dançarinas foram contratadas.

O vídeo mostra que o restante do evento aconteceu em ritmo menos alucinante. O encontro contou com a típica pompa e circunstância: apresentações de bandas militares; discursos formais; e fileiras de marinheiros fazendo saudações militares e marchando de forma sincronizada –num ritmo muito menos animado que o das dançarinas.

Mas a performance de dança já havia se espalhado pela internet e estava gerando uma forte reação negativa.

'SEMINUAS...PROVAVELMENTE É INAPROPRIADO'

Políticos conservadores entraram na discussão logo na quinta-feira pela manhã, dizendo que se tratava de uma apresentação inapropriada para um evento militar.

A senadora independente Jacqui Lambie, veterana do exército, classificou como "absolutamente chocante" a decisão da liderança militar.

Ela disse que parecia que estava assistindo ao Super Bowl, referindo-se ao intervalo do jogo final do campeonato de futebol americano dos Estados Unidos, caracterizado por performances de dança e apresentações de cantores famosos, como Jennifer Lopez, Shakira, Justin Timberlake e Lady Gaga.

"Bom para aquelas jovens terem ido lá se apresentar, mas eu digo que estarem seminuas em frente a um navio de guerra provavelmente é inapropriado", disse a parlamentar.

As críticas à inusitada escolha de entretenimento dos militares logo se converteram em estigmatização e sexualização das dançarinas e do estilo de dança.

O 101 Doll Squadron é um grupo comunitário de dança com participantes de origem indígena e multiétnica.

Elas são especializadas em ritmos como dancehall, reggae, afrobeats, jazz comercial e hip hop —gêneros que muitas vezes chocaram a cultura branca tradicional, mas que são hoje em dia bastante comuns na dança contemporânea.

O grupo é normalmente contratado para festas, despedidas de solteiro e eventos. Mas o tabloide australiano The Daily Telegraph —parte do grupo midiático do empresário Rupert Murdoch— publicou fotos das dançarinas na sua capa, em página dupla.

Muitos comentaristas na internet expressaram opiniões de que a coreografia era "degradante para as mulheres". E ligaram o acontecimento a um debate mais amplo sobre desigualdade de gênero que atualmente domina a política australiana.

O artigo original da ABC citava —anonimamente— outro parlamentar que disse: "Num momento em que estamos lutando pelo direito das mulheres de não serem objetificadas, haveria outros tipos de dança que seriam divertidas e igualmente animadas."

Mas, ao supostamente falarem pelo direito das mulheres, poucos perguntaram às dançarinas o que elas mesmas pensavam.

'VOCÊS NOS SEXUALIZARAM'

Na quinta-feira pela manhã, a discussão sobre o vídeo "escandaloso" dominava os programas matinais de televisão e rádio. O twerking —que gerou polêmica pela última vez em 2013, após uma apresentação da cantora Miley Cyrus em premiação da MTV— voltou aos assuntos mais comentados do Twitter na Austrália.

Mas membros do grupo 101 Doll Squadron afirmaram que a amplificação gerada pela mídia foi o mais danoso.

Em particular, elas acusaram a ABC de "edição enganosa", por falsamente incluir imagens de oficiais e autoridades no vídeo, e por conter "filmagens a partir de ângulos que não podiam ser vistos pela plateia" —o vídeo foi filmado de baixo para cima, enfatizando os glúteos das dançarinas.

"Achamos isso muito assustador e diz mais sobre o operador de câmera da ABC e a necessidade deles de sexualizar essas mulheres e sua dança para seu próprio prazer", disse a nota oficial publicada pelo grupo.

Elas relataram que foram vítimas de ataques e insultos na internet e se sentiram "ameaçadas e expostas" como resultado da atenção gerada.

Outros comentaristas na internet questionaram se a histeria era mesmo em reação aos movimentos das dançarinas e ao estilo de dança.

O site australiano de conteúdo para mulheres Mamamia publicou um artigo dizendo: "Foi a Marinha Real Australiana que tornou a coisa bizarra. Foi a Marinha Real Australiana que transformou a arte delas em algo ridículo."

"Na verdade, essas mulheres estavam apenas fazendo seu trabalho."

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