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Descrição de chapéu dia dos pais

Pais influenciadores incentivam participação ativa na criação dos filhos

Grupos de apoio, perfis com dicas e atividades com as crianças ganham as redes

Patrick Bragato com os filhos Daniel (esq.) e Louis (dir.), que juntos fazem conteúdos para as redes sociais Rubens Cavallari/Folhapress

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São Paulo

Um novo modelo de paternidade, mais presente e participativo, tem conquistado cada vez mais adeptos. O interesse por conhecer mais formas de se relacionar com os próprios filhos tem se mostrado um campo fértil nas redes sociais, onde papais influenciadores têm ganhado espaço com a proposta de mostrar a rotina ou dar dicas para outros pais, especialmente os de primeira viagem.

É o caso de Tiago Koch, 38, criador do Homem Paterno. O gaúcho, que é morador de Ubatuba (litoral norte de SP), é pai das meninas Iara, de 5 anos, e Nalu, de 1 mês. Desde o nascimento da primeira filha, ele sentiu falta de mais ferramentas para a apoiar a mulher, Bruna.

"Como pai, comecei a ver que me faltava esse repertório sobre paternidade", afirma. "Tinha muitos sentimentos que estava vivenciando que não conseguia nem nomear. São questões pessoais, de luto pela perda de liberdade, do protagonismo da própria vida... Isso se apresentou de uma forma muito intensa para mim. A partir desses gatilhos, comecei a me interessar e buscar esses conhecimentos."

Aos poucos, ele começou a pensar em formas de compartilhar o que estava aprendendo. A grande virada de chave foi quando ele participou de um grupo que discutia masculinidades, no qual percebeu que havia espaço para criar uma comunidade específica para os pais discutirem suas questões.

"A profundidade de troca era maior do que a que tive com meus amigos próximos e mesmo com meu pai. Porém, as histórias conversavam comigo, mas não com o que eu estava vivendo. Foi quando surgiu o meu projeto."

Cinco anos depois, ele mantém um grupo com cerca de 700 pais em aplicativos de troca de mensagens, que faz reuniões (no momento virtuais) gratuitas a cada 15 dias com os participantes. Também tem quase 100 mil seguidores acompanhando as dicas que ele passa sobre o assunto no Instagram, além de participar de podcasts, produzir eventos e dar cursos de gestação, parto e puerpério para homens.

"Nosso principal papel é oferecer suporte e acompanhamento para que a mulher possa protagonizar de forma mais leve e inteira esses momentos", diz. "O meu sonho é que os homens se apropriem desse cuidado com os filhos, porque essa é uma das principais afirmações da masculinidade."

"Se preparar para a paternidade, buscar conhecimento, saber como auxiliar essa mulher que está vivendo essa grande transformação não é ser legal, é assumir a sua responsabilidade", afirma. "Tudo o que envolve a criação, a existência daquela criança é da sua responsabilidade."

Ele diz que já estivemos mais longe dessa utopia. "Existe um movimento de homens e pais que buscam ressignificar a paternidade a partir da presença, da disponibilidade afetiva", conta. "Porém, ainda existe um descompasso entre essa transformação dos homens e dos pais e as urgências sociais."

"Quando vemos a quantidade de mães solo no Brasil, a quantidade de filhos sem nome do pai na certidão, percebemos que os marcadores não são positivos", explica. "É importante que o que estamos fazendo não seja hipervalorizado, porque estamos atrasados no que diz respeito à equidade."

Na própria casa, Koch conta que os aprendizados foram valiosos, especialmente na chegada recente da segunda filha. "Tanto eu como a Bruna amadurecemos, estamos mais seguros. Todo o conhecimento que adquirimos nesses últimos cinco anos facilitam. Conseguimos lidar com os desafios de forma mais leve e assertiva."

O influenciador entende que isso é muito diferente de como as gerações anteriores lidavam com o tema. Ele próprio, por exemplo, teve o avô Ronaldo como primeira figura paterna, após os pais se separaram quando ele ainda era muito novo. Mais tarde, o padrastro, Gabriel, e o pai biológico, Luís, também viriam a se tornar referências.

"Todos eles tiveram suas questões sobre paternidade, que eram normais dentro da formação de cada um, da época de cada um", avalia. "Todos me trazem à mesma pergunta: o que eu quero replicar e o que não quero? Porque até uma ausência é uma referência."

PRESENÇA

Foi na véspera do Dia dos Pais de 2019 que Humberto Baltar, 40, descobriu que seria pai pela primeira vez. No ano seguinte, chegaria Apolo, hoje com 1 ano. "Foi a maior surpresa que tive na vida, mas logo depois bateu a neura porque toda hora tem uma história de racismo e me perguntei como eu ia levar a questão racial", conta.

Professor de ensino fundamental no Rio de Janeiro, ele decidiu ir às redes sociais para perguntar quem conhecia pais pretos a quem ele poderia recorrer para tirar dúvidas sobre o assunto. A publicação acabou viralizando e apareceram pessoas de diversas partes do Brasil, além de Angola e Moçambique, interessados em trocar ideias.

A partir daí, foi criado o grupo em um aplicativo de mensagens que foi o embrião do Pais Pretos Presentes (aberto também a não-pretos e famílias interraciais). "Logo no começo houve relatos muito fortes. Teve um pai que tinha perdido um bebê de 5 meses e disse que todos consolavam a esposa, mas para ele não diziam nada. A sociedade não enxergava a afetividade do homem preto."

Hoje, o coletivo tem cerca de 50 mil seguidores no Instagram e outros 25 mil no Facebook, além de perfis em outras redes sociais, podcast e canal no YouTube. "Percebi que a demanda era muito grande, e o grupo começou a ter uma repercussão e um interesse que foi muito além do que eu imaginava", diz.

"Eu já havia estado em grupos de masculinidade saudável, mas dar o devido destaque à questão racial faz uma diferença enorme, porque esses pais se sentem contemplados."

"O nosso machismo estrutural não nos deixa colocar as dores para fora", explica. "No nosso grupo, tem acolhimento, escuta ativa, roda de conversa pelo Zoom... É muito interessante ver como esses homens se abrem, colocam para fora suas dores. É algo que começou despretensiosamente e se transformou em espaço de cura."

Baltar passou a dar palestras e consultorias a respeito de paternidade preta em empresas. "As pessoas estão entendendo que essas discussões são fundamentais para ter um ambiente saudável. Não dá para colocar a questão racial na gaveta como se não fosse uma questão."

Ele lembra que os pretos são as maiores vítimas de assassinatos no Brasil, bem como crianças pretas têm mais dificuldade de serem adotadas, por exemplo. "Uma questão muito dolorosa e comum é dizerem que não querem ter filhos, especialmente quem mora em comunidades. As pessoas ficam com medo de ter filhos pretos e perder para a violência."

A própria experiência dele, na infância, também o influenciou. "Eu tive um pai mais do estilo provedor, que amava dando coisas. Nessa coisa de falar de sentimentos, dar abraço, foi totalmente ausente", conta.

"Esse foi o modelo que ele teve. Cresceu em comunidade e queria que eu tivesse uma vida melhor, então para ele criação era ter recursos. Eu tinha medo de não conseguir ser amoroso com o meu filho por causa disso. Estar com outros homens pretos me fez ver que minha paternidade não precisava repetir a do meu pai."

O nascimento do filho, pouco depois do começo da pandemia, acabou sendo vantajoso. "Tive o privilégio de ser um pai presente, vi meu filho aprender a andar, balbuciar as primeiras frases, de certa forma foi uma bênção. A maioria dos meus colegas não teve essa chance."

Sobre o período da gestação, ele afirma que a maioria dos homens erra por entender que o bebê precisa apenas da mãe. E lembra que a licença-paternidade garantida por lei no Brasil é de apenas cinco dias, enquanto a licença-maternidade é de quatro meses. "É menor que o feriado de Carnaval", compara. "Para o estado, é mais importante cair na folia do que paternar."

Com a pandemia e o fechamento das escolas, ele conseguiu cuidar do filho enquanto a mulher, que é engenheira, precisava trabalhar fora. Assim, entre uma aula e outra, ele pode dar mamadeira, banho de sol e brincar com Apolo.

NA COZINHA

Entreter os filhos durante a pandemia também foi o que levou o chef de cozinha Patrick Bragato, 36, a criar o "Pai, Tô com Fome!". O projeto tem 327 mil seguidores e 3 milhões de curtidas no TikTok, além de presença em outras redes sociais e canal no YouTube.

Nos vídeos, o franco-brasileiro aparece ensinando receitas para o filho, Louis, de 11 anos, que foi o responsável pela ideia de transformar o pai em influenciador. "A iniciativa foi 100% dele. Um dia ele surgiu com o celular na mão e começou a filmar uma receita. Disse que era para o TikTok. Eu nem sabia o que era isso, mas pensei: 'Vou deixar ele se distraindo dessa maneira'. O primeiro vídeo foi super espontâneo, eu salteando cogumelo paris na manteiga com um pouco de sal."

Ao ver que a produção caseira já passava de 50 mil visualizações, Bragato passou a fazer mais vídeos —hoje já são mais de 250 receitas filmadas—, agora com a participação ativa do filho na frente da câmera também. "Começou a realmente uma brincadeira entre pai e filho."

Uma brincadeira de toda a família, aliás, já que o caçula, Daniel, de 8 anos, ajuda na parte da produção, e e a mulher de Bragato, Sylvia, que trabalha no meio audiovisual, dá dicas para deixar o conteúdo atrativo. "Se tornou a nossa rotina em casa: de manhã estudar, de tarde fazer receitas e de noite editar os vídeos."

A atividade, segundo ele, acabou os aproximando ainda mais. "Éramos uma família já muito unida, mas o projeto fez a gente viajar um pouco, sair do comum para uma rotina mais dinâmica. O que mais me deixou emocionado foi ele tão criança não ter medo de correr atrás dos próprios sonhos."

E isso até acabou inspirando o pai do garoto. "Sou de um universo mais clássico e ficava pensando se isso era compatível com a zoeira das redes sociais. Depois percebi que não tinha nada a ver. É só um pai que posta vídeos se divertindo com seu filho."

Pelas redes sociais, eles costumam receber diversas mensagens, seja de pessoas tentando fazer as receitas ensinadas, seja tirando dúvidas sobre as técnicas mostradas. Mas Bragato também tem sido procurado para falar sobre o poder da diversão na educação dos filhos. "Sentimos a presença de muitos pais tentando entender como a gente pode combinar essas duas coisas", conta.

"Fizemos várias lives falando da importância do alimento e da conexão entre pai e filho. A pandemia foi um período muito estressante, as pessoas estavam procurando como transformar o cotidiano em algo educativo. É um desafio criativo constante."

Bragato conta que ainda não sabe se a prole, mesmo demonstrando alguma inclinação, vai seguir seus passos profissionais. "O Louis adora comer e descobrir novos sabores, é mais do universo da degustação [risos], quando vai cozinhar são receitas mais de TikTok, como lasanha em um minuto e bolo de caneca", entrega.

O menino ganhou uma bolsa em uma escola de teatro da capital e tem se interessado cada vez mais pelo universo artístico, segundo o pai. "Ele já está me começando a me pedir para gravar vídeos com outros tipos de conteúdo, até ficcionais", diz o chef. "Estamos escrevendo os roteiros."

Por outro lado, quem se vira mais na cozinha é Daniel. "Embora seja mais fechado para aparecer nos vídeos, ele adora animes, então outro dia pegou as referências e resolveu fazer um lamen. Ele cortou os vegetais, botou a massa para cozinhar, fez o caldo... Ele tem essa facilidade."

Mesmo assim, o pai diz que ainda não sabe se gostaria que um dos meninos fosse chef de cozinha. "Conheço a realidade da profissão, tem o lado diversão, mas são horas e horas na frente do fogão e precisa de uma dedicação total ao conhecimento, à pesquisa e às técnicas."

O profissional, que morou anos na França e voltou ao Brasil em 2015, diz que optou por não abrir restaurante em São Paulo para poder acompanhar o crescimento dos filhos mais de perto. "Essa fase precisa de atenção, carinho e presença. Tenho esse privilégio de ficar com eles aqui cozinhando bastante. O melhor presente é quando você vê quando um deles dá a primeira garfada, ama de paixão e dá aquele: 'Hummmmmm'."

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