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Com 55 filhos, deputada quer acelerar processo de adoção: 'Abrigo não foi feito para criança morar'

Flordelis diz que chegou a provocar a ira do tráfico por sua atuação Rio

Deputada federal e mão de 55 filhos, pastora Flordelis quer desburocratizar adoção no Congresso - Divulgação
 
Lucas Rezende
São Paulo

“Não matem ele. Se ele errar de novo, vocês vêm atrás de mim”, disse a deputada federal Flordelis (PSD) , 58, no alto da favela do Jacarezinho, na zona norte do Rio de Janeiro, onde foi criada, interrompendo um tribunal do tráfico orquestrado por traficantes armados com fuzis. O ano era 1995 e em jogo estava a vida de um adolescente de 13 anos jurado de morte porque havia adulterado a produção de cocaína, de modo que o carregamento rendesse mais que o usual e pudesse, assim, desviar dinheiro do crime.

“Eu já despertei muito a ira do tráfico. Sou evangélica de berço, filha de frequentadores assíduos da igreja, e fazia trabalho missionário na favela resgatando crianças, tentando que não fossem tomadas pelo tráfico. Naquele dia, uma mãe veio até a mim pedindo ajuda porque o filho estava jurado de morte. Soube que ele havia sido levado para o fuzilamento e não pensei duas vezes em ir até lá. Graças a Deus ele me foi entregue, com vida, e nunca mais cometeu aquele erro. Hoje, é casado, um pai de família. Dá medo, mas a vontade de fazer alguma coisa é maior”, diz.

Por conta dessa vontade, Flordelis comemorará o Dia das Mães neste domingo (12) ao lado de 55 filhos —sendo quatro biológicos. O mais novo tem sete anos. O mais velho, 40. Do montante, seis são casados e já saíram de casa. O restante mora numa mesma residência de 14 quartos e oito banheiros em Niterói, no Grande Rio. Quando já estava cuidando de cinco crianças recebeu mais 37 jovens de uma só vez.

Foi depois da chacina da Central do Brasil, no centro do Rio, quando um grupo de extermínio partiu em busca de assassinar crianças de rua que dormiam em frente à igreja da Candelária em 1993. Neste episódio, 10 crianças morreram. No ano seguinte, um novo ataque aconteceu contra sobreviventes que passaram a dormir na Estação Central do Brasil.

“Fui procurar uma menina moradora do Jacarezinho que havia fugido de casa. Eu só tinha um retrato dela na mão. Chegando lá, encontrei uma mãe que havia jogado sua própria filha no lixo com 15 dias de nascida. Como eu fiquei com a filha dela, ela sabia onde poderia procurar ajuda para as outras crianças da Central”, explica.

Para alimentar a tropa, contou com a ajuda de ONGs da própria Associação de Moradores do Jacarezinho. Até que a solidariedade virou problema de Justiça. Como as adoções não eram legais, o Juizado da Infância e Juventude tentou retirar as crianças de Flordelis. Ela, então, fugiu para não entregá-las e ficou quatro meses escondida com a prole.

Foi encontrada, fugiu novamente, até que encontrou abrigo em outra comunidade violenta no Rio, a de Parada de Lucas. Ganhou a pecha de sequestradora de crianças. Mas após quase nove meses de gato e rato com o Judiciário, conseguiu diálogo com um juiz e se enquadrar na legislação. Não à toa, parte de sua história está no documentário "Flordelis - Basta uma palavra para mudar", lançado em 2009 e que contou com atores do naipe de Reynaldo Gianecchini, Deborah Secco e Letícia Sabatella no elenco —sem cobrar cachê.

DO PÚLPITO GOSPEL À CÂMARA

Casada com o pastor Anderson Gomes e filha do que chama de “uma mulher de oração” com um “músico da igreja”, Flordelis seguiu carreira de cantora gospel —sua discografia abrange dez discos lançados— e, pastora, criou a Comunidade Evangélica Ministério Flordelis em meados de 1992 num salão da rua Santa Laura, na favela do Jacarezinho, com capacidade apenas de 60 pessoas. O tempo passou e ela conseguiu um novo espaço na rua Guilherme dos Santos Andrade, em São Gonçalo, com capacidade para receber 5.000 fiéis.  

No pleito de 2018, lançou-se vitoriosa na política: obteve 196.959 votos totalizados e conseguiu uma cadeira na Câmara dos Deputados em Brasília (DF), encorpando ainda mais o tamanho da bancada evangélica — foram eleitos 84 candidatos identificados com a crença. Agora, diz ter uma missão maternal na política. Quer aprovar um projeto de lei que delimite o tempo do processo de adoção para nove meses —o mesmo que o de uma gestação.

“Abrigo não foi feito para criança morar, e sim para ser casa de passagem. O Brasil tem 44 mil crianças e adolescentes atualmente vivendo em abrigos, mas cerca de 9.000 habilitadas para adoção. Temos que mudar essa realidade”, brada. Para ajudar no drama, quer convencer a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) a fazer com que crianças de abrigo, a partir de seis anos de idade, entrem com os jogadores no gramado —clássica cena das partidas dominicais. “Assim, a causa ganha visibilidade. O Flamengo amou a ideia”, contou.

O projeto está montado e aguarda um seminário de debates sobre o assunto para o dia 21 de maio —quatro antes do Dia Nacional da Adoção. Enquanto isso, Flordelis também se incomoda com o sistema de aviso de crianças abrigadas: é lançada no "Diário Oficial", segundo ela, a procura por algum parente que possa ou queira ficar com a criança. “Pobre lá vai ler Diário Oficial? Me poupe! As redes sociais podem muito bem ajudar nisso. Precisamos mudar a burocracia. Há crianças que entram no abrigo com dois anos, fazendo cinco e ainda ficam lá”, reclama.

Para além dos gabinetes, Flordelis trava outra luta para ajudar uma moradora de São Gonçalo, que trabalhava para o tráfico de drogas ensacando a produção. Quando parte do carregamento sumiu, ela foi severamente castigada pelos criminosos. Segundo a deputada, a menina foi espancada, abandonada por três dias num terreno baldio desacordada. Bichos passaram a comer os machucados de seu rosto, até contrair uma infecção.

“Estamos tentando refazer o rosto dela, mas é muito, muito caro. Porque não é um procedimento único, são vários. Não é nada simples, uma vez que envolve perda da carne do rosto, da pele. Além do mais, ela é usuária de crack lutando para se recuperar”, conta, mostrando que luta de mãe não tem fim.

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